Violeta Imperial.


Autora: Brbara Cartland.

Gnero: Romance.
Ttulo Original: NO ESCAPE FROM LOvE.
Digitalizao: Ana Paula.

Correo: Ftima Toms
Estado da Obra: Corrigida

Numerao de pgina: Rodap.


EDITORA EDIBOLSO GRUPO ABRIL
Caixa Postal 2372 So Paulo
Em 1789, a Revoluo Francesa derruba o regime monrquico, Lus XVI  decapitado e instaura-se a Repblica na Frana. Em 1799, porm, Napoleo Bonaparte torna-se 
o primeiro cnsul, derrota a coalizo austro-inglesa e, em 1804, sagra-se imperador e chefe supremo dos exrcitos da Frana, comandando seus soldados numa srie 
de brilhantes vitrias contra os pases europeus.
Os fatos narrados neste romance sobre as perseguies a estrangeiros radicados ou em visita  Frana e sobre a vida de Pauline Bonaparte so todos reais. O Palcio 
de Charost, onde a princesa viveu em Paris, foi comprado em 1814 pelo duque de Wellington e desde aquela poca at hoje  onde funciona a Embaixada Britnica. Naquele 
magnfico edifcio ainda so conservados mveis e objetos pessoais da princesa Paulne, inclusive o seu estupendo e luxuosssimo leito principesco
A presena do almirante Nelson, comandante da Armada Britnica, tambm faz parte da real Histria europia.

Ttulo original: "NO ESCAPE FROM LOvE"
Copyright: CARTLAND PROMOTIONS 1977
NOTA DAAUTORA
Traduo: T. MOREIRA
Copyright para a lngua portuguesa: 1981 EDITORA EDIBOLSO LTDA. So Paulo
Uma empresa do GRUPO ABRIL
composto na LINOART
e impresso nas oficinas da
ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL
EDITORA EDIBOLSO - GRUPO ABRIL Caixa Postal 2372 - So Paulo

Digitalizao:

Ana Paula

Correco:

Ftima Toms


CAPTULO I

1805
- Acabei, mame!
Lady Waltham, que estava deitada, de olhos fechados, abriu-os e disse:
- Fico contente, querida!
Sua voz era muito fraca, e, ainda que estivesse excessivamente magra, quase definhando, e plida demais, a ponto de parecer translcida, percebia-se que tinha sido 
uma mulher muito bonita.
Sua filha Vernita era magra tambm, mas possua a graa e a beleza da juventude. Nesse instante, ela mostrava um nglig  me, para que esta o examinasse.
Confeccionado artesanalmente em musselina indiana, o traje era debruado com o mesmo tecido em tom rosa-plido e trazia laos do mesmo material, enquanto os passamanes 
eram de renda feita com agulha. 
Ele parecia curiosamente fora de lugar, naquele sto nu, com seu assoalho de madeira e janelas sem cortinas.
- Voc fez com que ele ficasse maravilhoso, querida - disse lady Waltham -, e esperemos que lhe paguem imediatamente!
- Estive pensando, mame - disse Vernita -, e acho que no o levarei  Maison Clar, mas diretamente  princesa Borghese,
- Voc no pode fazer isso - disse lady Waltham, com uma voz
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um pouco mais forte, em sinal de protesto. - Poderia ser perigoso! Alm disso, foi a Maison Clar que o encomendou!
Eles esto nos enganando - respondeu Vernita. - Pagam-nos uma misria, enquanto seus vestidos so vendidos por uma quantia exorbitante! Ns morreramos de fome se 
no fossem eles - observou lady
Waltham.
Morreremos de fome de qualquer maneira, se no conseguirmos
um pouco mais de dinheiro com a costura - respondeu Vernita.
Falava no plural, embora nos ltimos meses s ela estivesse trabalhando nas encomendas de costura.
Lady Waltham comeara a piorar cada vez mais e elas no tinham condies de chamar um mdico. Alm disso, Vernita sabia que sua me no precisava de cuidados clnicos, 
e sim de comida!
Na verdade, era incrvel que tivessem conseguido sobreviver por tanto tempo escondidas. Aps terem vendido tudo o que possuam de valor passaram a viver das roupas 
que conseguiam fazer com as prprias mos.
Vernita lembrava-se de que j se tinham passado dois anos desde que vieram para Paris com seu pai, juntamente com outras centenas de turistas ingleses, assim que 
o Tratado de Amiens decretara o fim de anos de hostilidades entre franceses e ingleses.
O vero de 1802 chegara com os ingleses banhando-se ao sol do Acordo de Amiens.
Aps nove anos de lutas, impostos extorsivos e preos altssimos, todo mundo parecia feliz com a volta da paz.
Assim que a guerra terminou, os ingleses bem-humorados pararam de se preocupar com Napoleo Bonaparte, o jovem conquistador da ustria e da Itlia, e at mesmo aceitaram 
o seu controle sobre a costa holandesa.
Os turistas que, durante os anos de inimizade, tinham sido privados de seus passeios, atravessaram o canal e os portos de ambos os lados e viram-se tomados por uma 
multido formada por todas as classes sociais.
Sir Edward Waltham prudentemente esperara que a excitao da primeira hora desaparecesse e, ento, no ano seguinte, em maro de 1803, ele, sua esposa e a filha Vernita 
partiram para Paris.
Acharam a cidade to bonita quanto esperavam e foram recepcionados por um grande nmero de amigos e conhecidos.
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Em uma recepo diplomtica viram o primeiro-cnsul Napoleo Bonaparte e o acharam bastante atraente, quase bonito, bem diferente daquela figura que aparecia nas 
charges que o mostravam como um monstro!
O povo, os turistas, enfim a Frana inteira estava to contente e aliviada com a situao que todos ficaram chocadssimos quando o armistcio acabou. Napoleo Bonaparte, 
ento, ficou furioso!
A guerra que ele pretendia acontecera, mas cedo demais! Forando essa tomada de posio antes que a Marinha francesa estivesse totalmente pronta, os ingleses tinham 
conseguido recapturar quase todos os territrios que haviam perdido anteriormente.
Mas os britnicos que estavam fora do pas no sabiam da ao do governo e, assim, dez mil turistas ingleses foram presos!
Tal tipo de ao contrariava todos os preceitos civilizados e, por isso, os ingleses ficavam apavorados e cientes de que, na verdade, lutavam contra um selvagem!
Mas isso, no entanto, no minorava o sofrimento daqueles que tinham sido violentamente arrancados de suas casas e dos elegantes hotis onde passavam as frias.
Como sir Edward tinha amigos no governo francs"conseguira ser avisado do que iria acontecer doze horas antes que o decreto entrasse em vigor!
Rapidamente, partira com a esposa e a filha para uma casa localizada em uma ruela praticamente desconhecida, onde se alugavam quartos a qualquer pessoa, sem qualquer 
tipo de pergunta.
Infelizmente, quando sir Edward traava os planos de como fugir para a Inglaterra, embora isso parecesse impossvel, cara doente.
Vernita achava que fora a gua de Paris a responsvel por sua doena.
O que quer que fosse, sir Edward no conseguira resistir. E, embora a esposa e a filha fizessem tudo o que estava ao alcance de suas mos, ele morrera, deixando-as 
ss e desamparadas.
J era tarde demais quando se deram conta de que deveriam ter-se arriscado e mandado vir um mdico.
Mas sabiam que o servio mdico na Frana era muito ruim, e duvidavam que mesmo o doutor mais experiente pudesse ter salvo sir Edward.
Lady Waltham, que amava seu marido, cara em prostrao e fora Vernita quem conseguira que, logo aps, elas se mudassem para um apartamento mais confortvel, que 
ocupavam agora no sto.
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Sr Edward tinha uma soma considervel de dinheiro consigo, pois, logo que ficara sabendo que teriam que viver na clandestinidade, resgatara suas letras de crdito 
nos bancos.
Mas Vernita, sensatamente, dera-se conta de que o dinheiro no duraria para sempre, e, como as hostilidades antes do armistcio tinham durado nove anos, achava, 
com um aperto no corao, que a situao atual poderia durar mais nove ainda!
Devemos guardar todos os centavos - dissera ela a lady Waltham.
Ao ver o estado de sua me, Vernita dera-se conta de que seria ela quem deveria tomar as rdeas da famlia, desempenhando o papel que fora do pai.
Obviamente, o dio de Napoleo contra os ingleses encontrava ressonncia nos franceses.
Vernita sabia que o desejo de vingana do corso fizera com que ele desejasse aniquilar a raa de "insolentes vendedores, que o havia impedido de dominar todo o mundo.
Os jornais diziam que Napoleo estava disposto a atravessar o canal e invadir a Inglaterra.
- Os ingleses querem que ns pulemos o fosso - gritava ele e ns o faremos!
O primeiro-cnsul ordenara a construo de centenas de chatas para a invaso, e canhes, a fim de transportar o exrcito francs em direo  Inglaterra.
Os franceses emocionavam-se com os planos napolenicos e zombavam dos ingleses, afirmando que estes no conseguiriam se defender.
No entanto, o tempo foi passando e, no incio de 1805, Napoleo comeara a perceber que seu plano de atravessar o canal no poderia se realizar enquanto os ingleses 
estivessem bloqueando o caminho. Mas isso no queria djzer que, em Paris, as coisas comeassem a ficar melhor para os britnicos.
A cada vez que Vernita saa para fazer compras, ou caminhava pelas ruas, podia sentir o dio que os "franceses vitoriosos"devotavam aos compatriotas dela, ainda 
mais agora que tinham toda a Europa a seus ps.
Mas as vitrias no detinham o preo dos alimentos, e Vernita comeava a achar cada vez mais difcil sustentar-se e  sua me.
Lady Waltham nunca se recobrara do choque provocado pela morte do esposo e, para sua filha, ela parecia estar definhando a cada dia que passava.
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Vernita no sabia o que fazer, a no ser que se entregassem s autoridades!
Mas cada nervo de seu corpo se retesava ao pensamento de uma priso, e algo de resoluto e orgulhoso dentro dela dizia que deveria continuar lutando, at que morresse 
com tamanho esforo.
Agora, olhando para sua me, dava-se conta de que algo deveria ser feito, e rapidamente!
Fora quando estava sentada, terminando o elegante nglig encomendado pela Maison Clar, que se decidira a lev-lo diretamente  freguesa que o iria comprar.
Ela sabia muito bem que a princesa Pauline Borghese adquirira vrios trajes confeccionados caprichosamente por ela e por sua me.
Mesmo quando a princesa estivera na Itlia, no ano anterior, no deixara de encomendar em Paris as suas camisolas, ngligs e outras peas, que deveriam ser confeccionadas 
em tempo recorde, para serem enviadas a Roma.
A Maison Clar impusera um trabalho rduo s suas costureiras.
Quando Vernita aparecera na loja, a fim de apanhar o material necessrio para a confeco das peas elegantes exigidas pelas clientes, ficara sabendo por quanto 
os vestidos eram revendidos e, assim, descobrira quanto ela e sua me eram exploradas!
A coroao, que ocorrera no ltimo dezembro, aumentara a demanda de lindas lingeries e muitos vestidos!
Mas ela e a me deviam trabalhar exclusivamente para a princesa Pauline, que, nessa ocasio, aumentara tremendamente suas encomendas.
Quando Vernita protestara, dizendo que o tempo para providenciar tudo era muito exguo, fora informada de que no deveria reclamar, pois, seno, seria despedida, 
e a Maison encontraria facilmente algum para substitu-la!
Isso ela achava que era impossvel, mas preferira no arriscar!
Somente ao terminar aquele nglig de musselina, que tinha sido a pea mais elaborada at ento encomendada pela princesa, foi que ela decidira resolver as coisas 
 sua maneira.
- vou usar o melhor vestido de Louise e o chapu, mame - disse Vernita -, e assim ficarei parecendo a tpica pequeno-burguesa. E ningum suspeitar de mim!
-  muito arriscado - disse lady Waltham. - E se algum descobrir quem voc ?
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- Ento iremos para a cadeia. E, quern saber, at estejamos melhor l. Pelo menos, os prisioneiros so alimentados!

Lady Waltham soltou uma pequena exclamao e sua filha chegou-se a seu lado.

- Estou brincando, mame. Ningum adivinhar quem eu sou realmente. Quando vou s compras, os vendedores so to rudes comigo como com qualquer outra das pobres 
mulheres que ficam pechinchando, na esperana de economizar.

- Ah, se esta maldita guerra acabasse, ou se no tivssemos vindo para Paris! - disse lady Waltham.

Sua voz era soluante e Vernita sabia que ela estava pensando no marido, desejando que nunca tivessem sado da Inglaterra. E  tudo culpa minha, pensou Vernita, 
como j fizera muitas vezes. Seu pai decidira que ela, ao completar dezessete anos, faria uma viagem ao exterior. Por isso tinham sado do solar, em Buclghamshire, 
o qual estava com a famlia Waltham h cinco geraes.

Sentiu-se pesarosa pelo fato de a sorte t-los tratado assim to duramente. Ento, com um sorriso filosfico, disse a si mesma, usando as palavras de sua velha bab, 
que no adiantava chorar sobre o leite derramado.

Ela e sua me estavam em Paris e no havia nada que pudessem fazer a no ser tentar sobreviver.

Vernita abaixou-se e beijou as faces frias de lady Waltham.

- vou descer para falar com Louise - disse Vernita. - Ela  bondosa e tenho certeza de que no deixar de me ajudar.

Lady Waltham no protestou, sabendo que, quando Vernita decidia fazer alguma coisa, ningum conseguia dissuadi-la.

Ao mesmo tempo, no deixava de achar um destino cruel sua filha, to linda e atraente, ter que passar a vida costurando, morando em um pobre sto!

Se estivesse na Inglaterra, certamente estaria participando de festas e bailes, cavalgando pela propriedade de seu pai, e, em Londres, automaticamente seria convidada 
a frequentar a alta sociedade.

O que acontecer  minha filhinha no futuro?, perguntava-se lady Waltham.

Achava que, por mais que tivesse rezado para que conseguissem fugir daquela vida terrvel, no recebera resposta, e mesmo Deus parecia t-las abandonado.

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- Oh, Edward! - chamou ela pelo marido, como frequentemente fazia quando estava sozinha. - Onde voc estiver, por que no nos ajuda?
Ao pensar nele, seus olhos encheram-se de lgrimas.
Mas nisso ouviu Vernita, que subia as escadas. Rapidamente, enxugou as lgrimas, sabendo que a filha ficaria aborrecida se a visse to desanimada.
- Louise foi muito gentil, como eu esperava. Mas devo ter muito cuidado com o traje dela, pois  sua roupa de domingo! Agora olhe para mim, mame, e veja se no 
pareo exatamente a costureira de Sua Alteza Imperial!
Normalmente, quando ia para a rua, Vernita usava um xale sobre a cabea e um casaco disforme, que disfarava sua silhueta.
Isso no s impedia as suspeitas de que se tratava de uma estrangeira como tambm mantinha  distncia os jovens conquistadores franceses que, sem dvida, ficariam 
alvoroados com os olhos cor de violeta, que pareciam ocupar todo o seu lindo rosto.
Ao vestir o vestido negro de Louise, no s ficava parecendo uma tpica pequeno-burguesa, como tambm se tornava muito atraente!
Lady Waltham olhou para ela, quase que amedrontada.
- No deve sair assim, querida! Algum homem querer falar com voc. Poder at ser insultada!
- vou apenas at a rua do Faubourg Saint-Honor, mame, e me manterei nas ruas laterais, evitando as avenidas. Ningum falar comigo, prometo-lhe.
- Espero - disse lady Waltham nervosamente. - Mas por que esse chapu ridculo?
- A senhora est sendo preconceituosa - respondeu Vernita. Prometo-lhe que estarei a salvo!
Embrulhou o nglig e olhou em volta, para verificar se sua me no estaria precisando de alguma coisa.
- No se preocupe se eu demorar um pouco mais - disse ela. Quando tiver o dinheiro, comprarei leite na volta para c. E, se receber mais um pouco, quem sabe se no 
poderei at comprar uma galinha!
- No deve cometer extravagncias - disse, quase que automaticamente, lady Waltham.
- J as cometemos alguma vez? - perguntou Vernita, com certa amargura na voz.
Beijou sua me ternamente.
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Pelo menos o dia est quente hoje, mas, querida mame, no coloque os braos para fora das cobertas. No lhe faria bem.
Ao falar, lembrou-se de quo severo o inverno havia sido, e de como ela e sua me tinham sofrido, pois no podiam sustentar qualquer tipo de aquecimento.
Algumas vezes Vernita chegara a pensar que ambas seriam encontradas enrijecidas e mortas pela manh.
Mas, como que por milagre, tinham sobrevivido, embora, por vezes, ela tivesse acordado  noite, tensa, procurando ouvir se sua me ainda respirava.
Agora, enquanto descia rapidamente as escadas em direo  porta da frente, sentia-se aliviada por sair para o ar fresco e assim fazer desaparecer aquela dor de 
cabea que a assaltava, por ter estado costurando por tanto tempo, quase sem alimentao.
A casa onde viviam tinha inquilinos em melhores condies no primeiro e segundo andares, e o porteiro e sua esposa, monsieur e madame Danjou, eram, conseqentemente, 
tolerantes com aquela pobre me e com sua filha que habitavam o sto.
Ainda que algum levantasse qualquer tipo de suspeita, eles no diriam nada a respeito de lady Waltham e Vernita.
Obviamente, eles as conheciam como madame e mamohelle Bernier, que fora o sobrenome adotado por sir Edward ao se esconderem, alegando que era to comum na Frana 
quanto Jones ou Brown na Inglaterra.
Monsieur e madame Danjou tinham apenas uma filha, Louise, quase da mesma idade de Vernita.
Louise, como gostasse de Vernita, estava sempre a sugerir que sassem  noite juntas para, talvez, encontrar algum que se dispusesse a acompanh-las aos lugares 
de diverses baratas, que na poca congregavam os jovens de Paris.
Ela no entendia por que Vernita recusava sistematicamente, sendo que a desculpa era sempre de que no poderia deixar sua me sozinha.
- Voc est perdendo sua juventude - disse-lhe mais de uma vez Louise. - Se no tomar cuidado, mademoiselle, ir pentear Santa Catarina.
Essa expresso queria dizer que Vernita se tornaria uma solteirona.
Embora Vernita risse, ao conversar sobre isso com Louise, ficava imaginando se no conheceria outra vida, alm daquela levada naquele trio e desconfortvel sto, 
somente em companhia de sua me.
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Sentia falta das pessoas da mesma idade que conhecera na Inglaterra. Sentia falta, tambm, das conversas que mantinha com seu pai e dos livros que tinham lido juntos.
Sir Edward havia sido um homem inteligente e educara muito bem sua filha. No entanto, agora que se sentia amedrontada e pobre, Vernita tinha a sensao de que seu 
crebro parara de funcionar e que somente conseguia pensar em dinheiro.
Mame precisa de alguma comida, e rapidamente, pensava ela enquanto caminhava em direo  rua do Faubourg Saint-Honor.
Como prometera, seguia pelas ruas laterais, evitando as movimentadas avenidas, com o trnsito e as multides que caminhavam por elas, ou ficavam sentadas em seus 
cafs.
Finalmente, achou-se no caminho procurado e, sem muita dificuldade, pois lembrava-se de t-lo visto anteriormente, identificou o Palcio de Charost, magnfica manso 
que agora pertencia  Sua Alteza Imperial Pauline Borghese.
Quando se coroara imperador, Napoleo elevara seus irmos Jos e Lus  condio de prncipes. No entanto, suas irms ficaram furiosas pelo fato de as suas cunhadas 
passarem a ser princesas, e no elas.
Fizeram tal escndalo que Napoleo afirmara deturpadamente:
- Quem ouve minhas irms deve achar que eu as enganei em relao  herana deixada por nosso pai, o rei!
No entanto, depois de alguns anos e muitas reprimendas, ele anunciara que, "a partir de ento, as irms do imperador passavam a ser consideradas como Altezas Imperiais".
A entrada do Palcio de Charost era muito impressionante e a insgnia de mrmore preto colocada sobre os portes de ferro demonstrava que os antigos proprietrios 
eram muito mais aristocrticos que os atuais ocupantes.
Atravessando os portes, Vernita chegou a um ptio onde as paredes de ambos os lados formavam um semicrculo.
Sentia-se nervosa, com medo de ser mandada embora. A, ento, teria que levar o seu trabalho at a Maison Clar e aceitar a misria que lhe pagariam.
- Qual  o assunto? - perguntou um criado, secamente, sem demonstrar qualquer interesse especial pela figura de Vernita.
Sua libr era verde, e Vernita sabia que essa era a cor preferida da princesa.
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Trouxe o nglig que Sua Alteza Imperial me encomendou!
Sentiu medo de que o criado lhe tomasse o traje, sem dar-lhe chance, como ela esperava, de poder falar com a princesa. Mas, ao contrrio, ele ordenou-lhe que entrasse 
e ela se dirigiu a um vestbulo repleto de colunas de mrmore e painis pintados.
Havia uma escada de metal com douraduras, que descrevia uma curva, mostrando uma rampa decorada com lrios.
Mas Vernita no teve muito tempo para olhar  sua volta. Logo foi conduzida a uma sala, onde a princesa j atendia muitas pessoas que estavam tratando de vesturio 
e chapus.
A princesa, que usava um difano dshabill verde, que deixava entrever as linhas de sua silhueta grega, estava semi-recostada em uma chaiselongue, enquanto os tecidos 
para seus novos vestidos lhe eram apresentados.
Vernita soubera, por intermdio da Maison Clar, que a princesa preferia as criaes do ateli modesto da pequena Leblanc aos vestidos criados pelo mais famoso costureiro, 
Leroy.
Naquela manh, no entanto, parecia que nem os tecidos nem os desenhos estavam recebendo sua aprovao.
- No  chic - dizia ela, imperiosamente, quando Vernita entrou na sala. - Na verdade, eu me sentiria abominvel dentro dele. Assim, leve-o embora e desenhe algo 
melhor!
- Mais madame... - comeou a modista.
- Chega! No creio que ouse discutir comigo!
A princesa falava com nuanas de sbita raiva, o que contrastava totalmente com sua aparncia, que fazia dela quase que uma esttua grega.
Os jornais sempre a descreviam como a encarnao dos ideais da beleza clssica, mas Vernita no imaginara que ela pudesse ser ainda mais bonita do que tudo o que 
j havia sido dito sobre ela.
Seus traos eram perfeitos; seu rosto to lindo que parecia esquisito que pudesse se transformar, ao ser atormentada por algum ou por alguma coisa.
Ento, quando a modista se retirou, Pauline sorriu divertidamente para um cavalheiro que estava a seu lado.
Isso transformou o seu rosto, fazendo com que seus lbios mostrassem uma certa provocao, indescritivelmente atraente.
Era difcil para Vernita desviar seu olhar de algum to adorvel, mas, quando a princesa comeou a atender uma nova solicitante de seus
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favores, uma mulher que trazia duas caixas de chapus nas mos, Vernita virou-se para examinar o cavalheiro.
Ele parecia ter sado de um livro de histrias. Era magro e elegante, e estava sentado com as pernas cruzadas. Havia uma leve expresso de cinismo em seus olhos 
e certo torcer de lbios, como se estivesse desdenhando tudo o que acontecia.
Vernita achou que deveria ser alto e viu que ele possua ombros largos e um ar autoritrio, que a fez pensar em seu prprio pai.
Embora no estivesse certa, achava que ele no era muito moo; seguramente deveria ter por volta de trinta anos. Ficou imaginando quem seria.
Ento, quando a princesa lhe sorriu novamente, Vernita deu-se conta de qual era a posio do belo homem dentro da casa.
As indiscries amorosas da princesa j tinham sido descritas nos jornais, de forma to clara que pouco ficara para dar lugar  imaginao.
Sabia-se tambm que, to logo ela enviuvara, com a morte do marido em batalha, seu irmo Napoleo Bonaparte apressara-se em arrumar-lhe novo casamento.
Estava casada h dois anos com o prncipe Camilo Borghese, e, na poca em que o noivado fora anunciado, sir Edward comentara que era um negcio esplndido para 
uma garota que, sada de obscura famlia corsa, passava a fazer parte de um dos cls mais aristocrticos e importantes da Itlia.
Como aos dezessete anos Vernita fosse muito romntica, ao chegar a Paris procurara ler tudo o que podia sobre o prncipe Camilo Borghese.
Sabia que tinha vinte e oito anos e uma bela aparncia romana, com cabelos escuros e anelados, e olhos negros e brilhantes.
Ele era incrivelmente rico, possuindo vastas propriedades na Itlia e uma srie impressionante de ttulos.
Sua me percebera o interesse dela, e dissera a Vernita:
- As jias da famlia Borghese so consideradas as mais finas de todo o mundo e ela possui uma das maiores colees particulares de obras de arte.
O prncipe e a princesa tinham ficado noivos antes que o armistcio tivesse chegado ao fim, e haviam se casado no agosto seguinte.
Toda Paris se excitara com as npcias e Vernita ficara sabendo de tudo por intermdio de madame Danjou e Louise.
Somente no final do ano, quando Vernita procurava um emprego que lhe possibilitasse suprir as suas reservas de dinheiro, que estavam acabando, 
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 que ficara sabendo, atravs da Maison Clar, que as lingeries que estava confeccionando seriam usadas por aquela princesa que tanto lhe interessava.
De uma coisa Vernita tinha certeza: aquele cavalheiro a quem a princesa sorria to convidativamente no era o marido dela. Quando a chapeleira exibiu um atraente 
chapu enfeitado com plumas de avestruz verdes, ele disse:
Creio que lhe fica bem!
Tem certeza? - perguntou a princesa. - Achei que, talvez, a aba estivesse um pouco alta demais.
Ele adornar seu lindo rosto como uma aurola!
- Cr que eu merea uma?
Ela olhava para ele de maneira provocante.
Voc precisa de uma - respondeu ele, enquanto a princesa ria,
mostrando seus dentes perfeitos.
Ento, voltando ao assunto, a princesa disse:
- Bem, ficarei com ele. Traga-me outros amanh. Coisas novas, que eu ainda no tenha usado!
- Merci bien, madame la princesse! - disse a chapeleira, fazendo uma reverncia at o cho.
Ento, a princesa olhou para Vernita pela primeira vez.
Fez um pequeno gesto com a mo e Vernita, com o corao batendo mais rapidamente, adiantou-se e fez uma reverncia em frente  chaiselongue.
- Quem  voc? Nunca a vi antes! - perguntou a princesa.
- Trouxe o nglig que Vossa Alteza ordenou, madame la princesse
- respondeu Vernita -, minha criao e confeco.
Achou que a princesa parecia confusa e, rapidamente, desfez o pacote e tirou o nglig, de forma que a princesa pudesse examin-lo.
- Mais oui! - exclamou ela. -  encantador! Cair muito bem em mim.
Ao falar, levantou-se da chaise-longue e, para espanto de Vernita, tirou o nglig verde que usava e a camisola que estava por baixo dele.
Deixou-os cair ao cho e permaneceu ali, nua, muito mais linda que a escultura de qualquer deusa, perfeita da cabea at os delicados pezinhos.
Sentindo-se corar de embarao, pelo fato de uma mulher mostrar-se nua em frente a um cavalheiro, especialmente quando uma princesa o fazia, Vernita rapidamente correu 
para ajud-la a vestir-se.
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A princesa vestiu-o e virou-se para o cavalheiro que a observava. Estendeu-lhe as mos e rodopiou  sua volta, para que pudesse examin-la sob todos os ngulos.
- O que acha, Axel? - perguntou. - Diga-me como estou!
- To adorvel quanto um anjo! - respondeu ele.
- Obrigada - sorriu ela. -  o que gostaria que voc dissesse. A seguir, virou-se para Vernita.
- Voc disse que  confeco sua?
- Oui, madame la princesse, eu o fiz, assim como toda a lingerie que Vossa Alteza encomendou recentemente.
Vernita calou-se por um momento. Ento, ao perceber que a princesa ainda a ouvia, disse:
- Mas a Maison Clar me paga muito, muito pouco. De sorte que resolvi vir diretamente a Vossa Alteza, porque gostaria, madame la princesse, de continuar confeccionando 
todas essas coisas maravilhosas para a senhora. Mas no poderei faz-lo, a menos que consiga mais dinheiro com meu trabalho.
Ao falar, sentia que seu corao saltava e suas mos tremiam.
Ser que aquela mulher linda mas altiva entenderia o que significava trabalhar to duramente como ela e sua me o faziam, e perceberia a diferena que um centavo 
fazia em suas vidas?
- Quanto a Maison Clar lhe paga?
No era a princesa quem fazia a pergunta, mas o cavalheiro chamado Axel.
Vernita fez-lhe uma reverncia, antes de responder. E, porque de certa forma ele lhe parecia simptico, rapidamente disse o quanto lhe pagavam por um nglig, por 
uma camisola e por cada uma das peas encomendadas para a princesa.
Ele ouviu e, depois, disse:
- Nem pense que est sendo rebelde! Se no estou errado, Pauline, sua conta na Maison Clar  sempre astronmica! Sei que ClermontTonnerre estava desgostoso com 
isso, outro dia!
- Meu tesoureiro se desgosta com tudo o que gasto. Tenho certeza de que Napoleo lhe disse que eu deveria economizar, e s Deus sabe por qu!
Voltou-se para Vernita.
- E quanto, garota, voc est pedindo por este nglig, com o qual o cavalheiro diz que fico parecendo um anjo?
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Vernita disse uma soma que era exatamente a metade do que sabia seria cobrado pela Maison Clar.
Creio que  uma bagatela - disse alegremente a princesa, - O
que mais pode me fazer, e rapidamente?
- O qUe Vossa Alteza Imperial precisa?
- De tudo! Camisolas novas, pois estou cansada de todas as que tenho! Camisolas, lenos, tudo novo e maravilhoso como este nglig. Eu comprarei tudo de voc, to 
logo termine!
Muito obrigada... muito obrigada! - disse Vernita, quase sem flego.
Ento, comece imediatamente e no me deixe esperando - ordenou a princesa.
Eu o farei - disse Vernita. - E, por favor, madame la princesse,
eu poderia receber imediatamente? No somente por precisar do dinheiro, como tambm para comprar novos tecidos e rendas, laos e musselina.
A princesa fez um gesto de indiferena com as mos.
- Veja meu tesoureiro ou seu secretrio. No me aborrea com esses assuntos sem importncia.
- Sim, madame! Naturalmente, madame! Vernita reverenciou novamente e se dirigiu  porta.
Era maravilhoso! Tudo correra melhor do que esperava! Agora sua me poderia ter o leite de que precisava, uma galinha e outros alimentos!
Abriu a porta. Ento, ao entrar no vestbulo, subitamente sentiu-se dominada pela excitao do que acontecera!
Tudo parecia escurecer e o cho fugia de seus ps.
Apoiou-se contra a parede, sentindo uma fraqueza e um frio que pareciam tomar conta de todo o seu corpo.
Ento, ouviu uma voz profunda atrs de si, que dizia:
- No est se sentindo bem, mademoiselle?
No"conseguia ver nada, mas sabia que quem falava era o cavalheiro que estivera com a princesa no salo, o homem chamado Axel.
- Estou... estou bem - tentou dizer.
Ento, sentiu-se enlaada por ele, enquanto era conduzida para um lugar onde pudesse se sentar.
Vernita cobriu o rosto com as mos, envergonhada de sua fraqueza, e ouviu quando o cavalheiro ordenava qualquer coisa ao criado, antes de lhe dizer:
Abaixe a cabea o mais que puder.
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Ela obedeceu, embora mal conseguisse ouvir o que ele dizia. Alguns minutos depois, ele ordenou novamente, em tom mais autoritrio:
- Beba isto!
Vernita sentiu que ele a apoiava com os braos, e, com dificuldade, abriu os olhos. Sentiu o aroma do conhaque e o fogo que descia por sua garganta.
Ela tossiu, e como se sentisse queimar por dentro, seus olhos ficaram marejados.
- Por favor... j chega... j chega - pediu ela.
- Apenas mais um gole.
Agora, ela j se sentia melhor, como que aquecida por dentro. Levantou a cabea e olhou para ele.
- Desculpe-me... - tentou dizer.
Ele a olhou por um instante, antes de perguntar:
- Quando comeu pela ltima vez?
"- Estou bem... agora... obrigada!
- Eu fiz uma pergunta.
- Eu... no estava com fome... pela manh.
- Ento comeu somente ontem  noite e imagino que tenha sido muito pouco.
Vernita corou, envergonhada por estar causando tudo aquilo. Mas achava que tudo era consequncia do alvio que sentira quando a princesa vestira o nglig e, ento, 
tivera certeza de que haveria comida para sua me e muitas outras coisas de que necessitavam urgentemente.
O cavalheiro inclinou-se e colocou sua mo sob o brao dela.
- Venha comigo - disse ele.
Como no soubesse o que fazer, ela obedeceu, seguindo-o atravs do vestbulo at um salo localizado do outro lado. Ao chegarem l, o cavalheiro disse a um criado:
- Traga caf e crohsants rapidamente!
- Perfeitamente, monsieur - respondeu o criado. Vernita foi conduzida a um sof. Sentou-se e disse:
- Desculpe-me pelo aborrecimento. Estou bem agora... Creio realmente que posso ir para casa.
- No at que tenha comido alguma coisa - respondeu o cavalheiro.
Ele caminhou pelo salo, at postar-se junto a uma janela.
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Conheo bem a inanio para no reconhec-la - disse ele calmamente Voc tem algum que cuide de voc?
- Eu tenho que cuidar de minha me. Ela est doente... e somos muito pobres.
O cavalheiro no disse nada. roucos minutos depois a porta se abriu
um criado entrou, trazendo uma bandeja onde havia um bule de caf em prata e um prato com croissants quentes.
Deseja alguma coisa mais, monsieur? - perguntou o criado.
No momento, no - respondeu o cavalheiro -, mas diga ao secretrio de monsieur de Clermont-Tonnerre que esta senhorita precisa
de...
Fez uma pausa e olhou para Vernita.
Quantos francos disse voc?
Ela respondeu, sentindo-se muito embaraada, e o cavalheiro repetiu a soma ao criado.
O criado desapareceu. Como no havia por que esperar, ela serviu-se de caf e apanhou um dos croissants. Na verdade, estava com muita fome.
Esse estado era to frequente que ela se sentia sempre muito mal, acometida por uma contnua dor de cabea que lhe dava a impresso de estar suportando uma pesada 
barra de ferro.
Assim que comeou a comer a sensao desagradvel comeou a passar, e, tendo terminado o croissant, bebeu mais um pouco de caf, sentindo-se como que retornando 
 vida.
No percebeu que o cavalheiro a observava. Ento, ele disse:
- Coma outro. Voc precisa!
Vernita olhou para ele, com um pequeno sorriso nos olhos.
- Eu... posso parecer gulosa.
- Seria estpido desperdi-los. Se voc os deixar, sem dvida sero jogados fora.
Ela estendeu sua mo de longos e delicados dedos.
- Sempre penso no desperdcio que h nas grandes casas... principalmente quando,  noite, sinto um grande vazio dentro de mim.
No entendia por que conseguia falar assim, to fluentemente, com aquele homem.
Ento, deu-se conta de que, talvez, ele achasse suas palavras muito impertinentes.
estou vivendo h tanto tempo sem a companhia de pessoas de minha prpria classe, pensou ela, que perdi a noo de respeito. Uma costureira no deveria falar dessa 
maneira com um amigo de Sua Alteza Imperial.
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Mas, estranhamente, ele no pareceu se importar.
- A fome produz efeitos diferentes em cada pessoa - disse ele. - Algumas mergulham em tamanha fraqueza que no conseguem pensar em nada. Outras tm alucinaes. 
Outras, ainda, possuem estranhos sonhos!
- Parece mundano demais sonhar com comida - respondeu Vernita.
- Deveramos ser como os santos... fixarmos nossas mentes em coisas mais sagradas.
O cavalheiro riu.
- Voc se esqueceu das tentaes e vises de Santo Antnio, que, sem dvida, foram provocadas pela fome. E tenho certeza de que os demnios, diabos e fantasmas que 
apareceram para muitos santos so produtos do vazio que sentiam dentro de si.
- Isso  meio... decepcionante - respondeu Vernita. - Gosto de pensar que os santos estavam investidos de poderes especiais e que suas vises eram reais.
Novamente achou que essa era uma conversa estranha e, por ter medo de que ele pudesse suspeitar de algo, bebeu rapidamente seu caf.
- Sou-lhe muito agradecida, monsieur.
Nisso, a porta se abriu e um criado apareceu trazendo o dinheiro que o cavalheiro pedira.
- O secretrio do senhor tesoureiro deseja um recibo - disse ele.
- Sim... naturalmente - disse Vernita. - E lhe darei tambm
a conta.
Ela se esquecera disso, devido ao seu mal-estar. Abriu a bolsa e retirou a conta, que fora escrita em um papel antes que ela sasse de casa.
Olhou  sua volta e, localizando a escrivaninha, dirigiu-se at l. Apanhando uma das penas que havia no porta-penas, assinou um recibo.
Ento, pegou o dinheiro, com uma sensao de grande alegria, e meteu-o na bolsa.
O criado deixou o salo e Vernita, um pouco envergonhada, voltou-se para o cavalheiro que a estivera observando.
- Fico-lhe muito agradecida, monsieur!
- Voc ainda parece um pouco fraca. vou acompanh-la at sua casa.
No. Realmente... no  preciso - protestou ela.
- Eu insisto - disse ele. - Tenho medo de que, apesar de ter comido algo, venha a desmaiar na rua.
- Afirmo-lhe que est tudo bem.
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-  uma perda de tempo discutir comigo - replicou ele, sorrindo.
Sentindo que isso era uma verdade, Vernita seguiu-o quando ele se ps a caminhar em direo ao vestbulo, dando ordens a um dos criados.
Havia um coche esperando no ptio, que foi trazido por um cavalario at a porta frontal.
Quer subir, por favor? - perguntou o cavalheiro a Vernita.
Olhou para ele, envergonhada, querendo protestar, sabendo, no entanto, que nada poderia fazer a no ser obedecer-lhe.
Vernita subiu para o coche e ele sentou-se a seu lado, na direo. Apanhou as rdeas, enquanto um criado se sentava na boleia.
Saram lentamente do ptio at alcanarem a rua do Faubourg Saint-Honor.
Onde voc mora? - perguntou ele.
Em uma pequena rua chamada rua das rvores. No  longe.
Fica perto do Boulevard ds Capucines. Se me deixar na esquina, seguirei bem at l.
- No cr que eu proceda dessa maneira, no?
-  muita gentileza sua... fico muito agradecida.
- Qual  seu nome?
- Vernita... Bernier.
Houve uma pausa antes que dissesse o sobrenome, e Vernita teve medo de que ele suspeitasse de algo. Mas, ao invs disso, o cavalheiro respondeu:
- O meu  Storvik. Conde Axel de Storvik, se quer ser formal.
- Ento no  francs?
- No, sou sueco.
- Achei que realmente no parecia francs.
- Estava certa, e embora voc tambm no parea particularmente francesa, no lhe perguntarei a nacionalidade.
- Meu pai veio da... Normandia.
Era o que Vernita achava melhor dizer, caso lhe fosse perguntado.
As pessoas provindas da Normandia eram loiras e, embora os seus cabelos no fossem claros, no possuam os tons escuros comuns s garotas francesas.
O conde no respondeu. Simplesmente olhou para ela por um momento. Ento, voltou o olhar para os cavalos.
Como Vernita quisesse mudar o assunto da conversa, perguntou:
- Gosta de morar em Paris?
 muito divertido - respondeu o conde, sem, no entanto, dar
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um toque de verdade  sua afirmao, - Voc sempre viveu aqui? - perguntou ele, depois de algum tempo.
- H alguns anos - respondeu Vernita. - Costumvamos viver no campo.
- Senti, por alguma razo, que voc realmente preferia o campo. Ela olhou para ele, surpresa.
No era o tipo de observao, achava ela, que um conde faria a uma pobre costureira.
Dificilmente acreditaria que o conde estivesse tentando flertar com ela, mas, em todo caso, no conseguia saber verdadeiramente. Sua me avisara-a que tomasse cuidado 
e no se deixasse envolver por homens estranhos.
Mas o conde tinha sido gentil, muito gentil, e Vernita no conseguia adivinhar por que se importava tanto com ela.
Sentia seu corao bater mais forte que o normal, mas achava que isso acontecia por causa do caf e do conhaque que bebera.
Quando seguiam em direo ao Boulevard ds Capucines, ela disse:
- A rua das rvores  a ltima  esquerda, antes de se chegar  avenida da pera.
O conde manejou os cavalos com uma habilidade que ela no deixou de admirar. Ento, alcanaram a pequena e estreita rua das rvores. Como Vernita percebesse que 
ele esperava por uma indicao, disse:
-  a prxima casa...  esquerda! O conde estacionou os cavalos.
- Agradeo-lhe muito novamente, monsieur - disse Vernita. O senhor foi muito gentil e simptico e nunca me esquecerei disso!
Sem pensar no que fazia, estendeu-lhe a mo, e o conde, retirando suas luvas de montaria, segurou-a.
- Cuide-se, mademoiselle Bernier! - disse ele. - Creio que no tem se preocupado muito com isso...
Antes que pudesse terminar a frase, Louise Danjou apareceu, saindo da porta da casa em direo  calada.
- Mademoiselle, estvamos esperando por voc! - gritou ela. Suba, pois sua me est muito mal e mame est com ela!
Vernita soltou uma pequena exclamao, desceu do coche e, rapidamente, entrou na casa.
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CAPTULO II

A princesa Pauline tomava seu banho.
s dez horas da manh, uma camareira abrira as cortinas do quarto, localizado no primeiro andar, e ela acordara em sua pequena cama, adornada com musselina rosa.
No quarto anexo, seu criado negro, Paul, preparava o banho.
Como todos os Bonaparte, Pauline tinha mania desses banhos e, sempre que possvel, mergulhava em uma banheira com leite, pois acreditava que isso melhorava a textura 
de sua pele.
Seu quarto de banho era pequeno, de teto baixo, com a banheira localizada em uma alcova,
Pauline gostaria de poder permanecer deitada na banheira por muito tempo, relaxada em meio quela gua tpida, misturada com cinco gales de leite.
No entanto, descobrira que o leite tinha um odor desagradvel; assim, Paul tinha que subir por uma escada at um quartinho localizado acima do quarto de banho, e, 
de l, atravs de uma abertura, fazia com que a gua limpa corresse por sobre Pauline.
Quando estava no banho, s vezes a princesa permitia que algum de seus admiradores favoritos ou amantes estivesse presente; mas naquela manh ela estava sozinha 
e, aps alguns minutos, gritou:
- Paul!
O negro, que estava ao lado da porta do banheiro, entrou. Traga-me monsieur l comte!
O homem saiu s pressas, a fim de encontrar o conde Axel.
Minutos depois, o conde apareceu.
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J esperava ser chamado, pois sabia que ningum aparecera naquela manh no Palcio de Charost e que a princesa odiava ficar sozinha.
Ele tinha conscincia de que ela, na verdade, estava muito pouco interessada nas pessoas, a no ser em si mesma, e o que queria mesmo era uma plateia a quem exibir 
o seu corpo.
Quando o conde entrou no banheiro, Paul trouxe-lhe uma cadeira e ele sentou-se, olhando para a alcova, onde a princesa jazia em meio ao lquido opaco.
Ela parecia extremamente bonita, com seus longos cabelos escuros protegidos por uma pequena touca enfeitada com laos que caam por sobre as orelhas.
O conde sabia que, embora o corpo fosse perfeito, a princesa tinha um defeito.
Muitas mulheres invejosas tinham-lhe contado a respeito de um incidente que acontecera com ela, h alguns anos, quando ele ainda no estava em Paris.
Naquele inverno, Pauline conquistara o ttulo de mulher mais bonita da cidade, e sempre suscetvel  lisonja, comeara a tomar conscincia de seu poder, principalmente 
no que dizia respeito aos homens.
Mas esse seu trono era disputado com madame de Contades, filha do marqus de Bouille, que ajudara Lus XVI em sua desastrada fuga de Paris.
Madame de Contades tambm possua uma aparncia divina, com seus cabelos escuros luxuriantes e olhos brilhantes. Odiava intensamente Napoleo; desprezava suas vitrias 
militares e recusava-se categoricamente a admitir a beleza excepcional de sua irm, a "cidad Leclerc", como Pauline era conhecida ento.
Nessa poca, madame Permon oferecera um baile, convidando toda a elite do Faubourg Saint-Germain e os Bonaparte.
Essa festa era um dos pontos altos da temporada, e Pauline preparara-se para a ocasio cuidadosamente, como seu irmo se preparava para uma batalha.
Fizera longas consultas aos melhores cabeleireiros e costureiros de Paris, para que sua entrada naquela noite fosse sensacional.
Chegara a pedir  prpria madame Permon permisso para trocar de roupa em sua casa, antes do baile, para que ningum a visse, at que aparecesse e atravessasse lentamente 
o salo, em direo ao lugar reservado a ela.
Depois de muitas idas e vindas, Pauline finalmente se decidira por
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uma tnica grega branca, de mangas curtas, que trazia uma ourela presa aos ombros por camafeus. O traje cobria muito pouco do corpo e,  cintura, trazia um cinto 
dourado, que tinha como fecho uma enorme pedra antiga.
Nos braos, colocara braceletes de ouro, e seus cabelos, presos no alto da cabea, estavam enfeitados com pequenos cachos de uvas douradas.
Quando ela aparecera, todo mundo no salo suspirara e a cumprimentara calorosamente por sua beleza.
Mas madame Contades mordia-se de inveja e raiva.
Quando, finalmente, Pauline reclinara-se em um sof, em uma de suas poses favoritas, ela atravessara o salo, de brao com seu partner.
A princpio, madame Contades elogiara a aparncia de sua rival. Depois, virara-se para seu acompanhante, com um tom de voz que todo mundo podia ouvir:
-  uma pena que uma criatura to adorvel seja assim deformada! Se eu tivesse aquelas orelhas horrveis, certamente as teria cortado fora!
Todas as pessoas viraram-se para olhar as orelhas de Pauline,
Aparentemente, ningum as notara antes; mas, na verdade, elas eram pequenas, disformes e totalmente sem graa.
Pauline retirara-se, chorando, para o boudoir de madame Permon, e, desde ento, passara a esconder suas orelhas com os cabelos, jias, laos ou bands.
Naquele instante, ao sorrir para o conde, parecia que homem algum poderia perceber qualquer outra coisa, a no ser sua beleza estonteante, bem como um olhar cnico 
e certo retorcer de lbios, que Vernita notara assim que a vira.
- Quero seu conselho, Axel.
- Sobre o qu? - perguntou ele.
- Essas mulheres vingativas, que nunca me deixam em paz, imaginaram uma nova intriga contra mim.
- Outra?
- Elas param de me criticar e me difamar? - perguntou Pauline.
- O que  desta vez?
Ele sabia muito bem que a princesa estava tentando agir menos escandalosamente do que de costume, pelo fato de estar muito agradecida por ter sido trazida de volta 
para Paris.
Ela odiava a Itlia e Napoleo fora forado a lhe escrever continuamente, dizendo que ela deveria ser sensata e se conformar com os modos
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e costumes da cidade de Roma, e no demonstrar averso pelo povo
"Ame seu marido e sua famlia. Seja obediente e amigvel, e no conte comigo se, em sua idade, se deixar ser governada pelos maus conselhos. Aqui em Paris no receber 
nenhum apoio, pois eu me recusarei a receb-la sem seu marido", escrevera ele, severamente, em uma de suas cartas.
Pauline gritara de raiva ao ler essas palavras e achara intolervel, quando Napoleo continuara:
"Se voc brigar com Camillo, a culpa ser totalmente sua e, ento, a Frana lhe ser interdita. Voc perder sua felicidade e a minha amizade".
Finalmente, pouco antes da coroao, Napoleo cedera e permitira que Pauline retornasse a Paris.
Mas ela ainda se sentia atemorizada de que o irmo a obrigasse a voltar para seu esposo, em Roma.
O prncipe Camillo Borghese acompanhara a esposa at Paris, para a coroao, mas agora falava em voltar para sua casa.
Pauline sentia-se desesperada com a possibilidade de ter que retornar com ele.
Ela pedira de joelhos a Napoleo que a salvasse, e como este no conseguisse nunca recusar algo  sua irm favorita, achara uma soluo para o problema.
Dando ao prncipe Camillo a nacionalidade francesa, evitaria que Pauline fosse obrigada a viver na Itlia. Assim, Napoleo o nomeara coronel do corpo de granadeiros 
acampado em Bolonha.
Em troca, Napoleo exigira que Pauline passasse a se comportar como uma verdadeira Alteza Real.
Ele sabia muito bem como ela era dissoluta e mal-educada. Mas estava determinado a que Pauline se tornasse um trunfo do regime que estava montando, com o intuito 
de se fazer respeitado pelas outras cabeas coroadas da Europa.
Napoleo dissera-lhe que deveria ter uma criadagem prpria e at mesmo uma corte, mas no deveria se meter nos compromissos, que seriam todos firmados por ele mesmo, 
ou por seu prprio mestre de cerimnias.
Tudo estava sendo feito para impressionar as famlias aristocrticas do Faubourg Saint-Germain.
O tesoureiro de Pauline era monsieur de Clermont-Tonnerre, o empobrecido chefe de uma famlia ilustre e aristocrtica. Suas qualificaes sociais
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eram inquestionveis e, segundo o conde, ele ainda era um homem agradvel e bem-humorado, muito querido pela maioria da criadagem. O camareiro-chefe da princesa, 
Louis de Montbreton, era um apaixonado de sua patroa e, como fosse esperto e verstil, sem dvida era um dos pontos fortes de sua equipe de criados.

Pauline possua ainda duas atraentes e distintas damas de companhia, alm de uma dame d'honneur, a qual, desde que chegara, a princesa percebera ser um incmodo.

No entanto, ela gostava de mademoiselle Mills, sua leitora, a qual era inteligente e autora de uma popular novela histrica.

Os outros postos oficiais da corte da princesa incluam um mdico, um armeiro, dois capeles, um secretrio, um mordomo e um farmacutico. Todos ocupavam o Palcio 
de Charost.

Embora isso formasse uma excelente fachada para o mundo, havia sempre a imprevisibilidade da princesa e a sua imensa capacidade de arrumar confuso, o que deixava 
a criadagem sempre sob tenso, e Napoleo preocupado.

- O que voc fez agora? - perguntou o conde.

- No fiz nada - respondeu a princesa - mas elas esto sempre falando de mim.

- O que disseram?
- Algumas dessas mulheres, que somente se preocupam em me criticar, e tenho certeza de que a principal  a odiosa madame Contades, andam dizendo que  indecente 
que Paul me conduza e me retire do banho.

O conde sorriu.

Ele j ouvira algumas observaes malvolas a respeito do fato de a princesa permitir que um homem tivesse um contato to ntimo com seu corpo.

No era por indecncia, ele sabia, mas pelo prazer que provocava nela o contraste entre sua pele incrivelmente branca e a negritude de seu criado.

- Paul  um criado de confiana - disse ela ao conde. - Ou ser que elas esto chocadas pelo fato de ele ser jovem e solteiro? Bem, podemos arrumar isso! - O conde 
nada disse e ela continuou: - Ele pode se casar com uma das empregadas da cozinha. Eu acharei uma e lhes direi que devem se casar um com o outro.

- Pensei que voc fosse me pedir um conselho!

- Eu ia, mas cheguei a uma concluso sem precisar disso - observou a princesa. - Sorriu e concluiu: - Agora, vamos falar de outra

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coisa. Criadagem  sempre um assunto aborrecido, e voc ainda no me disse que estou bonita!
- Isso no precisa ser dito - respondeu o conde. - Voc est maravilhosa, como sempre.
Ele falava a verdade e Pauline sorriu, ao responder:
- Continue!
- O que quer ouvir? - perguntou ele. - Que sua pele  como uma prola em meio  via-lctea?
Pauline riu.
- Voc  muito observador, Axel. Prefiro os seus cumprimentos aos desses franceses galantes, os quais so to fluentes como se tivessem sido repetidos um milho 
de vezes. E, na verdade, o foram!
O conde sorriu.
- Tenho certeza de que voc ficaria desapontada se eles falassem de algum mais.
- Naturalmente! O que pode ser mais interessante do que eu?
- Estava pensando que voc deveria possuir um nglig que a deixasse mais deslumbrante ainda do que est agora! - disse, lentamente, o conde.
Pauline virou-se para ele.
Ela era sempre atenta, quando algum falava de roupas.
- Por que no um branco - perguntou o conde -, salpicado de prata e listrado de rosa bem claro, para que sua pele fosse realada?
Pauline sentou-se na banheira, mostrando seus seios perfeitamente redondos.
- Axel, voc  um gnio! - exclamou ela. - Isso seria fascinante! Por que no pensei nisso antes?
- Voc no pode se ver como eu o fao - respondeu o conde.
- Encomendaremos um assim que descermos. Branco e prata, listrado de rosa e, naturalmente, laos prateados em meu cabelo!
Ela gritou:
- O chuveiro, Paul!
O conde ouviu as passadas do negro subindo as escadas.
- A quem encomendar o nglig? - perguntou o conde, enquanto a princesa se punha de p para que pudesse tomar a ducha de gua que cairia do teto.
- A quem mais, a no ser quela mulher que me fez o outro? respondeu ela. - Mande um criado  procura dela. Quero-a aqui imediatamente!
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Talvez isso seja difcil!
- Difcil? - perguntou Pauline. - Mas por qu? Ao falar, colocou uma touca sobre os cabelos, para impedir que o chuveiro os molhasse.
A costureira que lhe trouxe o nglig ontem desmaiou quando
saiu da sala, creio que de fome. Como tive pena, mandei-a para casa em meu prprio
coche.
Bem, ela j deve ter-se recobrado - observou Pauline, com indiferena.
Meus criados me contaram que, quando ela chegou a sua casa, soube que sua me estava morta - continuou o conde. - Creio que, talvez nessas circunstncias, ela tenha 
interrompido o trabalho, ou se mudado para o campo, para ir viver com parentes.
Pauline soltou uma exclamao de fria.
No! Isso no pode acontecer! Eu preciso dela! Eu a quero! No
h ningum que costure to bem quanto ela! Traga-a aqui imediatamente e eu a persuadirei a ficar em Paris e trabalhar para mim!
- E se a moa se recusar?
- Ento, eu a sequestrarei, a prenderei, a deterei por qualquer meio, seja qual for! - Pauline bateu o p na gua, enquanto dizia: - Pare de discutir comigo, Axel, 
e mande um criado busc-la. Eu direi a ela o que fazer!
O conde levantou-se lentamente.
Ia dizer algo, mas, nesse momento, a gua jogada por Paul caiu sobre Pauline, Obviamente, ela no poderia entender nada do que ele dissesse.
Quando o conde desceu as escadas, a fim de pedir o seu coche, havia um sorriso estampado em seus lbios.
No dia anterior, Vernita, ao deixar o conde Axel, atravessara correndo a calada diante de sua casa e subira as escadas que conduziam ao sto. O conde, ento, virara-se 
para Louise, que ainda estava ao lado do coche, e perguntara:
- O que aconteceu?
Madame Bernier est morta! - respondera a garota, - Minha me subiu para levar uma xcara de caf para ela e descobriu que tinha morrido enquanto mademoiselle estava 
fora!
Isso  trgico! - respondera o conde. - H algo que eu possa fazer para ajudar?
- Entregara as rdeas ao cavalario e dirigira-se  porta da casa.
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- Em que andar mademoiselle reside? - perguntara a Louise, que o seguira.
- No ltimo, monsieur. So quatro lances de escada!
- Asseguro-lhe que posso subir! - respondera o conde.
Olhara para a escada estreita, notando que, no terceiro andar, acabava o tapete, e o cho era de madeira nua.
A porta do sto ocupado por Vernita estava aberta e, da entrada, ele pudera ver a moa ajoelhada ao lado da cama.
Junto  janela, madame Danjou chorava.
Ele percebera que Vernita tambm chorava, desamparada como uma criana e, no querendo perturb-la, dirigira-se a madame Danjou, que se retirara com ele, fechando 
a porta do sto.
- H algo que eu possa fazer? - perguntara o conde em voz baixa.
-  muito triste, monsieur. A pobre senhora! Ela parecia definhar
- dissera madame Danjou, com lgrimas rolando pelas faces.
- Elas so muito pobres? - perguntara o conde, pensando no sto quase vazio, sem nada que pudesse suavizar-lhe a austeridade.
- Trs pauvres, monsieur - respondera madame Danjou. - Muitas vezes, se eu no as ajudasse, no teriam nada para comer.
- A senhora foi muito gentil - comentara o conde. - E agora haver a despesa com os funerais!
Madame Danjou balanara os ombros expressivamente. O conde tirara algumas moedas de ouro do bolso.
- Pague o que for necessrio - dissera ele. - Voltarei amanh para ver se posso ajudar mademoiselle. No deixe que ela parta sem me ver.
- Ela no far isso, monsieur - respondera madame Danjou. - Ela no tem para onde ir.
- No tem amigos ou parentes?
- Nunca ouvi falar disso, nem os vi.
- Eu voltarei amanh - repetira o conde, enquanto descia as escadas, deixando madame Danjou surpresa com as moedas de ouro em sua mo.
Durante a volta ao Palcio de Charost, Axel ficara pensando em como ajudar Vernita. Agora sabia que tinha algo concreto a lhe sugerir.
Ao contrrio do que a princesa ordenara, ele resolveu ir pessoalmente  procura de Vernita.
Sabia que Pauline no iria sentir falta dele, porque, aps o banho,
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ela sempre se sentava diante de um espelho, em seu quarto, usando apenas uma camisola enquanto uma criada penteava seus cabelos.

Haveria, como sempre, uma longa discusso a respeito de como eles deveriam ser arrumados. Frequentemente, depois de pronto o penteado, Pauline mudava de ideia, e 
tudo tinha que ser refeito.

Alm disso, ela gastaria um bom tempo com a maquilagem.

Ela usava marzip, unguento de pepino e leite de rosas, alm de um preparado especial oriental que escurecia suas sobrancelhas e clios.

Depois disso, um perfume de rosas era espirrado por um criado por todo o seu corpo, antes que ela escolhesse um dshabill, com o qual receberia suas visitas matinais.

O conde sabia muito bem que poderia ir e voltar da rua das rvores, antes que Pauline descesse para o boudoir violeta, onde os comerciantes estariam esperando com 
suas mercadorias.

Ento, ela iria para seu salo favorito, junto ao boudoir nobre.

No quarto, a cama finamente entalhada ficava sob um dossel. A coroa dourada era sobreposta por uma guia e guarnecida com vinte e seis plumas de avestruz.

O exterior do dossel era acolchoado com cetim azul, e o interior com cetim branco, entrelaado de flores dourados.

As paredes do quarto eram revestidas de voile azul bordado em ouro, emoldurado com motivos que representavam folhas douradas de mirto: o smbolo de Vnus.

Pauline raramente passava toda a noite nesse quarto sedutor, mas usava-o para os interldios romnticos, pelos quais sua natureza emocionalmente passional ansiava.

 uma tragdia, pensava o conde, que o prncipe, que ama e admira sua esposa, possa ser, ao contrrio da maioria dos italianos, um amante desinteressado.

Ele era muito agradvel, de boa paz e bem-humorado, mas suas paixes estavam voltadas para os cavalos e carruagens.

Pauline no fazia segredo aos seus amigos que o considerava intoleravelmente enfadonho.

Laure Junot, esposa do general Aridoche Junot, que fora nomeado governador de Paris aos trinta e cinco anos, nunca deixava de contar como, logo aps o casamento 
de Pauline e Camillo, fora convidada a viajar com eles de Saint-Cloud a Paris.

Laure sugerira que, como eles estavam em lua-de-mel, talvez ela fosse atrapalhar.

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- Lua-de-mel com aquele imbecil? - exclamara Pauline. - O que  que voc est pensando?
O conde seguia dirigindo seus cavalos atravs do trnsito movimentado do Boulevard ds Capucines,
Em Paris, a primavera era sempre particularmente atraente e as cestas dos vendedores de flores enchiam-se de vida com os cravos vindos do Sul, grandes ramalhetes 
de violetas de Parma, narcisos e lrios.
Em contraste com o alvoroo, a cor e a excitao das grandes avenidas, a rua onde Vernita morava parecia ainda mais desolada e melanclica.
As altas casas construdas de ambos os lados da rua mantinham o sol afastado, e o conde olhava com repugnncia para as caladas sujas.
Estacionou seus cavalos diante do prdio de Vernita e adentrou o pequeno vestbulo.
Havia um cheiro de comida invadindo o ambiente e, como no houvesse sinal de ningum, o conde comeou a subir as escadas, como fizera no dia anterior.
J tinha atingido o terceiro andar quando viu Vernita, que descia. Esperou at que ela chegasse aonde ele estava.
- bom dia, mademoiselle - disse ele, tirando a cartola.
Ela fez-lhe uma pequena reverncia; ento, olhou para ele, com os olhos arregalados e inquisidores.
Vernita estava ainda mais plida do que no dia anterior e seus olhos, quase que num tom prpura-escuro, pareceram ao conde estarem tomados de desespero.
No usava preto, como no dia anterior, mas um vestido cor de malva. Era um vestido simples, embora ele, sendo experiente em matria de mulher, percebesse desde logo 
tratar-se de material de boa qualidade e caro.
- Madame Danjou disse-me que o senhor... viria me ver - falou Vernita tremulamente.
- Gostaria de expressar meus psames pela morte de sua me disse o conde.
Viu que as lgrimas tomavam conta dos olhos dela e que Vernita desviava seu olhar do dele.
- Mame morreu porque no tnhamos dinheiro para comprar a comida de que ela necessitava.
Havia uma nota de amargura em sua voz macia que o conde no conhecia at ento.
- Sinto muito - disse ele calmamente.
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Ela sofreu demais durante os frios meses do inverno, mas, de qualquer forma, creio que est feliz, ao lado de papai. Vernita falava com simplicidade, como que se 
dirigindo a si mesma.
O conde respondeu gentilmente:
Ontem, quando vi sua me, achei que ela parecia feliz, quase
como se tivesse encontrado finalmente o que procurava.
Vernita olhou para ele, espantada, e ele explicou:
Eu a segui at aqui em cima. A jovem que a chamou para dentro de casa contou-me que sua me falecera.
Madame Danjou contou-me o quanto o senhor foi gentil, providenciando o dinheiro para o funeral. Mame foi enterrada esta manh. Eles no queriam que o corpo permanecesse 
por muito tempo aqui na casa.
Posso entender isso - disse o conde -, mas o que pretende fazer agora?
Houve uma pequena pausa e ele notou que ela estava dando de ombros.
- Devo continuar trabalhando - disse Vernita, aps um momento.
- Aqui?
- Creio que madame Danjou continuar a me alugar o quarto.
- Voc se sentir muito sozinha sem sua me.
- Eu sei - respondeu ela -, mas que mais posso fazer?
- Algo que vou lhe sugerir.
Vernita encarou-o novamente, e o conde notou, embora no tivesse certeza, que ela se empertigara. Achando que talvez ela no tivesse compreendido bem suas palavras, 
tratou de explicar rapidamente:
- Creio que seria possvel arrumar-lhe uma colocao no Palcio de Charost. - A expresso de Vernita, agora, era de espanto, e ele continuou: - A princesa aprecia 
seu trabalho. Inclusive j tem"uma encomenda esperando por voc. Tenho certeza de que, se voc aceitasse, eu poderia arranjar para que morasse l, na qualidade de 
costureira oficial.
Vernita comprimiu seus dedos e continuou olhando escada abaixo, como se isso pudesse ajud-la a compreender e avaliar a sugesto que estava sendo feita.
O conde, olhando para ela, percebeu que a garota nunca pensara em algo semelhante, e que se sentia confusa e nervosa com a ideia de morar no Palcio de Charost.
Ele esperou sem nada falar, parecendo completamente deslocado ali, naquela casa pobre, com suas pantalonas cor de champanhe e seu fraque justo.
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A gravata de musselina branca estava impecavelmente enlaada e as pontas de seu colarinho projetavam-se contra os traos retos de seu queixo.
Como se, subitamente, se desse conta do contraste que havia entre ele e o ambiente em que se encontravam, Vernita disse em um tom hesitante:
-  muita bondade sua... mas... talvez fosse melhor, para mim ficar por aqui.
- Acha realmente que essa  a melhor deciso? - perguntou o conde. - Aqui haveria frio e solido e voc no teria com quem conversar, a no ser com a mulher e a 
moa que conheci ontem.
Sentiu que Vernita, embora disfarasse, estava arrepiada.
Ela, na verdade, j pensara no quanto seria difcil viver ali, naquele lugar lgubre, sem sua me.
Sabia tambm que Louise iria insistir para que sassem, como j fizera antes, s ruas de noite, a fim de encontrar algum com quem se divertir.
A boa educao de Vernita protestava  simples viso de atitudes que envergonhariam sua me; mas, ao mesmo tempo, sabia que seria difcil recusar, infinitamente, 
as propostas de Louise.
- Seria sensato de sua parte se deixasse que eu decidisse isso por voc - disse o conde.
- Por que faria isso? Por que se importa comigo?
Tentava parecer orgulhosa e independente; mas, ao contrrio, mostrava-se desamparada e nervosa, como uma criana que estivesse com medo de caminhar na escurido.
- Fiquei com pena de voc ontem - respondeu o conde - e percebi que tem sido explorada pela loja que a emprega. O que acho mais desagradvel nos franceses  que 
so sempre muito avaros.
- Mas eles tambm conseguem ser gentis - respondeu Vernita, pensando em madame Danjou.
- Talvez os ache muito gentis, se ficar morando aqui sozinha disse o conde.
Ela olhou para ele rapidamente e, novamente, desviou o olhar. O conde percebeu que atingira seu ponto vulnervel.
Vernita pensava no quanto sua me ficava apreensiva cada vez que ela saa sozinha para a rua. Recordava-se agora de pequenos incidentes que haviam acontecido com 
relao a homens que se dirigiam a ela enquanto fazia compras, e do terror que sentira ao ver que no havia ningum que a protegesse.
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Ao menos em uma casa grande como o Palcio de Charost haveria empregadas, com as quais poderia manter amizade e que, sem dvida, a tratariam como uma das suas.
Qualquer coisa seria melhor do que ter que viver ali naquele sto,
sem a companhia de sua me, sozinha noite e dia, e sozinha quando caminhava pelas ruas.
- A princesa disse que me quer? - perguntou.
Ainda no - disse o conde. - Mas mandou que a procurasse,
para encomendar um outro nglig.
Devo ir com o senhor agora?
Imediatamente! Quando Sua Alteza Real quer algo, isso tem que ser cumprido segundos aps ela ter dado a ordem; ou, se possvel, quando ainda estava pensando nisso.
Sua resposta provocou um fraco sorriso nos lbios de Vernita. Ento, ela disse:
- Se quiser ter a bondade de me esperar por um minuto l embaixo, irei buscar meu chapu!
- Ento, apresse-se! - disse o conde.
Ele desceu as escadas, montou em seu coche e apanhou as rdeas das mos do criado.
Poucos minutos depois, Vernita cruzou a calada e sentou-se a seu lado.
Ele percebeu que ela usava um chapu totalmente diferente daquele que vestira no dia anterior.
Ao invs do chapu simples de palha preta, que combinava com o tipo de moa que ganha seu prprio sustento, ela usava um outro, que, certamente, tinha custado muito 
dinheiro.
Era tambm muito simples, adornado apenas com laos cor de malva, que combinavam com o vestido, mas havia algo nele que modificava a aparncia dela. O conde achou 
que ele revelava a dama que, tinha certeza, ela era!
Como se percebesse o que ele pensava, Vernita disse:
- No tive tempo de trocar de roupa. - Fez uma pausa e, como se achasse que tinha que ser honesta, completou: - Ontem... as roupas que vestia tinham sido emprestadas 
da filha de madame Danjou. E hoje no quis pedi-las novamente. Isto  tudo o que eu tenho.
No completou dizendo que, na verdade, o vestido era de sua me, cuja cor preferida era o malva. E que era o traje mais prximo do luto que conseguira achar, em 
meio ao que sobrara de seu guarda-roupa.
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Tudo o que era valioso, como as peles, tinha sido vendido.
No fundo de duas malas havia alguns vestidos de noite, que ela no conseguira vender apesar de terem sido confeccionados com material caro.
Vernita achava que talvez um dia pudesse coloc-los em uso, mas nesse meio tempo, ainda possua alguns vestidos de dia, elegantes e bonitos, que trouxera para Paris 
dois anos antes.
Sabia que no se parecia nem um pouco com uma costureira, mas nada mais tinha para usar.
Se a princesa se recusasse a empreg-la por causa de suas roupas no poderia fazer nada a no ser voltar a viver naquele sto.
- Por que no me conta algo a seu respeito? - perguntou, inesperadamente, o conde.
Vernita sentiu uma vontade irresistvel de fazer o que ele pedia, contando tudo o que de horrvel acontecera com ela e com sua famlia, desde que Napoleo comeara 
a prender todos os turistas ingleses. Mas como dizer-lhe a verdade, sem ir parar, ela mesma, na cadeia?
Embora o conde fosse sueco, obviamente era amigo daqueles inimigos dos britnicos, e no havia por que duvidar de sua lealdade para com eles.
- Eu j lhe contei ontem - disse Vernita. - Meu pai veio da Normandia, mas h dois ou trs anos j vivamos em Paris.
- O que seu pai fazia?
A imaginao de Vernita trabalhava, para que pudesse dar uma resposta plausvel e com ares de verdade.
- Ele se interessava por vrias coisas - respondeu vagamente -, mas papai no era um bom homem de negcios e foi educado apenas para... se divertir.
Isso era verdade, pensou ela.
- E, quando morreu, ele deixou vocs duas com pouco dinheiro, no ?
Vernita suspirou.
- Creio que papai... no tinha sorte nas cartas.
Isso, achava ela, era uma desculpa bem razovel, pois notara, assim que chegara a Paris, como todo mundo ali jogava.
No havia somente jogos de cartas para os ricos, mas loterias para os pobres, e a esperana de fazer fortuna que a todos encantava.
- Ento, ele era um jogador! - disse calmamente o conde.
- Creio que... sim!
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Seu pai, certa vez, contara-lhe a respeito dos jogos que se realizavam no Falais Royal, onde fortunas eram apostadas todas as noites.

Sabia tambm que, nos bailes e festas que tinham frequentado, havia sempre cavalheiros que se retiravam daquela multido brilhante, achando que o brilho de um lus 
de ouro era mais convidativo que qualquer mulher bonita.

- Ento, ele deixou muito pouco para sua me e para voc? perguntou o conde. - Voc no tem amigos ou parentes com quem possa viver agora?

- Vivendo em Paris, perdemos o contato com todos os que conhecamos... no campo - respondeu Vernita.

Isso parece bem plausvel, pensou ela, querendo chegar logo ao Palcio de Charost para que o conde no pudesse lhe fazer mais perguntas.

- Acho - disse ele, quase que falando para si mesmo - que ficar sozinha, em sua idade, e sendo to atraente, s poder lhe trazer problemas.

- Sim, naturalmente. Tenho conscincia disso.

- Ento, tome cuidado. Tome cuidado com o que faz e diz, e tente no parecer to adorvel.

Ela virou-se para ele e olhou-o, espantada.

- Falo seriamente - disse o conde. - Voc est em Paris, e aqui  a nica capital da Europa onde uma mulher bonita  apreciada. Mas isso, tambm, constitui um perigo.

Vernita sabia que ele a estava prevenindo; mas contra quem?

Eles adentraram a rua do Faubourg Saint-Honor e no havia mais tempo de o conde fazer outras perguntas. Mas ela sabia que ele falara seriamente, quase que solenemente. 
Quando eles alcanaram o ptio do Palcio de Charost, Vernita chegou  concluso de que deveria prestar muita ateno ao aviso dele.

Ao descer, ela notou que os criados no a tinham reconhecido, por causa das roupas que estava usando, e dispensavam-lhe as atenes que teriam para com uma das convidadas 
da princesa.

O conde entregou suas luvas e sua cartola para outro criado e atravessou o vestbulo em direo ao boudoir onde, no dia anterior, Vernita vira a princesa.

Na sala havia vrias pessoas parecendo vendedoras, mas o conde fechou a porta, sem sugerir que Vernita se juntasse a elas. Ao contrrio, indicou-lhe um pequeno sof 
ao fundo do vestbulo, junto s escadas.

- Espere aqui! - disse ele, enquanto subia, deixando-a sozinha.

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Vernita sentou-se empertigadamente no canto do sof, com as mos no colo.
Os quatro criados de peruca empoada postados no vestbulo olharam sub-repticiamente para ela, mas nada disseram. Vernita percebeu que eles estavam confusos com o 
fato de ela estar ali.
Eram bem treinados para parecerem inquisitivos; mas permaneceram em silncio, resplandecentes em suas librs verdes e douradas.
Como esperava, o conde encontrou a princesa Pauline em seu quarto.
Ela estava quase pronta, vestida com o nglig que Vernita lhe trouxera no dia anterior.
com seus laos de musselina rosa, parecia muito atraente e, como que sentindo um grande prazer com sua prpria imagem, ela virou-se para o conde com um sorriso.
- Onde voc estava, Axel? Queria ter conversado com voc enquanto me vestia.
- Estava cumprindo suas ordens - respondeu ele, em um tom deliberadamente relutante.
Ela soltou uma pequena exclamao.
- Naturalmente! Pedi-lhe que fosse procurar a mulher que me far o nglig prata e branco.
-  muito comum de sua parte mandar-me para uma tarefa desagradvel e depois se esquecer do que estou fazendo!
- Voc a encontrou?
- Naturalmente! Alguma vez eu falhei com voc?
- E ela est aqui?
- L embaixo, esperando por voc!
- timo! J pensei em vrias outras coisas que quero.
- No espere que a mulher possa fazer mais que uma pea de cada vez.
- Ela tem que tentar! - respondeu, petulantemente, a princesa.
- Voc riu da camisola que usei ontem  noite; assim, joguei-a fora. Voc estava certo: ela no ficava bem em mim!
Como o conde parecesse taciturno, a princesa atravessou o quarto e veio at junto dele. Colocou suas mos nos ombros dele e contemplou-o nos olhos.
Ela era to pequena que mal lhe alcanava os ombros.
- No se aborrea, Axel - pediu ela. - Fico-lhe grata por ter encontrado a mulher que eu queria; e pense no quo delicioso ser quando voc me vir maravilhosa, usando 
as roupas que ela me far!
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Se ela fizer! - respondeu o conde. A princesa empertigou-se
O que quer dizer? Ela no poder recusar-se a cumprir minhas ordens!
No lhe contei que a me dela morreu. E descobri que ela pretende
deixar Paris, por no ter onde ficar. No  fcil encontrar-se acomodao barata na cidade, neste momento!
A princesa soltou um pequeno riso.
Ento  isso? Bem, a soluo  fcil. Ela pode ficar aqui!
O conde pareceu surpreso,
No tinha pensado nisso
- Voc no  prtico, mon cher! - respondeu a princesa. - Agora que trouxe a mulher, deixe tudo comigo. Voc sabe que, quando quero algo, eu o consigo!
Ela falava como uma criana travessa. O conde riu e, tomando-lhe o queixo, virou-a para si.
- Um dia voc querer a lua - disse ele - e ficarei surpreso se ela no cair em seus braos!
- Mas cair - respondeu a princesa. O conde beijou seu nariz clssico.
- Agora eu sei por que os Bonaparte conquistaram um quarto do mundo.
- Somente um quarto? - perguntou a princesa, - O que Napoleo est pensando? Ele me disse que iria conquist-lo todo!
- Ainda falta a Inglaterra.
- Quem quer aquela ilha tediosa e pequena? - perguntou a princesa, enquanto, petulantemente, afastava-se dele.
- Seu irmo, por exemplo - respondeu o conde.
- Ento, ele a ter! Napoleo sempre consegue o que quer! - disse Pauline. - E no ouse sugerir outra coisa!
- Como se eu fosse indelicado!
- Creio que Napoleo vir me ver amanh! - Ento, espero poder encontr-lo! Pauline riu.
Voc ainda est querendo faz-lo interessar-se por aquela sua arma ridcula?
Por que no? Posso provar que  uma arma formidvel! Se funcionar! - falou, zombeteiramente, a princesa. - Disse a Napoleo que voc queria lhe mostrar o projeto 
e ele me respondeu
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que tem pilhas de projetos para examinar! Mas quando os canhes ficam prontos, parecem desmontar no primeiro tiro, ou ento ficam pesados demais para serem arrastados.
- Isso no acontece com meu canho - respondeu quase que agressivamente o conde. - Quando o mostrei ao general Junot, antes de ele partir para Portugal, ficou muito 
impressionado. E tambm o marechal Ney
A princesa riu novamente e, ficando na ponta dos ps, abraou-se ao pescoo do conde e puxou a cabea dele para junto da sua.
- Eu adoro voc, Axel! - disse ela. - Voc me excita como nenhum homem o faz. Depois de ter-me casado com aquele tedioso do Camillo, que no passa de um eunuco, 
voc me emociona!
- O que, naturalmente,  muito gratificante! - disse o conde, com um toque de sarcasmo na voz.
- Mas temos de ter cuidado, muito cuidado - avisou Pauline. Se Napoleo achar que estamos falados, ele o mandar embora. Voc sabe que ele no aprova que eu tenha 
um amante.
- Ento, realmente, devemos ter cuidado!
- Essa no  a resposta certa! - disse, asperamente, a princesa.
- Se voc me amasse, ousaria desafiar Napoleo. Alm disso, ele  apenas meu irmo.
-  o imperador!
Ela fez uma careta, mas o conde sabia que, no fundo, ela estava amedrontada, temendo que Napoleo trouxesse seu marido de volta a Paris, para evitar um escndalo.
- Quero que me ame muito, que nada mais tenha importncia insistiu ela. - Napoleo disse, certa vez, que h um fluido magntico entre duas pessoas que se amam. Ele 
estava certo.
- Naturalmente! - concordou o conde.
A princesa beijou-o, pressionando os lbios contra os dele; ento soltou os braos de seu pescoo.
- Vamos descer e encomendar meu nglig - disse ela - e, depois, quando tiver terminado meus negcios matinais, poderemos ficar a ss.
- Por que no?
A princesa no esperou para ouvir essa observao.
Estava j saindo do quarto em direo s escadas que a conduziriam ao boudoir violeta, onde sabia que os costureiros estariam esperando por ela.
Pois, por mais que um amante a excitasse, por mais irresistvel que achasse um homem, havia algo que tinha precedncia sobre tudo o mais: os adornos e as vestes 
que usaria sobre seu corpo maravilhoso!
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CAPTULO 3
Voltando juntamente com o conde, Vernita no conseguia saber se estava feliz ou amedrontada com o que fora arranjado para ela.
A princesa desceu as escadas, com seu nglig esvoaante, que escondia pouco daquele corpo maravilhoso e, quando alcanou o vestbulo, com o conde a seu lado, este 
lhe disse:
- Mademoiselle Bernier est aqui, esperando por voc!
- Estou vendo - replicou a princesa, enquanto caminhava em direo a Vernita, que se levantara e lhe fizera uma reverncia. A princesa disse rispidamente: - Est 
tudo arranjado, voc ficar aqui. H muito trabalho e preciso que comece a costurar imediatamente.
Vernita olhou para ela apreensivamente e, ento, disse em voz baixa:
- Alteza, eu tenho que providenciar minha bagagem. Poderia comear amanh?
No sabia por que mentia, mas teve apenas a sensao de que estava sendo envolvida por uma grande onda, contra a qual no conseguia lutar.
Creio que sim - disse, taciturnamente, a princesa. - Mas preciso do meu nglig imediatamente! Ela olhou para o conde e continuou: - Axel, explique a essa mulher 
o que voc tem em mente, e amanh ela deve me trazer o material para que possamos acertar os detalhes de tudo o que voc quer.
Deixe tudo comigo - disse o conde, com um sorriso. - Pensei
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que eu fosse um perito em canhes, mas agora vejo que tenho uma segunda profisso: desenhista de roupas ntimas! A princesa riu.

- Muito bem, arranje tudo, mas, se eu ficar desapontada, voc ter que me pagar.

- Ser um privilgio.

Ela riu novamente e entrou no quarto violeta, onde estavam os outros comerciantes.

- Venha e ajude-me a escolher um vestido para o baile da semana que vem, Axel - disse ela, por sobre o ombro, ao alcanar a porta.

- Irei escolher seu vestido to logo tenha escolhido sua roupa de baixo - respondeu ele, lanando-lhe um sorriso encantador, antes que ela desaparecesse porta adentro.

O conde olhou para Vernita.

- Creio - disse ele - que precisar de algum dinheiro para comprar os materiais de que a princesa necessita.

- Sim, por favor - respondeu ela. - Que tipo de nglig Sua Alteza Imperial deseja?

- Venha e eu lhe explicarei.

Conduziu-a at o pequeno salo, onde tinham conversado no dia anterior.

Assim que um criado fechou a porta, o conde lhe disse:
- Contei  princesa sobre a morte de sua me, e disse que voc estava pensando em deixar Paris. Foi dela a sugesto para que voc ficasse aqui.

- Fico agradecida... muito agradecida - replicou Vernita -, mas o senhor compreender que  quase que... alarmante!

Ela olhou  sua volta, para a moblia sofisticada da sala, e pensou no contraste que havia com o sto onde vivera nos dois ltimos anos.
- Sei que a princpio ser difcil - disse o conde - e que voc ter que viver com os criados, mas  melhor, que morrer de fome naquele sto terrvel!

- Sim, naturalmente! - concordou Vernita.

- Agora diga-me de quanto precisa para comprar o material necessrio para confeccionar um nglig bordado em prata, listrado de rosa

-bem claro.

- Ficar muito atraente.

- Sim, quando voc o fizer
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- Tenho medo de que os materiais sejam caros.

- Isso no tem importncia. vou procurar o tesoureiro da princesa, ou o seu secretrio, e dizer que providencie o material que voc precisa, nas melhores lojas. 
- Dirigiu-se  porta, enquanto completava: - Fique aqui at que eu volte!

Vernita, aps a partida dele, sentou-se em uma poltrona. Sentiu como se sua cabea girasse. No acreditava no que estava lhe acontecendo e sabia que, ao mesmo tempo 
em que tudo aquilo era uma soluo para seus problemas, no deixava de ser um mergulho no desconhecido.

Ficara apreensiva ao perceber que o conde evitara que ela fosse pessoalmente conversar com monsieur de Chermont-Tonnerre, pelo fato de este ter uma queda muito especial 
por mulheres bonitas.

Vernita estava to atraente que o conde tivera, mesmo, certo medo de que a princesa se recusasse a empreg-la.

Felizmente, Pauline estivera totalmente concentrada em si mesma, e, se ele lhe pedisse, ela nem conseguiria descrever como Vernita se achava trajada naquele momento.

Na verdade, ela nem se dera conta de que Vernita estava vestida diferentemente do dia anterior.

Mas o conde notara que, com aquela roupa, ela ficara parecendo uma verdadeira dama de sociedade, pronta a frequentar qualquer lugar da moda em Paris.

Ao voltar, depois de ter feito todos os acertos necessrios, no com o tesoureiro, mas com seu secretrio, o conde ficada imaginando como dizer a Vernita que deveria 
mudar a sua aparncia.

Ento, sorrindo cinicamente, disse a si mesmo que no eram as roupas que deveriam ser alteradas, mas a prpria face de Vernita.

Esta levantou-se quando ele entrou no salo. Os olhos dela tinham uma expresso ansiosa, e o conde teve a certeza de que algo a perturbara desde sua sada.

- Tudo est arrumado - disse ele calmamente.

Estendeu-lhe trs cartes com as armas da princesa, assinados pelo tesoureiro.

- Isto possibilitar que compre tudo o que precisar em qualquer loja conhecida, e as mercadorias sero pagas aqui - disse ele.

- Obrigada.

- J tratei tambm de seu salrio - continuou o conde. - Voc receber oitocentos francos por ano, pagos mensalmente, alm, naturalmente, de alojamento e alimentao.

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-  muito! - murmurou Vernita. O conde sorriu.
- No, se pensarmos que estamos em Paris - disse ele, pensando que a princesa gastava isso apenas com um chapu.
Ento, lembrou-se de que, vivendo do jeito que Vernita vivia, ela deveria saber o valor exato de um franco. Ento, disse:
- Esta  uma criadagem real, e o imperador deseja que ningum seja mal pago!
- O senhor sabe o quanto fico agradecida! - disse Vernita.
- Eu a levarei para casa.
Abriu a porta, deixando que Vernita o precedesse, e somente ao alcanar o prtico percebeu que, em sua posio, ela  que deveria t-lo seguido.
Ento, quando desciam a rua do Faubourg Saint-Honor, ela disse em voz baixa:
- Espero que no fique... desapontado comigo!
-   princesa que deve agradar, e no a mim! - respondeu o conde. - E no creio que eu fique por muito tempo em Paris.
Suas palavras fizeram com que Vernita rapidamente olhasse para ele e perguntasse:
- O senhor vai embora?
No sabia por qu, mas essa ideia a preocupava e incomodava.
- Tenho de voltar  minha casa a qualquer momento - respondeu o conde. - Por isso  que gostaria de lhe dar um bom conselho, antes de partir.
- Eu ouvirei tudo o que quiser dizer!
-  difcil conversarmos aqui - disse o conde, enquanto seguia dirigindo os cavalos atravs do boulevard. - Por que no janta comigo esta noite, aps ter empacotado 
todas as suas coisas?
Vernita ficou surpresa.
- Jan... jantar com o senhor?! - gaguejou ela.
Vernita tinha certeza de que a princesa consideraria repreensvel e at mesmo insultante o fato de o homem que ela cortejava sair com uma de suas empregadas.
- Seria mais fcil conversarmos em um restaurante calmo - disse o conde.
- Mas... mas, e a princesa?
- A princesa no ficar sabendo. Na verdade, estar em uma festa para a qual no fui convidado.
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Vernita ficou em silncio por um momento; ento, disse:
- No ... errado?
No sabia ao certo o que queria expressar, apenas que era algo extremamente revolucionrio para ela o fato de ter sido convidada para jantar. nunca jantara a ss 
com um homem e tinha a impresso de que sua me a desaprovaria se aceitasse o convite.
O conde pareceu considerar sua pergunta e, ento, disse:
No Creio que seja errado. Talvez muito informal, a menos que pensssemos em uma dama de companhia adequada. Voc conhece alguma? 
No. creio que no - respondeu Vernita.
Sabia que seu corao estava batendo com rapidez e tentava considerar o convite sensatamente; mas havia uma chama de excitao que crescia dentro dela, sem que pudesse 
det-la.
Muito bem, ento - disse o conde. - Eu a apanharei s sete
horas!
Eles j seguiam pela rua das rvores, e Vernita perguntou rapidamente:
- Por favor... o que devo usar?
Era uma pergunta feminina, que o fez sorrir.
- Iremos a um lugar muito calmo. Se tiver um vestido de noite simples, ponha-o; seno, o que est usando neste momento  muito charmoso!
- Mas inadequado  minha posio - disse Vernita. - Percebi o que o senhor pensava quando estvamos no Palcio de Charost.
- Tambm acho - respondeu ele - que far pouca diferena alterar o que voc usa, j que no poder diminuir o tamanho de seus olhos, ou modificar o contorno de seu 
rosto.
Ela sentiu-se estremecer com o tom da voz dele.
Ento os cavalos pararam e o criado que vinha na boleia desceu para ajudar Vernita a apear.
As sete horas - disse calmamente o conde, tirando o chapu.
Vernita no olhou para trs, enquanto caminhava, pela calada suja, at a casa sombria.
somente ao alcanar o sto foi que correu para as malas que estavam colocadas contra as paredes.
Comeou a tirar as peas que havia dentro delas, tentando freneticamente descobrir algo que a fizesse atraente para o conde. 
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O conde era pontual e Vernita j esperava, l embaixo, pelos cavalos que, a qualquer momento, deveriam aparecer na rua.
Subitamente, aquele pequeno vestbulo pareceu-lhe to intolervel que se ps a pensar em como ela e sua me tinham conseguido viver ali durante tanto tempo.
O papel estava se soltando das paredes e, embora houvesse um tapete, este estava sujo e precisando ser escovado.
Como o conde j havia notado, havia um cheiro de cozinha que invadia o compartimento, e, pendurados em um cabide, havia vrios casacos velhos, cujos donos tinham 
preguia de lev-los at seus quartos
Assim que ouviu os cavalos pararem, Vernita saiu e percebeu que eles no puxavam o mesmo coche usado pelo conde naquela manh, mas sim uma carruagem fechada, com 
um cocheiro e um criado sentados na boleia.
Este ltimo desceu e abriu a porta. O conde apeou, to resplandecente em seu traje de noite que Vernita perdeu a respirao.
Fazia muito tempo desde que vira pela ltima vez um cavalheiro to elegante assim, e isso a fez pensar nas festas que seus pais tinham frequentado, assim que chegaram 
a Paris, dois anos antes.
Nada podia ser mais glamouroso ou colorido que os leves e sales, e ela nunca se esquecera de uma recepo a que assistira com seu pai, nas Tulherias.
As centenas de criados em suas librs verdes e ouro, os suntuosos oficiais do palcio, os pajens com suas correntes douradas e seus medalhes, os uniformes dos ajudantes-de-ordens,
 tudo a maravilhara!
Os cavalheiros que a tinham acompanhado aos bailes usavam uniformes com dragonas douradas, ou, ento, vestiam-se magnificamente com culotes e casacas, e gravatas 
brancas, onde brilhavam alfinetes que combinavam com os relgios de bolso.
Agora, ao olhar para o conde que atravessava a calada em sua direo, Vernita achou que deveria ter escolhido um vestido mais sofisticado para usar naquela noite.
Como realmente se sentisse de luto por sua me, recusara-se a usar um daqueles vestidos cor-de-rosa, verdes ou amarelos, que tinham sido comprados em Bond Street 
para sua viagem  Frana. 
Ao contrrio, encontrara na bagagem de sua me um vestido cor de malva plido, em gaze, drapeado suavemente de chiffon  volta do decote e de mangas curtas, detalhe 
este que parecia faz-lo menos formal que os outros.
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Aps t-lo comprado, lady Waltham dera-se conta de que era juvenil demais para ela.

Mas, como era sua cor favorita, de vez em quando o vestia, quando jantava a ss com seu marido e filha, mas no o considerava adequado para outras ocasies.

Havia uma longa capa de veludo da mesma cor para ser usada com ele; na verdade, por no ser adornada com peles, escapara de ser vendida.

Fazia tanto tempo que Vernita no usava um traje de noite que, quando se olhou em um pequeno espelho quebrado que havia no sto, sentiu-se feliz com sua aparncia.

Achava-se uma Cinderela, em cujas pobres roupas a fada madrinha havia tocado, transformando-as em um lindo vestido de baile!

Mas, agora, sentia medo de que o conde ficasse envergonhado de sua figura; assim, seus olhos estavam ansiosos quando ela olhou para ele.

Tomando sua mo, o conde levou-a aos lbios.

- Voc no  apenas pontual - disse ele -, o que  incomum em uma mulher, mas tambm muito bonita!

As palavras significam muito menos em francs do que no idioma ingls, pensou Vernita.

Apesar disso, ela corou e sentiu dificuldade em responder.

O conde conduziu-a atravs da calada e ajudou-a a subir na carruagem. Quando partiram, Vernita no conseguiu impedir a sensao de emoo por estar recostada em 
um banco almofadado, com uma manta sobre os joelhos.

- Eu tinha planejado lev-la a um lugar bem calmo, para que pudssemos conversar - disse o conde - mas, talvez, voc prefira ir a um dos restaurantes da moda, onde 
todos aparecem para ver e serem vistos.

- No, no - disse Vernita rapidamente -, e tenho certeza de que no ficaria bem para o senhor ser visto comigo!

- Quanto a mim, no, mas voc, sem dvida, receberia tantos convites que teria dificuldade em recusar.

Vernita percebeu que essa era uma forma de cumprimento, e disse a ele:

-  muito excitante ir a qualquer lugar... pois nunca jantei em um restaurante de Paris.

Sabia que sua me acharia vulgar comer em outro lugar que no fosse a prpria casa, ou as dos amigos.

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Como que percebendo o que ela pensava, o conde disse:

- Como sou solteiro, voc no poderia ir  casa onde estou morando. Assim, como desejava falar-lhe, a nica alternativa era um restaurante.

- Sim,  claro que sim - concordou Vernita.

Nesse momento ela pensava nos lugares baratos para os quais Louise Danjou estava sempre convidando-a; sentia-se bem por nunca ter aceitado essas sugestes.

A carruagem parou em uma pequena praa, em cujo centro havia muitos arbustos floridos e  sua volta vrios toldos, indicando a presena de pequenos e discretos restaurantes.

O criado ajudou Vernita a apear e ela entrou em um dos restaurantes, achando tudo muito diferente do que sempre imaginara.

Ao invs de uma grande sala cheia de mesas, como pensava, havia vrios pequenos compartimentos separados uns dos outros por sofs de veludo, e com poucas mesas em 
cada interior.

Havia pinturas e espelhos nas paredes, e flores que perfumavam o ar. Uma mulher vestida de preto recepcionou-os e os conduziu a uma das mesas, localizada no final 
da sala e parecendo bem isolada das outras.

Vernita sentou-se e um grande cardpio encadernado com couro vermelho foi colocado em frente de ambos.

Vernita olhou para o cardpio, desamparada. Havia muitos pratos a escolher e ela se esquecera do que queriam dizer seus nomes.

- Sei que voc est com fome - disse o conde - e vou imediatamente fazer seu pedido.  um erro, quando passamos sem comer todo o dia, abusarmos de pratos pesados, 
difceis de digerir.

Vernita sentia-se agradecida por no ter que fazer nada, a no ser ouvi-lo fazer os pedidos.

Ento, o conde escolheu o vinho e recostou-se confortavelmente, virando-se de lado, para que pudesse olhar para Vernita.

-  seu primeiro jantar em um restaurante - disse - e tenho a impresso de que  tambm a primeira vez que janta a ss com um homem,  exceo de seu pai.

- Sim... sim - respondeu ela. -  verdade!

- Ento, sinto-me muito honrado em ser o primeiro. Precisamos transformar nosso jantar em algo especial, principalmente porque pode ser que no mais se repita.

- Quando parte? - perguntou ela.
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- Honestamente no sei - respondeu o conde -, mas vamos esquecer isso, para que a noite transcorra otimamente!

Vernita sentiu uma pequena pontada dentro de si, da qual desconhecia o porqu; mas, sem dvida, chegava a ser um sofrimento fsico.

Depois desta noite, pensava ela, serei apenas uma criada do Palcio de Charost, com quem o conde falar apenas para dar ordens, e no haver possibilidade de sermos 
amigos, como agora!

- Esquea o amanh - disse o conde, mais uma vez como que sabendo o que lhe ia pela cabea - e desfrutemos todos os momentos do nosso presente. Diga-me pelo que 
se interessa!

Fazendo um esforo para entrar no esprito que ele estava tentando criar, Vernita respondeu:

- Ler, quando consigo livros, e cavalgar, quando tenho um cavalo.

- Deveria ter adivinhado - disse o conde. - E o que mais? Vernita fez um pequeno gesto com a mo.

- Costumava tocar um pouco de piano, mas estou totalmente fora de forma. E acho que nunca tive muita aptido para as aquarelas, como muitas de minhas amigas.

Ao falar, compreendeu que cometera um engano. No sabia se os franceses, como os ingleses, encorajavam suas filhas a desenhar e a pintar. Rapidamente, ela completou:

- Admirei muito os cavalos que o senhor estava conduzindo.

- Ai de mim! No so meus! - respondeu o conde. - Pertencem ao visconde de Cleremont. Estou na casa dele, nos Champs lyses!

- Oh, eu conheo o Palcio de Cleremont - exclamou Vernita.

- Muitas vezes fiquei a admirar o braso de armas colocado em seu prtico.

- Meu amigo, o visconde, admira-o tambm. - O conde sorriu.

- Como voc sem dvida sabe, ele pertence a uma famlia muito antiga, que remonta ao imperador Carlos Magno.

com medo de que o conde quisesse lhe perguntar mais coisas sobre as velhas famlias francesas, Vernita, rapidamente, procurou mudar o assunto da conversa.

- Sempre ouvi dizer que a Sucia  um pas muito bonito!

- Eu tambm acho, mas sou suspeito para dizer algo - respondeu o conde. - Gostaria muito que voc pudesse ver meus prprios cavalos. Tenho alguns que, creio, so 
insuperveis.

- Eu tambm tinha um cavalo - disse Vernita - e o amava mais

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que a qualquer outra coisa do mundo, com exceo de meus pais. Ensinei-o a obedecer ao meu assobio e, embora fosse meio bravo com o mundo, fazia tudo o que eu lhe 
pedia.
- Qual era o nome dele?
- Dragonfly - respondeu Vernita, sem se lembrar de que esse era um nome ingls.
Ao notar isso, sentiu seu corao gelar, com medo do erro cometido
- Ento, seu cavalo tinfja um nome ingls! - observou o conde
- Ele veio da Inglaterra - disse Vernita rapidamente. - Papai comprou-o quando o armistcio foi assinado.
Vernita achou que essa era uma desculpa lamentvel. Teria tido muito pouco tempo para treinar seu cavalo, desde a poca do armistcio, mas esperava que o conde no 
notasse esse detalhe.
Felizmente, nesse momento, o garom trouxe o vinho, dentro de um balde de gelo. Abriu a garrafa.
O conde provou-o, assentiu, e o garom serviu um copo para Vernita.
Ela olhou para a bebida, como que em dvida.
- Faz tanto tempo que no bebo vinho que poderia ser um erro!
- Sim, se estiver em jejum - concordou o conde. - Mas eu prometo que cuidarei de voc, e no permitirei que beba muito.
O tom da voz dele fez Vernita sentir-se envergonhada. Como no suportasse encar-lo, ela cortou o pozinho que estava sobre seu prato, servindo-se de um pouco de 
manteiga.
O po era fresco e, como estivesse faminta, achou-o delicioso! Mas, para sua surpresa, o conde afastou o prato de sua frente. 
- No quero que perca o apetite, at que veja o que pedi - disse ele. - A comida daqui  maravilhosa.  um dos pequenos lugares de Paris que atende plenamente ao 
gosto do gourmet, e  isso que vai acontecer com voc hoje. Vernita sorriu.
- Estou faminta e  difcil esperar.
- Sei disso - respondeu ele -, e sei tambm que ser difcil evitar de comer a primeira coisa que aparecer. E, ento, no ter apetite para mais nada.
- Como sabe disso? - perguntou Vernita.
- Porque j passei fome, passei fome muitas vezes.
-  verdade? Mas quando? - perguntou, surpresa, Vernita.
- Quando estava viajando - respondeu ele, mas ela percebeu que no era toda a verdade.
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Quando a comida chegou, tudo era to delicioso que, como o conde previra, Vernita comeu afoitamente o primeiro prato e mal conseguiu lambiscar os outros.

- Voc desapontar o monsieur proprietrio do restaurante e tambm o seu chef - disse, brincando, o conde.

Isso no era comum nela. Mas os meses de privao a faziam agir assim. Finalmente, ela admitiu que estava saciada, e o conde terminou o jantar sozinho.

Ento, quando o garom lhes trouxe caf, ele disse:

- Agora vamos conversar sobre voc, Vernita.

Ela olhou para o conde, surpresa pelo fato de ele t-la chamado pelo primeiro nome. Mas Vernita nada disse e ele continuou:

- Estou preocupado com o que poder lhe acontecer no futuro, e apenas posso lhe pedir que seja prudente; tenha muito cuidado em no se meter em alguma situao da 
qual no possa mais sair.

- Acho que... no entendi o que quer dizer - respondeu Vernita.

- Quantos anos voc tem?

- Dezenove. Farei vinte daqui a dois meses,

- Seu pai morreu h quantos anos?

- Dois.

- E desde ento voc viveu sozinha com sua me?

- Sim.

- No entendo o que possa ter acontecido com os amigos que vocs deviam ter, quando seu pai ainda era vivo.

Os clios de Vernita eram muito negros, em contraste com suas faces alvas.

- Mame... ficou doente - disse ela com voz hesitante -, e como ramos muito pobres... no podamos receber... e dificilmente algum nos recepcionaria tambm.

- Creio entender, mas parece estranho que duas pessoas to atraentes quanto voc e sua me no tenham tido muitos amigos dispostos a ajud-las.

- Talvez fssemos orgulhosas demais... para aceitar uma caridade
- disse Vernita, tentando achar uma explicao plausvel.

- Para mim, a amizade existe em quaisquer circunstncias, principalmente quando as pessoas se encontram em dificuldades.

Isso era tambm o que Vernita achava, e ela disse impulsivamente:

- Isso, naturalmente,  o que todos deveramos fazer, mas a natureza humana  muito frgil.

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- Foi isso o que encontrou?
- No, encontrei tambm bondade... como a sua - disse Vernita. Ela falara sem pensar; quando se deu conta, corou.
- Obrigado - respondeu, calmamente, o conde. - Quero ajud-la, Vernita. Quero isso desesperadamente, mas em verdade no sei como continuar. Estou em Paris apenas 
de passagem. J lhe disse que terei que partir a qualquer momento. No sei se fiz a coisa certa, levando-a para o Palcio de Charost.
-  muito melhor que ficar soznha... sem mame.
- Foi o que pensei, at v-la esta manh.
- Fiz algo errado? - perguntou Vernita.
- No errado - respondeu o conde. - Ontem, ao conhec-la, achei que no era a costureira que procurava fingir, mas tive pena de voc, por estar s portas da misria. 
No entanto, nesta manh... Fez uma pausa e, ento, continuou: - Quando a vi com seu vestido malva, dei-me conta de que o que suspeitara era verdade. Voc  uma dama 
e sempre viveu em um meio muito diferente deste no qual est agora.
- Ser bem-nascida no impede que passemos fome. - Vernita sorriu. - E duvido que minha rvore genealgica possa me render algum tosto a mais, quando tento ganhar 
a vida.
-  uma sorte que saiba costurar to bem.
- Minha me bordava maravilhosamente e fazia tapearias tambm. Era o nico talento rentvel que possuamos. Mas nem isso adiantou muito.
Havia uma nota de desamparo na voz de Vernita, como se se desse conta de que o fato de serem to talentosas no tinha salvado sua me da morte.
- Estou preocupado - disse o conde.
- com o qu?
- com voc. O que ser de voc? O que lhe acontecer no ano que vem e no outro ainda?
Vernita quis responder que a nica coisa que poderia salv-la seria o fim da guerra, mas, ao contrrio, disse:
- Talvez a princesa me ache indispensvel e eu acabe viajando com ela.
- Por que diz isso? - perguntou o conde.
- Sei que ela retornou recentemente de Roma - respondeu Vernita

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-, e como  a terra do marido dela, que possui muitas propriedades l,  bem provvel que a princesa volte um dia para essa cidade.
De repente, deixando Vernita espantada, ele bateu violentamente com o punho sobre a mesa, o que acabou chocalhando as xcaras de caf.
- Nom de Dieul - praguejou ele. - Como, nessa vida que escolheu para si, poder encontrar um marido?
- Um... marido? - perguntou, surpresa, Vernita.
- Isso, seguramente,  o que toda mulher deseja, e voc ter que pensar sobre casamento sozinha, j que no tem ningum para apoi-la.
-  impossvel... para mim... pensar em casamento - disse Vernita em voz baixa.
- Mas voc precisa de amor, como todo mundo, e o amor que lhe ser oferecido no Palcio de Charost no inclui uma aliana de casamento.
Vernita parecia espantada; ento, desviando o rosto, ela perguntou:
- O senhor quer dizer que...
-  exatamente o que quero dizer! - interrompeu, asperamente, o conde. - Voc  muito bonita e o Palcio de Charost est sempre cheio de homens; homens que aparecem 
para ver a princesa, mas que, assim que colocarem os olhos em voc, querero v-la novamente! Ele fez uma pausa, antes de continuar: - Alm disso, dentro da prpria 
casa h o tesoureiro, e muitos outros homens que, a menos que sejam cegos, vo querer algo com voc. E tenho a impresso de que no conseguir recusar seus pedidos, 
mesmo que queira.
- O senhor... est me amedrontando!
- Eu quero amedront-la! - respondeu o conde. - Quero que perceba o que existe  sua frente e esteja preparada para isso! Mon Dieu! Mas gostaria de poder fazer algo 
mais por voc!
Vernita ficou em silncio por um tempo, antes de responder:
- Entendo o que est querendo me dizer... e sei que est tentando fazer o melhor por mim... mas acho que se esquece de que eu, interiormente, sei o que est certo 
ou errado, e nunca faria algo que meus pais desaprovassem.
O conde sorriu e, assim, desanuviou seu semblante.
- Acha que no sei disso? Sua inocncia e sua beleza, Vernita, circundam-na como uma luz. Infelizmente, isso, nesta cidade, pode provocar uma atrao ainda maior 
em muitos homens que se acham cansados de mulheres que j esqueceram o significado dessas palavras!
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Vernita pensou por um momento; ento, falando quase sem poder se controlar, perguntou:
- No poderia me levar junto com o senhor, ao partir?
Ela no se dava conta das implicaes existentes nessas palavras. Simplesmente achava que, seguindo com ele para a Sucia, talvez
pudesse escapar para a Inglaterra, para sua casa, que ainda estaria esperando por ela, mesmo sem seus pais.
Mas o conde, olhando incrdulo para ela, respondeu:
- No v que  isso o que mais quero fazer? Mas  impossvel! H razes, que no posso lhe explicar, que no me permitem que me envolva com voc!
A maneira como ele falava e suas palavras surpreenderam-na.
Vernita olhou para ele, olhos arregalados, e viu que havia uma expresso no rosto do conde que prendia totalmente a ateno dela.
Por um longo momento, permaneceram entreolhando-se. Ento, o conde disse:
- Isso  pssimo para ns dois! vou lev-la para a penso.
Pediu a conta enquanto Vernita permanecia sentada, tendo a impresso de que o mundo se desmoronara, e ela no tinha a mnima ideia do que fazer. Era impossvel pensar 
em algo e sua mente estava catica.
Tudo o que sabia era que seu corao batia desesperadamente, e tinha a impresso de que o conde se afastava dela.
Mais do que qualquer coisa que j desejara em toda a sua vida, Vernita queria mant-lo junto de si.
A conta foi paga e a recepcionista os acompanhou at a rua, onde a carruagem os esperava.
Eles subiram e Vernita achou que o conde se sentara deliberadamente distante dela.
Quando os cavalos partiram, ela olhou de soslaio para ele, e notou que seu rosto se mantinha severo, com alguns traos de cinismo desenhados profundamente nos cantos 
dos lbios.
O conde mantinha-se ereto e Vernita achou que no estava somente incomodado, mas tambm zangado com ela.
com uma vozinha quase inaudvel, Vernita disse-lhe, ento:
- Eu no tinha intenes de aborrec-lo... A noite foi maravilhosa para mim... e eu estava feliz, muito feliz, at que tivesse ficado zangado comigo!
- No estou zangado; no com voc! - respondeu o conde. Ento, quando se virou para olhar Vernita, as faces dela brilharam
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com as luzes da noite. O conde soltou uma exclamao e, estendendo os braos, puxou-a para si.

Nada disse; apenas encostou a cabea de Vernita contra seus ombros e beijou-lhe os lbios.

Por um momento, Vernita ficou surpresa demais para se dar conta do que acontecia.

Ento, ao sentir dificuldade em respirar, pois os lbios do conde comprimiam-se nos seus, Vernita comeou a sentir uma sensao de calor e de maravilhosa emoo, 
que lhe saa do peito, espraiando-se por todo o seu corpo, at chegar aos lbios.

Foi a que percebeu que aquele primeiro beijo que recebia era muito diferente de tudo o que imaginara.

Era to maravilhoso, to extasiante, que ela parecia flutuar, com o conde transportando-a para os cus.

Sentia como se todo o seu corpo respondesse aos apelos dele, pulsando atravs de mil emoes que nunca pensara existir.

Ele a enlaava.

Os lbios de Vernita eram macios e os do conde se tornavam cada vez mais suplicantes, mais insistentes, at que pareceu a Vernita que ambos os corpos vibravam com 
uma msica que preenchia o ar, provinda de seus coraes.

Quando, finalmente, o conde levantou a cabea, ela estremeceu junto a ele, no de medo, mas em virtude daquele xtase que nunca sentira em toda a sua vida.

- O que voc fez comigo, Vernita? - perguntou ele. - Oh, meu amorzinho, eu lutei tanto para no proceder dessa maneira, mas foi muito para mim!

Havia uma nota profunda em sua voz que fez com que Vernita se sentisse envergonhada.

Ela tentou esconder o rosto nos ombros dele, mas o conde, segurando-a pelo queixo, forou-a a olhar diretamente em seus olhos.

- Controlei-me a noite toda, dizendo a mim mesmo que, se fosse sensato e inteligente, deveria deix-la sozinha, mas isso foi impossvel!

- Por qu? - murmurou Vernita - Por qu?

- Porque a quero - respondeu ele. - Porque voc me atrai como nenhuma outra mulher o fez at hoje, e porque seu rosto doce e seus olhos cor de violeta j me obcecaram.

Ao falar, beijou-a novamente, de um modo frentico e apaixonado.

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Era como se ele sentisse que a estava perdendo, e quisesse impedir

Agora Vernita sentia como se pequenas chamas a queimassem por dentro, expandindo-se por todo o corpo, at chegarem aos lbios, de onde saam para se misturar com 
o fogo que provinha dele.

Era tudo to extasiante, to perfeito, que ela pensou que talvez tudo no passasse de sua imaginao, que no fosse real.

Mas Vernita tinha a sensao de que todo o seu corpo pulsava com esse fogo, e no conseguia entender. Apenas sabia que o desejava e queria que ele continuasse com 
o beijo.

Ento, quase to subitamente como a puxara contra si, o conde afastou-a.

- Estou procedendo abominavelmente! - disse ele. - Isso nunca deveria ter acontecido! Estou envergonhado de mim mesmo! Mas, minha querida, voc me deixa louco!

- Mas... isso tem importncia?

- Estou tentando pensar em voc - disse, desesperadamente, o conde.

- Eu... o amo!

Essas palavras afloraram aos lbios de Vernita to naturalmente como o ato de respirar.

Sabia que aquilo que sentia era amor, como uma luz invadindo-lhe todo o corpo.

Era um amor vvido, bonito e puro, que provinha do prprio cu, e que fazia parte de suas oraes.

Gentilmente, o conde estendeu os braos e puxou-a novamente contra si.

- Voc no deve me amar. Precisa me esquecer. Eu partirei imediatamente.

- No... por favor... no faa isso - murmurou Vernita. - Eu o amo... eu o amo de um modo que nunca imaginei ser possvel amar algum. Eu no sabia que o amor era 
assim!

- Assim como? - perguntou o conde.

- To glorioso... to maravilhoso... como estar prximo de Deus. O conde soltou um gemido e puxou-a novamente contra si, pousando seus lbios nos cabelos dela.

- Minha preciosa, minha doce amada! - disse ele. - Isso no deveria ter acontecido conosco!

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- Mas aconteceu! - murmurou Vernita. - Creio que, desde o primeiro momento em que o vi, dei-me conta de que voc era diferente dos outros homens que j havia visto. 
Ento, ao ser to bondoso comigo, percebi que fazia parte da minha vida.

- Isso foi coisa do destino - disse o conde. - Alguma coisa j estava planejada em nossos carmas, para que pudssemos nos reconhecer. Mas no agora, no neste momento!

- Mas por qu? - perguntou Vernita. - Eu no entendo.

- No posso explicar - respondeu o conde. - Tudo o que sei  que desejava ajud-la, desde o primeiro momento em que a vi. Mas isso no queria dizer nada mais. Agora 
preciso partir e creio que devemos esquecer tudo o que nos aconteceu!

- Como poderei fazer isso? - perguntou Vernita.

Ento, como se essa ideia subitamente tivesse entrado em sua conscincia, ela soltou uma exclamao de horror e aconchegou-se junto a ele, segurando a lapela do 
casaco dele.

- No me deixe... por favor, no me deixe! Eu sei que, apesar de tudo o que voc diz, Deus nos aproximou um do outro. - Soluou, antes de continuar: - Eu estava 
to solitria, to infeliz... mas agora tudo  maravilhoso. Sa da escurido dos infernos para o paraso. Eu o amo! Eu o amo com todo o meu ser e nada poder mudar 
isso!

- Minha querida, minha amada! - disse ele. - Eu no mereo o seu amor! Ele  algo muito perfeito. Nunca esperava encontrar algo assim, ao menos aqui em Paris!

- Mas ns o encontramos - persistiu Vernita - e, esteja certo ou errado o que nos aconteceu... nada poder nos afastar!

O conde beijou-lhe a testa to ternamente que lgrimas brotaram dos olhos de Vernita.

- Por favor, no parta - pediu ela. - Se fizer isso, apenas desejarei morrer, como mame! Sei que, se voc no estiver comigo, no quererei mais continuar vivendo.

- No deve dizer essas coisas!

- Mas so verdadeiras! - insistiu Vernita. - Antigamente, achava que o amor era algo calmo, suave e romntico, como o luar e o perfume das flores. Mas o que sinto 
por voc...  algo muito intenso... muito extasiante.  tambm uma dor, que parece me arrasar.

- Como acha que estou me sentindo? - perguntou o conde. Ento, ele a beijou novamente. Beijou-a at que fosse impossvel pensar, restando apenas a sensao de que 
estavam envoltos por uma

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luz gloriosa e maravilhosa, to miraculosa que Vernita se dava conta de que nunca mais seria a mesma.

Os cavalos pararam e, como se estivesse voltando de um outro mundo, Vernita soltou-se dos braos do conde e esperou que o criado lhe abrisse a porta.

- Eu... o verei amanh? - perguntou Vernita, com um grande medo implcito em suas palavras.

- Sim, amor - respondeu ele. - Virei busc-la pela manh, parai lev-la ao Palcio de Charost. - E no deixar Paris... sem me dizer?

- Juro-lhe que no farei isso. Ainda no tenho certeza se suportaria faz-lo, embora ache que seja o certo.

- Por favor... fique!

Ele no pde responder, pois o criado abriu a porta.

Lentamente, com a sensao de que perdia algo muito precioso e maravilhoso, que nunca mais acharia, Vernita deixou a carruagem.

O conde seguiu-a e abriu a porta da casa, que ainda no estava trancada.

Parecia a Vernita que transcorrera um sculo, desde que deixara pela ltima vez aquele vestbulo cheirando a cozinha.

Ela no entrou na casa; permaneceu  porta e estendeu-lhe a mo.

O conde segurou a mo dela por um momento, mas no a beijou, como fizera ao vir busc-la. Ao contrrio, olhou-a nos olhos e disse calmamente, com uma vOz que parecia 
ser um grito de desespero:

- Boa noite, meu amor, meu nico amor!

Virou-se, e Vernita, no suportando v-lo partir, fechou a porta e comeou a subir as escadas

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CAPTULO IV
Napoleo estava se barbeando.
Muitos homens confiavam essa operao aos barbeiros, mas Napoleo barbeava-se ele mesmo.
Rustam, seu criado mameluco, segurava um espelho, enquanto Napoleo ensaboava o rosto com um sabo perfumado por ervas; ento, usando uma navalha que ficara imersa 
em gua quente, barbeava-se.
Sempre comprava suas navalhas com cabo de madreprola da Inglaterra, pois considerava o ao de Birmingham superior ao francs.
Durante o armistcio adquirira vrias navalhas novas, e agora, com satisfao, pensava no quanto elas cortavam bem.
J tinha dispendido quase uma hora com seu banho, pois a me lhe ensinara, desde criana, a ter um cuidado muito especial com a higiene pessoal.
Aps o banho, Napoleo lavara as mos com marzip e passara uma esponja em seu rosto, pescoo e orelhas. Depois, escovara os dentes.
Possua timos dentes, naturalmente brancos e fortes, que nunca tinham precisado de seu dentista, o qual, no entanto, recebia seis mil francos anuais, para nada 
fazer.
Aps a barba, o segundo valete de Napoleo, Constant, borrifou agua-de-colnia sobre sua cabea. Quando a colnia escorreu sobre seu dorso) nu, Napoleo friccionou-a 
sobre o peito e os braos, com uma escova enquanto o valete fazia o mesmo em seus ombros e costas.
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- Sua irm est procedendo mal, como sempre - disse uma voz, do outro lado do quarto.

Napoleo voltou-se para onde estava Josephine, sua esposa.

Ao faz-lo, pensou vagamente o quanto a mulher estava atraente. Ele ainda gostava muito dela. Para Napoleo, ela ainda era a bela e pequena viva por quem se apaixonara 
totalmente, e que quase lhe despedaara o corao com suas infidelidades.

Os cabelos castanhos brilhantes de Josephine haviam perdido um pouco de sua cor, mas sua pele muito alva e sua bonita voz continuavam as mesmas.

O ponto fraco de Josephine sempre tinham sido seus dentes; assim, quando ria, procurava cuidadosamente ocult-los, o que produzia um riso gutural.

- Est falando de Pauline? - perguntou, asperamente, Napoleo.

- Naturalmente! De quem mais seria?

Ele sabia que sua mulher e sua irm favorita se odiavam, e sempre se punha de sobreaviso com relao s histrias de Pauline que Josephine vinha lhe contar.

Napoleo vestiu sua camisa de linho, antes de responder:

- O que Pauline fez agora?

Na verdade, no era muito surpreendente que Josephine no gostasse de Pauline ou de qualquer outra pessoa da famlia Bonaparte.

Todos jamais haviam gostado de Josephine, e sempre tinham procurado criar situaes conflitantes entre Napoleo e ela, desde o casamento.

Josephine sabia tambm que a famlia Bonaparte vivia sugerindo que Napoleo se divorciasse dela, para que pudesse ter um filho.

Josephine, infelizmente, sofrera um acidente desagradvel em Plombires, quando Napoleo se encontrava no Egito.

Um balco, onde ela estava, despencara, e Josephine cara de uma grande altura. Os ferimentos internos que sofrera impediram que tivesse outro filho.

Agora que Napoleo era imperador, o fantasma dele mandando-a embora ameaava-a como uma nuvem negra.

No era somente o divrcio: na verdade, ela estava apaixonada por seu marido, o que no acontecera  poca do casamento!

Algumas vezes, Josephine apanhava uma das cartas apaixonadas que Napoleo lhe escrevera durante a campanha da Itlia e lia as palavras escritas logo aps o casamento.

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"Nenhuma carta sua! Recebi uma h quatro dias, sendo que, se me amasse, deveria escrever-me duas por dia! Eu a amo mais, a cada dia que passa! A ausncia acaba com 
as pequenas paixes, mas faz crescer as grandes!"

Como pude ter sido to tola?, perguntava-se e apanhava outra carta escrita por ele.

"Minhas lgrimas caem sobre seu retrato! Ele est sempre comigo!"

Nesse momento, porm, Josephine no se lembrava das cartas e dizia em voz alta:

- Pauline tem um amante novo. Todo mundo j est comeando a comentar sobre a maneira escandalosa como sua irm procede, e ele est sempre no Palcio de Charost.

- Quem  ele? - perguntou Napoleo.

Seu valete ajudava-o a vestir a sobrecasaca, no modelo que preferia: simples, sem rendas ou bordados, com um colarinho escarlate e os cantos das lapelas da mesma 
cor.

Depois, ele apanhava com o criado um leno borrifado de gua-decolnia e o colocava em seu bolso direito, e, no esquerdo, guardava uma caixa de rap.

-  o conde Axel de Storvik - respondeu Josephine. -  sueco e est tentando vender um novo canho, o qual diz ser muito melhor que tudo o que voc est usando neste 
momento.

- Ouvi falar dele - observou Napoleo.

- Ento compre logo o canho e diga para esse conde deixar sua irm sossegada. Ela deveria estar se preocupando com o marido, e no com um sueco que vai deix-la 
mais malfalada do que j !

- Direi a Fouch que faa uma investigao sobre ele - disse Napoleo, dirigindo-se  porta.

Saiu do quarto e Josephine sabia que somente tornaria a v-lo  hora do jantar, quando se reuniriam com alguns amigos, s sete e meia.

Napoleo tomava duas refeies por dia: seu almoo era servido s onze horas. Ele almoava sozinho, a uma pequena mesa de mogno, enquanto ainda trabalhava.

Comia rapidamente e gostava de uma alimentao simples. Bebia um borgonha tinto barato em suas refeies, consumindo menos que meia garrafa por dia, diludo em gua.

Quando ele partiu, Josephine suspirou; ao mesmo tempo, pensou que se vingara dos muitos insultos cometidos contra ela por sua cunhada no passado.

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No se esquecera e nem perdoara a maneira como Pauline e suas irms tinham se comportado durante a coroao, em dezembro,

Napoleo estivera em dvida se Josephine deveria ser coroada imperatriz.

Toda a famlia a atacava, tentando convencer Napoleo a se divorciar dela, lembrando-lhe todas as suas infidelidades e extravagncias.

Josephine mergulhara em crises de choro e desespero.

Mas quando Napoleo vira as irms trocando olhares triunfantes entre si, decidira confortar a esposa e apoi-la contra a sua famlia vingativa.

As novas princesas, Caroline, Elsa e Pauline, uniram-se ento para montar uma trapaa contra a futura imperatriz, durante a cerimnia da catedral.

Aps Josephine ter estado ajoelhada, levantara-se e dirigira-se de volta ao trono, com a coroa j em sua cabea; as trs irms Bonaparte, ento, fizeram com que 
todo o peso da imensa capa de veludo e arminho pendesse, resultando da que Josephine quase cara ao subir os degraus do tablado.

Felizmente, o olho de guia de Napoleo percebera o que estava acontecendo. O imperador advertira suas irms, com voz baixa mas firme, para que apanhassem a capa 
da imperatriz novamente.

Josephine nunca esquecera aquele momento, assim como Pauline no esquecera, certa ocasio, quando a vitoriosa fora a sua cunhada.

Pauline e o prncipe Camillo logo aps o seu casamento civil, tinham que fazer uma visita formal a Josephine.

Pauline sentia-se triunfante, feliz com a importncia e riqueza de Camillo. Achara que impressionaria Josephine, e a deixaria enciumada, se desfilasse com um grande 
aparato de jias, para demonstrar a sua nova condio de vida.

Sabia que sua beleza podia facilmente sobressair-se  de Josephine, pois esta j estava com quarenta anos.

Coberta de brilhantes, Pauline e o prncipe Camillo Borghese chegaram ao Palcio de Saint-Cloud em uma carruagem de seis cavalos, escoltada por criados em libr. 
Foram anunciados por um mordomo, em tons potentes.

Pauline trajava-se de verde, com um vestido que escolhera cuidadosamente. Assim que entrara no salo de recepes percebera que este estava totalmente mobiliado, 
atapetado e acortinado em azul.

Ao fundo dele estava sentada Josephine, trajando um vestido muito

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simples de musselina branca, e sem qualquer adorno, a no ser uma tiara de ouro.

Seus espies haviam informado que sua cunhada estaria vestida daquela maneira espalhafatosa, e ela se decidira a faz-la parecer ridcula, trajando-se com simplicidade.

Pauline ficara transtornada e tomada pela raiva, mas as duas mulheres se beijaram, como se no houvesse veneno algum em seus coraes.

Agora, dirigindo-se ao seu prprio quarto, Josephine pensava com prazer que, mais uma vez, estava dando um golpe naquela mulher que odiava tanto, por ocupar um lugar 
to importante no corao de Bonaparte.

Se havia algum que podia descobrir algo em seu favor e para desvantagem do sueco, esse algum era Fouch, o desagradvel e poderoso ministro da Polcia.

Todo mundo em Paris sentia-se ameaado por ele, e ele no era um dos favoritos de Napoleo, que apenas se utilizava de sua pessoa.

Fouch certamente descobrir o que est acontecendo, pensou Josephine, e, ento, Napoleo forar Pauine a se comportar.

O imperador, de fato, pensava-na mesma-coisa, ao sentar-se- sua escrivaninha. Passavam dois minutos das nove e ele estava dois minutos atrasado.

Como sempre, havia uma grande pilha de papis para ele verificar, e uma multido de pessoas esperando na ante-sala por uma audincia.

Ao apanhar o primeiro papel  sua frente, sua mente permaneceu ainda por um momento pensando em Pauline.

J entardecia e Pauline estava comeando a se vestir para a noite.

Vernita descobrira que Pauline gastava quase que todo o dia preparando-se para o que considerava como uma apario pblica; isto , quando frequentava os bailes 
e recepes para os quais era convidada.

Durante a tarde, Vernita notara que a princesa tinha recebido um bom nmero de amigos ntimos no grande salo, que era decorado com tapetes vermelhos, o que constitua 
um cenrio ideal para seus cabelos escuros.

Agora, sentada em frente ao espelho, Pauline olhava criticamente a brancura de sua pele, enquanto sua camareira trazia um grande nmero de vestidos, para que escolhesse 
qual usar naquela noite.

Vernita fora chamada para reparar a bainha de um vestido de gaze

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verde-claro, que rebrilhava com lantejoulas de ouro e que tinha drapeados  volta do decote.
- Poderia usar este - disse Paulne - e meus cabelos seriam arranjados em madeixas com laos dourados e broches de camafeu. Mas talvez encontre algum que j me 
viu usando esta roupa, e isso seria pssimo!
Desviou-se do espelho, para olhar outros vestidos: um branco e rosa, outro amarelo-claro, bordado com topzios.
- Estou cansada destes - disse ela petulantemente. - Tragam-me outros.
As criadas correram a obedecer, enquanto Vernita, ajoelhada, continuava a reparar o vestido verde, como lhe fora mandado.
A princesa Pauline olhou para ela como se a visse pela primeira vez.
- Voc costura bem - disse ela. - Gosta de estar aqui?
- Sou muito grata a Vossa Alteza Real por ter-me empregado respondeu Vernita.
Ao chegar, tinha se sentido solitria e amedrontada. Mas os criados haviam sido gentis com ela, e gostara do pequeno quarto que lhe fora destinado, no alto da casa.
Ele dava para o fundo dos jardins, junto aos Champs lyses, Lembrara-se de que o conde morava ali, e sentira-se mais prxima dele.
No conseguira dormir na noite anterior, envolta ainda pela emoo e pela felicidade, que faziam com que todo o seu corpo se extasiasse.
No se sentira to s naquele sto frio onde vivera por dois anos, j que ascendera a uma glria celestial, envolta em nuvens de felicidade que se difundiam em 
luxos que no eram deste mundo.
Somente quando a manh chegara  que se lembrara de que deveria ir para o Palcio de Charost e comear suas tarefas como criada. Seria muito difcil que o conde 
conseguisse falar com ela, ou que a tocasse novamente.
Desejava estar nos braos dele como nunca desejara algo em toda a vida. Queria sentir os lbios dele pousados nos seus, sabendo que ele despertava nela toda aquela 
emoo, um amor que nunca imaginara poder vir a sentir.
Parecia incrvel que, naquele curto espao de tempo, tivesse encontrado um homem a quem amava e que dizia am-la tambm,
- Obrigada, Deus, muito obrigada! - murmurou ela, na escurido. Talvez tivesse sido sua me que colocara o conde em seu caminho, a fim de que ele a retirasse daquela 
vida de solido e privaes.
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- Cuide dele, mame - rezara Vernita -, e, por favor, faa-o ficar junto a mim. No deixe que ele parta. Como poderia perd-lo... agora?
Achara o que estivera procurando. Achara o amor quando menos esperava e ningum poderia ser mais maravilhoso que o conde!
Levantara-se cedo, vestira-se e arrumara suas bagagens. A seguir, dissera adeus a madame Danjou e a Louise, que iriam sair para as compras, e convencera monsieur 
a descer suas coisas.
Ele reclamara, pois a bagagem estava pesada. Mas Vernita no prestara ateno ao que ele dissera, pois ficara olhando para ver se os cavalos do conde apareciam.
A carruagem aparecera mas trazia as armas da princesa e no havia ningum dentro dela.
Vernita sentira-se decepcionada como uma criana a quem se promete algo que no se cumpre.
- O tesoureiro de Sua Alteza Imperial mandou esta carruagem para a senhorita - dissera o criado - e disseram-me que, se a senhorita desejasse parar no caminho, para 
comprar material em alguma loja, eu deveria esperar.
Vernita certificara-se de que aquela providncia fora tomada pelo conde, que deveria estar pensando nela, com medo de que fosse sozinha s compras.
Mas, ao mesmo tempo, ficara terrificada, achando que talvez ele estivesse pensando em deixar Paris, sem que ela tivesse tempo de v-lo novamente.
No entanto, ao chegar ao Palcio de Charost, ficara sabendo que o conde estivera passeando com a princesa pelo bosque, e compreendera que isso  que o impedira de 
ir busc-la pessoalmente.
Fora sensata em se fazer agradvel s criadas mais velhas e aos outros empregados da casa.
Sabia muito bem que, mesmo em sua casa, os empregados mais velhos se ressentiam com a chegada dos novos, e que deveria ser bem conciliatria, para dar uma boa impresso.
- Estou muito ansiosa em agradar a Sua Alteza Imperial - dissera ela s camareiras; - ficaria muito feliz se vocs pudessem me ajudar a no cometer qualquer engano.
A hostilidade desaparecera e, quando almoaram, pela maneira como elas mexericavam  sua frente, explicando de quem falavam, dera-se conta de que fora aceita. 
-  impossvel que haja algum em Paris, ou em qualquer outra
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parte do mundo, to bonito quanto nossa patroa - dissera uma das camareiras entusiasticamente.
- Mas ela tem um temperamento difcil, acho - dissera outra. A noite passada estava de pssimo humor, ao ir para a cama, s duas horas,
- O que aconteceu? - perguntara a primeira.
- Uma daquelas vivas da velha monarquia mostrou suas garras para a patroa, creio. Voc sabe que ela, como toda a famlia,  muito sensvel, porque, acima de qualquer 
coisa, so corsos, e no franceses.
Vernita ficara surpresa que os empregados pudessem conversar assim to francamente, mas sabia muito bem que tudo o que acontecia em uma casa chegava sempre ao conhecimento 
da criadagem. Seu pai frequentemente lhe dizia, com um brilho nos olhos:
- Nenhum homem  heri para seu valete e duvido que alguma mulher seja bonita para sua camareira.
A da princesa, por exemplo, contara para Vernita como sua patroa era obrigada a esconder as orelhas, para impedir que vissem um defeito naquele corpo to perfeito.
- Ela chegou a cobrir uma das orelhas com a mo - continuara a criada - quando posou em Roma, para Canova, que  considerado o maior escultor da Itlia.
- com orelhas bonitas ou no - dissera a outra -, no fico surpresa por todos os homens se apaixonarem por ela!
- E ela por eles! - completara a outra.criada. Ambas riram grosseiramente.
Como a princesa no estava, as camareiras tinham se oferecido para lhe mostrar a casa, e, assim, Vernita tivera contato com aquela profuso de objetos escolhidos 
pela princesa para redecorar a manso.
O duque de Charost havia sido tutor do jovem Lus XVI e sua viva recebera quatrocentos mil francos de Paulne, como pagamento pelo Palcio Charost.
A princesa, ento, retirara toda aquela elegante moblia do sculo XVIII, e em seu lugar colocara tudo o que era considerado como ltima moda naquele momento, alm 
de pintar as paredes com cores vivas, como era do gosto de seu irmo.
O salo jnico era amplo e decorado com veludo vermelho e dourado. A sala de visitas era azul-brilhante, e a biblioteca era alaranjada.
Durante todo o tempo em que as criadas estiveram conduzindo Vernita pela casa, elas conversaram.
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Disseram-lhe que uma das empregadas da cozinha estava furiosa, pois teria de se casar com Paul, o negro, e que a princesa sentia tanto frio no inverno, a ponto de 
esquentar os ps no decote de uma das camareiras, que tinha que ficar deitada no cho!
Vernita, a princpio, pensara que elas estivessem brincando, mas logo comeara a se dar conta de que a princesa realmente fazia de sua palavra a lei!
Descobrira que a capela tinha sido transformada em um salo de bilhar, decorado em amarelo e prata, e que as pinturas religiosas haviam sido transportadas para as 
acomodaes dos valetes!
Antes mesmo que a visita pela casa terminasse, Vernita j estava rindo de algumas das coisas que lhe eram ditas, desejando, depois, recont-las para"o conde.
Vernita pensava que apenas ele iria entender como tudo aquilo era divertido e tambm achar que no era surpresa o fato de as famlias aristocrticas francesas terem 
ficado to escandalizadas com o procedimento do cl dos Bonaparte,
O dia, com exceo da excurso pela casa, fora montono e passara devagar, com Vernita desejando ardentemente, o que chegava quase a amedront-la, rever o conde
E se ela ficasse sabendo mais tarde que ele tinha partido?
Ento, lembrou-se de que o conde garantira que ela ficaria sabendo antecipadamente, e achava humanamente impossvel que ele no cumprisse sua palavra.
No conseguia entender por que ele estava to determinado a no aceitar aquele amor, frisando que deveriam"se esquecer um do outro!
Sabia muito bem que, aos olhos dele, ela no tinha qualquer importncia: no passava de uma francesa sem vintm, sem nenhuma posio social!
Mas mesmo que ele no quisesse se casar com ela, no conseguia entender por que, se se amavam tanto, no poderiam se encontrar, mesmo que secretamente, se ele no 
quisesse ser visto em pblico em sua companhia.
Tudo era muito confuso. Ao mesmo tempo, Vernita se indagava se teria coragem de lhe contar toda a sua verdade.
Sabia que ele no a denunciaria  polcia, porque era sueco e no francs!
Mas, talvez, o simples fato de ela ser considerada uma inimiga dos Bonaparte, e de todo o pas, poderia causar complicaes ao conde.
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Uma coisa que nunca deveria fazer seria coloc-lo em uma posio em que pudesse ser acusado de estar colaborando com os odiosos ingleses!
Seria um erro dizer-lhe quem sou, decidiu-se, finalmente, Vernita.
Mas, ao mesmo tempo, desejava poder ser franca e contar ao conde que ela no era aquela esfomeada pessoa sem importncia que ele imaginava, mas algum que poderia 
enfrentar de cabea erguida qualquer sociedade, principalmente aquele pseudo-imprio dos Bonaparte.
As camareiras trouxeram a Paulne mais vestidos: um de gaze branca, adornado com diamantes, e outro verde, decorado com flores de amndoas cor-de-rosa.
Pauline olhou para elas e exclamou:
- Acabei de me lembrar! Ontem  noite estava usando meus brincos de brilhantes que combinam com este vestido branco e esqueci um deles... - Virou-se para Vernita 
e disse: - Corra e traga-o para mim. Est na mesinha ao lado da cama. Ao levantar-me, s me lembrei de colocar um.
Ela voltou-se para o espelho, ao terminar de falar, e Vernita interceptou um rpido olhar trocado entre as camareiras.
Pela expresso delas, percebeu exatamente o que pensavam.
Sentiu uma sbita pontada de cime em seu peito.
Seria por causa do conde que a princesa havia tirado um de seus brincos de brilhantes, deixando-o ao lado da cama?
Obedientemente, ela levantou-se e deixou de lado o vestido da princesa que estava arrumando. A seguir, desceu as escadas.
Entrou no quarto onde estava a cama de casal e sentiu-se envolta pela luz do ocaso.
Para fora das grandes janelas, as flores brilhavam no jardim, e Vernita permaneceu por um tempo olhando para as rvores projetadas contra o cu azul.
Subitamente, sentiu saudades do jardim que ela e sua me tinham planejado juntas.
Estava perdida nesses pensamentos, quando ouviu uma voz atrs de si:
- Quem  voc? No me lembro de t-la visto antes por aqui! Vernita voltou-se e soltou uma pequena exclamao.
Ningum precisaria lhe dizer quem  que estava falando. Imediatamente ela reconheceu o imperador Napoleo, que j vira atravs de inmeras pinturas, mesmo antes 
de ter vindo a Paris.
Ela fez uma reverncia, e, quando se levantou, Napoleo atravessou o salo, at postar-se ao lado dela.
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Vernita sabia que ele esperava por uma resposta e, depois de um momento, ela disse:
- Eu... trabalho para Vossa Majestade... como costureira de Sua Alteza Real. Comecei... hoje!
- Por isso  que seu rosto no me  familiar - disse Napoleo -, e  muito bonito tambm!
- Agradeo a Vossa Majestade - disse, nervosamente, Vernita. Sua Alteza Real enviou-me at aqui para apanhar um brinco que esqueceu ao lado da cama.
A expresso de Napoleo tornou-se severa e Vernita percebeu que tinha sido indiscreta.
Ela gostaria de ir embora, mas ele disse: 
- Qual  o seu nome?
- Vernita... Bernier, Majestade!
- Vernita! Nunca ouvi esse nome antes, e se tivesse que escolher um para voc, eu a chamaria de Violeta! Violeta Imperial!
Vernita ficou surpresa. No sabia que Napoleo sempre inventava nomes novos para as mulheres que admirava.
Josephine tinha sido Rose, quando ele a conhecera. Seu primeiro amor, Dsire, era chamada por ele de Eugnie, e durante toda a sua vida ele buscara outros nomes 
para as mulheres que o impressionavam, diferentes daqueles com os quais tinham sido batizadas.
- Seus olhos so da cor de violetas continuou ele, antes que Vernita pudesse dizer algo. - E a violeta  uma flor da qual gosto muito!
O tom de sua voz fazia com que Vernita percebesse algum perigo; sabia que deveria sair de l imediatamente.
- Sua Alteza Real espera por mim... sire! - disse ela apressadamente.
Ela teria sado correndo do lugar, mesmo sem o brinco, se Napoleo no tivesse esdendido o brao para det-la.
Mas era tarde demais, e ele a agarrou e a puxou contra si.
Vernita percebeu que Napoleo iria beij-la e, freneticamente, tentou se desvencilhar. Mas ele era forte.
Ela nada podia contra a fora daqueles braos, e a expresso dos olhos dele disse-lhe que o imperador era o vencedor!
Ento, quando ela girava sua cabea de um lado para outro, sabendo, no entanto, que era apenas uma questo de segundos at que ele conseguisse beij-la, uma voz 
vinda da porta disse:
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- Tenho querido h muito me encontrar com Vossa Majestad esta  uma oportunidade cada dos cus!
Vernita sentiu um alvio no corao e, antes mesmo que Napoleo soltasse, percebeu quem era que falara.
- Quem  voc?
A pergunta do imperador era rude, mas, nesse momento, seus braos se afrouxaram e Vernita soltou-se deles.
O conde avanou, bateu os calcanhares e abaixou a cabea.
- Posso, sire, apresentar-me? Sou Axel de Storvilc, e tenho esperado por uma oportunidade para conversar com Vossa Majestade a respeito de um assunto de grande importncia 
militar.
Quando Vernita saiu do quarto, notou que o conde falava com muita segurana, o que a deixou orgulhosa.
Sabia que ele havia entrado no quarto deliberadamente para salv-la e que, por am-la, deveria ter ficado furioso ao encontr-la nos braos do imperador.
Um homem sem coragem teria achado uma inconvenincia perturbar o imperador naquele momento, principalmente no caso do conde, que desejava cair nas boas graas dele.
Sabia que o conde Axel agira nos interesses dela e no nos prprios, e subiu as escadas com o corao ainda batendo freneticamente, o rosto corado, s de pensar 
no quanto ele era corajoso e que ela o amava mais ainda.
Entrou no quarto da princesa Pauline, a qual, por estar ocupada em seu toucador, nem voltou a cabea. Somente aps alguns minutos, como Vernita no dissesse nada, 
foi que ela perguntou:
- Trouxe o brinco?
- No, Alteza. Voltei sem ele, pois o imperador estava l e creio que deseja falar com Vossa Alteza.
- O imperador?! - exclamou Pauline. - Meu Deus, mas eu no o esperava! Por que ser que est me procurando a esta hora?
Por um momento, apareceu uma ruga entre seus bonitos olhos. Ento, impacientemente, ela disse s criadas:
- O que esto esperando? Rpido! Tragam-me meu nglig! No ouviram que o imperador est l embaixo, esperando por mim?
As criadas trouxeram um nglig do armrio e a princesa, que estava nua, vestiu-o. Dando uma ltima olhada para o espelho, ela saiu do quarto e desceu as escadas.
Ao entrar no salo, ficou surpresa em no encontrar ningum.
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Ento, ouvindo vozes no quarto ao lado, onde estava a cama oficial, caminhou para l, encontrando o conde Axel conversando com Napoleo.

- Voc tem certeza de que isso funcionar? - ouviu seu irmo perguntar.

- J fizemos testes, sire, com os melhores resultados. Na verdade, posso afirmar a Vossa Majestade que no h nada igual em seu arsenal.

- Quem lhe disse isso? - perguntou, asperamente, Napoleo.

- O marechal Ney, sire, e o general Junot. Ambos esto convencidos de que isto  um avano em relao a tudo o que Vossa Majestade possui em seus campos de batalha.

Napoleo colocou a mo no queixo, como que pensando no que responder, quando Pauline se aproximou.

- Querido, eu no o esperava! - exclamou ela, abraando-se ao pescoo do irmo.

Ele a beijou e disse - Vim para conversar com voc a ss.

- Eu me retirarei disse o conde antes que Pauline pudesse falar algo -, mas antes gostaria, sire, de agradecer-lhe por ter-me ouvido.

Ele abaixou a cabea sem olhar para Pauline, virou-se e saiu do "quarto. 
- Ento, Axel lhe falou sobre o canho - disse Pauline ao irmo.
- Est ansioso por isso desde que chegou a Paris. Mon Dieu! Acho que uma conversa sobre canhes, armas e mosquetes  extremamente aborrecida!

Napoleo riu.

- Sei muito bem, querida irm, qual  o nico tpico que realmente lhe interessa, e foi por isso que vim at aqui!

Pauline franziu o nariz.

- Posso adivinhar o que vai dizer - respondeu ela. - E tenho certeza de que foi Josephine quem lhe sugeriu que viesse conversar comigo!

Bateu o p para reforar o que dizia, e olhou de soslaio para Napoleo, para verificar qual tinha sido a reao dele ao que dissera.

com as costas voltadas para o sol, ela estava praticamente nua, e Napoleo fitou-a por um momento, antes de dizer, com voz deliberadamente fria:

- Voc sabe tanto quanto eu que deve proceder discretamente enquanto Camillo se encontrar em Bolonha. De outra forma, eu a enviarei de volta a Roma.

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Pauline abriu os braos e, nesse instante, seu nglig se abriu, revelando a sua nudez.

- Meu Deus! - exclamou ela. - Mas que fiz de errado, a no ser respirar? As mulheres, incluindo sua esposa velha e estril, so invejosas! Basta que vejam meu rosto, 
para sugerirem que h algo de imoral nele!

- Neste momento, no  apenas o seu rosto que est  mostra! respondeu Napoleo.

Mas, agora, havia um sorriso em seus lbios e certo brilho nos olhos. Ao perceber que ele no estava mais zangado, Pauline jogou-se ao seu encontro e abraou-o, 
com as faces junto s dele.

- Oh, Napoleo querido, por que d ateno a elas? - perguntou.
- Tenho me comportado como um anjo, realmente... e se tiver feito algo de que voc no goste, pode me deixar presa!

Napoleo riu novamente.

- Voc  incorrigvel, mas acho difcil, minha querida, ficar zangado com voc!

Pauline retirou os braos do pescoo dele e, enrolando-se no nglig, caminhou em direo ao salo.

- Vamos para o sof, conversar - disse ela. - Fazia tempo que voc no aparecia!

- No posso ficar -, respondeu Napoleo. - Fale-me sobre esse jovem sueco que conheci. O que ele significa para voc?

- O que acha que ele significa? Temos que passar o tempo, e ele  muito atraente!

- No quero que comente sobre isso - disse Napoleo. - Voc sabe que as cortes europeias esto de olhos pregados na minha. Qualquer sugesto de escndalo ser usada 
como arma letal, como se fosse um canho.

Ele falava com certa amargura e Pauline recostou-se ao seu ombro, em um gesto de afeio.

- Eu tomarei cuidado, muito cuidado, por sua causa, meu irmo querido.

- Ficarei zangado com voc, se me desobedecer.

- Prometo-lhe que poder no s me prender, como me vendar os olhos!

Napoleo riu. Ento, levantou-se e disse, em tom muito diferente:

- Havia uma moa muito bonita aqui, quando cheguei. Ela disse-me que  a sua nova costureira.

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Sim, comeou hoje.
Napoleo nada disse e, aps um minuto, Pauline perguntou:
- Est interessado nela?
- Pode ser. Ela  extremamente atraente.
- ? No tinha reparado!
Eu poderia vir aqui amanh  noite, atravs da porta do jardim.
Diga-lhe que me encontre aqui.
- Ordenarei que faa isso.
timo!
Napoleo tirou um relgio do bolso de seu colete.
Tenho um encontro; preciso voltar para casa.
Pauline adiantou-se para beij-lo e, juntos, caminharam at a porta.
Comporte-se - disse ele -, e no se esquea de dizer  pequena
Violeta Imperial que estarei esperando por ela s nove horas. Terei de ir a um jantar e sairei cedo.
- Eu no me esquecerei - prometeu Pauline.
O imperador cruzou o vestbulo em meio aos criados reverentes e entrou em sua carruagem, que esperava l fora.
Pauline subiu as escadas.
Nada pode ser melhor, pensava ela, que Napoleo estar interessado por uma de minhas criadas.
Isso certamente o desviaria de suas indiscries, e Pauline tinha certeza de que fora Josephine quem lhe falara a respeito do conde.
Por mais que falem, disse para si mesma, ao entrar em seu quarto, eu no deixarei Axel, pelo menos por algum tempo.
Vestiu-se, e, depois de estar pronta, parecendo incrivelmente bonita, disse s camareiras que sassem, com exceo de Vernita.
Por um momento fez-se silncio, enquanto Vernita aguardava, quase que apreensivamente.
Tinha a impresso de que aquilo que a princesa Pauline iria lhe dizer estava relacionado com o irmo dela.
O imperador - falou Pauline - disse-me que voc tem olhos cor de violeta. Algum j lhe tinha dito isso antes?
No... madame - respondeu Vernita, hesitante.
Subitamente, sentiu medo do que a princesa iria lhe dizer.
O que o imperador lhe teria dito? Ser que seria despedida?
Meu irmo  bastante indiferente em relao s mulheres -
continuou Pauline, olhando para sua prpria imagem refletida no espelho.
 uma grande honra que ele tenha demonstrado algum Interesse por
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voc. Assim, como o imperador deseja novamente ver os seus olhos. voc dever encontrar-se com ele amanh, no quarto de dormir s nove horas da noite. 
- Encontrar-me... com o... imperador?!
Vernita quase no conseguia pronunciar essas palavras, de to espantada que estava.
- Ele vir pela porta do jardim, que se comunica com os Champs lyses - disse a princesa. - Dessa forma, ningum da criadagem, com exceo de voc, saber que ele 
est aqui.
- Mas... por que... por que ele deseja me ver? Pauline sorriu com a ingenuidade da pergunta.
- Acho que voc tem inteligncia suficiente para saber a resposta
- disse a princesa.
- Mas eu no posso... eu no quero... ficar a ss com o imperador
- declarou Vernita.
- Sendo mulher, deveria perceber que  uma grande honra que o imperador tenha se dado conta de sua existncia. - A princesa virou-se e viu a expresso assustada 
estampada no rosto de Vernita. - Voc deve fazer tudo o que ele quer. Seno, certamente no haver lugar para voc aqui em minha casa!
Pauline Bonaparte frisou essas ltimas palavras. Depois saiu do quarto, deixando Vernita sozinha, com os olhos arregalados e amedrontados.
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CAPTULO V
Vernita estava inquieta.
O dia se passara e no havia sinal do conde.
Achava que, a qualquer momento, ele chegaria ao Palcio de Charost, mas, embora se tivesse postado no topo das escadas, esperando v-lo, no havia nem sinal dele. 
Muitos outros cavalheiros tinham aparecido para ver a princesa enquanto esta se encontrava no boudoir violeta, escolhendo mais e mais vestidos e chapus. Mas, quando 
ela subiu para se aprontar, disse que passaria a tarde com um amigo.
Foi com dificuldade que Vernita se conteve e no perguntou se o conde estaria com ela.
Ao contrrio, encorajou a princesa a falar, fazendo perguntas inocentes sobre a festa da noite anterior e sobre o que iria vestir nessa noite.
A princesa adorava falar sobre si mesma, mas, embora Vernita tentasse fazer com que o nome do conde fosse pronunciado, no teve xito.
Percebera que, desde que o imperador demonstrara interesse por ela, a princesa passara a trat-la como ser humano.
A percepo de que a noite chegava e de que deveria fazer o que lhe tinham dito, ou se recusar a um homem que se considerava onipotente, enchia Vernita de horror.
Ela era muito inocente, mas sabia que mulheres como a princesa tinham amantes e, embora no soubesse precisar o que faziam quando estavam juntos, achava que devia 
ser algo muito ntimo e particular.
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A ideia de qualquer outro homem tocando nela, exceto o conde deixava-a mal e desgostosa, e sabia que tinha sentido uma violenta repulsa pelo imperador, quando este 
tentara beij-la.
Decidira deixar o Palcio de Charost, ou por vontade prpria ou demitida pela princesa, como esta havia prometido.
Ela no tinha desfeito toda a sua bagagem, desde que chegara, e tudo tinha sido recolocado em seu lugar, estando pois Vernita pronta para partir a qualquer momento.
Ao mesmo tempo, sabia que no conseguiria enfrentar Paris sozinha a menos que discutisse sobre isso com o conde.
Acreditava que poderia voltar para seu velho quarto, na rua das rvores. Mas no poderia pag-lo a menos que achasse um trabalho, e a ideia de percorrer as ruas 
em busca de um aterrorizava-a.
Tentou rezar, mas sentia que somente conseguiria chorar por sua me, como uma criana.
- Ajude-me, mame, ajude-me! - murmurou ela. - Diga-me o que fazer. E se ele tiver deixado Paris... e no me quiser mais?
No podia aceitar que aquele amor tivesse sido coisa de momento, e que ele j a tivesse esquecido.
Percebera sinceridade na voz do conde quando ele dissera que a amava. Vira o seu olhar e no acreditava que um homem, ainda que fosse o maior ator do mundo, conseguisse 
representar to bem.
Eu o amo!, disse para si mesma.
Sentia todo o seu corpo ansiar por ele, chamando-o, dizendo-lhe que ela estava em perigo, pedindo-lhe que viesse para o seu lado e a ajudasse.
Estava to desesperada que, quando eram quatro horas, aproveitando que a princesa se encontrava deitada em seu quarto, Vernita desceu at o vestbulo para perguntar 
se algum dos criados havia visto o conde.
Disse que trazia um recado da princesa para ele, mas o criado balanou a cabea.
- Monsieur no esteve aqui hoje - respondeu ele. - Talvez tenha encontrado algum mais bonito para se divertir, o que acho meio difcil.
Ele falava com a familiaridade de um criado para outro; ento, como Vernita se mostrasse desesperada, ele disse:
- Saia comigo uma noite dessas. Eu lhe darei um pouco de alegria!
- Obrigada, mas tenho muito o que fazer - respondeu Vernita, subindo a seguir as escadas, enquanto pensava que o criado ficaria muito surpreso se soubesse quem mais 
apareceria para estar com ela  noite.
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Dirigiu-se ao seu prprio quarto. Sentou-se, imaginando o que deveria fazer, pois o tempo passava e o conde no aparecia para ajud-la em sua deciso. E isso deveria 
acontecer antes das nove horas.

A porta se abriu e uma das camareiras entrou. Trazia uma capa de veludo azul na mo e entregou-a a Vernita.

- Seja uma santa e conserte isto para mim - disse ela. - Eu a tinha deixado de lado, achando que no seria necessria at o inverno, mas me enganei.

- Sua Alteza Imperial pretende us-la esta noite? - perguntou Vernita.

A camareira assentiu.

- Est esfriando, e como Sua Alteza est sempre meio nua, acredita que possa apanhar um resfriado! - No havia respeito na voz da camareira. Ao sair do quarto, completou: 
- Rpido! Ela pensa que fui busc-la no guarda-roupa e me mandar para o inferno se souber que eu ainda no tinha mandado consert-la!

Vernita sabia que isso era verdade.

A princesa, embora displicente com quase tudo, era muito meticulosa com as suas roupas e com a sua casa.

Era indolente, mas sempre inspecionava a casa todas as segundasfeiras, insistindo na limpeza de todos os compartimentos. Se algo estivesse sujo, ela ficava enfurecida, 
gritando com os criados at que estes ficassem tremendo  sua frente.

Tomando em seu colo a capa listrada de cetim e veludo e debruada com arminho branco, Vernita rapidamente consertou-a, e depois desceu as escadas do fundo, em direo 
ao quarto da princesa.

J estava quase chegando l quando, com surpresa, viu um homem que passava pela porta. Teve apenas uma rpida viso dele, mas seu corao deu um sobressalto, na 
certeza de ser o conde.

Ele estava ali, finalmente estava ali! Agora ela precisaria encontrar um momento para lhe contar o que acontecera e perguntar-lhe o que fazer.. -

Dirigiu-se  porta e, quando levantou a mo para bater, ouviu a princesa exclamar:

- Napoleo! Eu no o esperava a esta hora!

- Quero falar com voc.

Houve uma pausa e Vernita percebeu que estavam esperando que as duas criadas se retirassem para um quarto anexo quele.

- O que aconteceu? O que h de errado? - perguntou Pauline.

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- Vim v-la imediatamente porque tive notcias de Fouch a respeito daquele conde sueco.

- De Fouch? - exclamou, raivosamente, a princesa. - No est querendo me dizer que aquele rato venenoso anda me espionando, no ? Eu o odeio! Ele destila veneno 
aonde quer que v!

- Sei disso! - respondeu Napoleo, - Mas ele tambm encontra veneno nos lugares mais improvveis.

Havia certo tom em sua voz que fez com que Pauline perguntasse:

- O que est querendo me dizer?

- Fouch acha - disse, lentamente, o imperador -, embora no esteja absolutamente certo, que o homem a quem voc chama de conde Axel de Storvik seja um espio a 
soldo da Inglaterra.

- No acredito! - respondeu Pauline. - Como ele poderia saber? Por que ele imagina isso?

- O embaixador sueco referendou sua bona fies, mas h um funcionrio da embaixada que conta outra histria.

- Um funcionrio? - perguntou Pauline zombeteiramente. - O que ele poderia saber?

O imperador caminhou pelo quarto.

- Fouch tem certo controle sobre o homem. De qualquer forma, arguido na polcia, ele disse que o conde tem mandado algumas cartas daqui de Paris, duas ou trs vezes 
por semana.

- Para onde? - perguntou Pauline.

- Ostensivamente para a Sucia - respondeu o imperador -, mas o informante acha que isso  simplesmente um disfarce e que as informaes, na verdade, seguem para 
nossos inimigos.

- Eu acho que tudo isso  loucura! - retorquiu Pauline. - No posso imaginar algum menos espio que Axel. Alm disso, ele  sueco e voc sabe muito bem que a Sucia 
 neutra!

- No tenho tanta certeza disso - respondeu o imperador. - H rumores muito vagos de que os suecos tm feito acordos com os ingleses.

- No acredito nisso! - exclamou novamente Pauline. - E, se Axel for um inimigo, por que tentaria lhe vender um canho, que voc, sem dvida, iria usar contra a 
Inglaterra e talvez contra a prpria Sucia?

- Isso realmente  um ponto a favor dele - admitiu o imperador -, mas, francamente, Pauline, no gostei do que ouvi! Fouch tem certeza de que o homem est dizendo 
a verdade a respeito das cartas, e acha que ele falar mais se for pago ou ameaado.

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- No acreditarei em uma s palavra at que haja prova positiva disso tudo.

- Teremos algo esta noite - respondeu o imperador. - O funcionrio sueco est com a polcia secreta neste momento e Fouch est indo para o ministrio, para saber 
o que eles descobriram.

- Ento, esperaremos at sabermos o que foi dito.

- No tomarei medida alguma,  claro, at ouvir Fouch novamente

- disse o imperador. - Mas, minha querida irm, no conte muito em ver o conde esta noite, ou em qualquer outra ocasio.

- Por que no? - perguntou a princesa.

-  bvio - respondeu Napoleo. - Voc sabe muito bem que, se ficar provado que ele  um espio, por mais que tentemos esconder, toda Paris ficar sabendo. E, como 
o nome dele est ligado ao seu, haver um grande escndalo. - Ele suspirou, antes de continuar: -  extraordinrio, Pauline, que voc consiga atrair o que eu mais 
quero evitar: mexericos e especulaes a respeito da famlia!

- Se voc manda Fouch esquadrinhar os esgotos, dificilmente poderia esperar que voltasse com outra coisa que no fosse sujeira!

- Voc no entende a severidade disto - disse Napoleo rispidamente. - Esse homem, Storvik, andou discutindo estratgia militar com vrios de meus generais. Hoje 
mesmo eu o tinha enviado ao general Berthier, que est em Saint-Cloud. - Ele soltou uma exclamao de profunda irritao, antes de continuar: - Berthier, como Ney, 
 discreto, mas Deus sabe o que Junot pode ter-lhe dito, antes que partisse para Portugal.

- E voc acha que qualquer informao que ele haja conseguido tenha sido enviada  Sucia?

- Espero que tenha seguido somente para l!

- Se quer saber, toda essa intriga s existe na mente de Fouch

- observou Pauline. - Voc pediu-lhe que achasse algo desagradvel, e ele achou! Ele perderia sua reputao se no o fizesse!

- Apenas podemos esperar e ver - respondeu Napoleo. - Mas isto  uma ordem, Pauline! Voc no ver esse homem! No entrar em contato com ele e, principalmente, 
no deixar que venha a esta casa!

Pauline soltou uma exclamao de raiva.

- Creio que voc montou tudo isto simplesmente para privar-me do nico homem a quem quero ter neste momento, o nico homem que me atrai!

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- H muitos outros homens em Paris.

- Mas no to atraentes quanto Axel!

- Se ele for realmente o que penso - disse Napoleo -, no percebe, criana boba, que ele a est simplesmente usando como meio para conhecer as pessoas das quais 
poder extrair as informaes de que necessita?

Pauline no respondeu e, depois de um momento, ele perguntou:

- Quem o apresentou a Junot?

Houve silncio antes que a princesa respondesse, relutantemente:

- Creio que fui eu. No posso me lembrar.

- Imagino que Junot o tenha mandado a Ney, e assim por diante
- disse o imperador. - A cadeia dos acontecimentos  bvia, e, se quiser saber a verdade, digo-lhe que considero extremamente provvel que esse homem que voc considera 
to atraente v acabar em frente a um peloto de fuzilamento!

Pauline gritou:

- No, no! Eu no deixarei!

- No h nada que possa fazer - respondeu Napoleo. - Nesse meio tempo, a menos que queira ser mandada de volta para seu marido, no se comunique com esse pilantra 
sueco, nem mencione seu nome em pblico.

- Eu o odeio! - bombardeou Pauline. - Odeio o modo como sempre acaba estragando meu divertimento e fazendo-me sofrer!

Houve silncio por um momento; ento, o imperador disse, em um tom que demonstrava que ele estava magoado:

- Desculpe-me, Pauline. Ela no respondeu, e Napoleo, depois de um momento, disse:

- Preciso ir. Tenho uma recepo antes do jantar, mas voltarei aqui, como voc sabe, embora no v v-la!

- Por que voc pode ter o seu prazer e eu no? - perguntou a princesa.

- Talvez tudo isso seja apenas uma tempestade em copo d'gua respondeu o imperador -, mas, honestamente, no tenho esperana!

Ouvindo tudo aquilo, Vernita percebeu que o imperador ia sair e, rapidamente, escondeu-se nas escadas dos fundos.

Ouviu o som da porta se abrindo e se fechando e os passos do imperador no topo das escadas onde ela estava escondida, e depois percebeu que ele se dirigia ao vestbulo.
Vernita sabia que os ajudantes-de-ordens estariam esperando por ele
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e que Napoleo deveria passar por filas de criados reverentes at chegar  sua carruagem, deixada no ptio.

Ela esperou por alguns minutos, at ter certeza de que ele no retornaria, e ento chegou-se  porta da princesa e bateu.

Aps um momento, uma das criadas a abriu.

- Trouxe a capa para Sua Alteza Imperial.

- Leve-a de volta - disse uma das criadas. - Ela no ser necessria esta noite. Sua Alteza decidiu usar algo diferente.

A camareira fechou a porta sem convidar Vernita para entrar, e esta achou que agora estava livre, livre para ir avisar Axel e dizer-lhe que deixasse Paris imediatamente.

No duvidava por momento algum de que o imperador estava certo.

Agora entendia por que o conde lhe dissera que deveria partir a qualquer momento. Agora sabia por que ele dissera que deveriam se esquecer um do outro.

Mas o mais importante era o fato de ele no ser um inimigo! Ele no estava colaborando com a Frana, como pensara, contra a Inglaterra!

Era uma novidade maravilhosa e ela o amou ainda mais!

Ao mesmo tempo, Vernita dava-se conta de que Axel estava em grande perigo e de que havia muito pouco tempo para que desaparecesse, antes que as suspeitas de Fouch 
fossem confirmadas!

Ela alcanou o andar trreo e percorreu vrios cmodos em direo aos fundos da casa.

Entrou no quarto de dormir oficial, abriu uma das amplas janelas francesas e saiu para o jardim.

Agora, teria apenas que se esgueirar por entre as moitas e rvores, tomando cuidado para no ser vista das janelas, e alcanar a porta que a conduziria aos Champs 
lyses.

Seria atravs daquela porta, lembrou-se ela, que o imperador entraria naquela noite, esperando encontr-la.

Seguia cuidadosamente, inspecionando para ver se ningum do Palcio de Charost a estaria observando; nisso, percebeu que comeava a chover e fazia muito frio.

Foi a que notou que ainda carregava a capa da princesa.

Vernita colocou-a sobre os ombros.

Puxando o gorro por sobre a cabea, de forma que seu rosto ficou emoldurado pelo arminho branco, comeou novamente a seguir, o mais rapidamente possvel, em direo 
ao Palcio de Cleremont.

 uma sorte saber onde o palcio se encontra, pensou ela.

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Afastado da rua, com um ptio  frente, com portes de ferro, ele tinha uma entrada impressionantemente imponente.

Mas Vernita, naquele momento, estava preocupada em bater  porta o mais rapidamente possvel, usando as aldravas de prata polida.

A porta abriu-se e um criado, usando a libr clarete e dourada do Cleremont, esperou que Vernita falasse.

- Desejo ver o conde Axel de Storvik.

- Monsieur l comte espera pela senhorita?

O criado estava, obviamente, impressionado com o luxo de sua capa e a pergunta foi respeitosa,

- Diga-lhe que mademoiselle Bernier precisa v-lo imediatamente! Como o criado percebesse que a situao era urgente, convidou Vernita a entrar e mostrou-lhe o pequeno 
salo que dava para o vestbulo Este possua uma elegncia muito diferente dos cmodos do Palcio de Charost.

A moblia estava coberta com renda feita a mo, as cores j esmaecidas pelo tempo. A moblia dos sculos XVII e XVIII era classicamente francesa e as pinturas emolduradas 
em dourado retratavam os ancestrais dos Cleremont, que haviam contribudo em muito para a Histria da Frana.

Mas Vernita no tinha olhos para tudo isso. Tudo o que pensava era no conde e em sua segurana.

Seu corao batia violentamente no peito e seus dedos tremiam, sentindo que o tempo estava passando e que Fouch e sua polcia secreta chegariam a qualquer momento.

A porta se abriu e o conde apareceu, com uma expresso de surpresa nas faces.

- Vernita! - exclamou ele. - O que faz aqui? O que aconteceu? Ela correu em sua direo e jogou-se nos braos dele, enquanto dizia:

- Eles descobriram que voc no  o que aparenta ser. A polcia vir prend-lo a qualquer momento. Voc tem que deixar Paris... imediatamente. Tem que partir...

- O que  isso? O que est me dizendo?

- Ouvi o imperador dizendo  princesa que instrura o chefe da polcia, monsieur Fouch, a fazer investigaes a seu respeito. Um funcionrio da embaixada sueca 
contou-lhes sobre as cartas enviadas por voc para a Sucia. E disse que poderia revelar mais ainda do que tinha visto e ouvido.

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Os olhos do conde encararam o rosto de Vernita enquanto esta falava. Ento, ele se abaixou e beijou-a na testa.

- Obrigado, minha querida!

Ele soltou os braos dela e abriu a porta que fechara ao entrar no salo. Chamou um dos criados.

- Mande Henri imediatamente aqui!

- Certamente, monsieur l comte! O conde fechou a porta novamente.

- Como voc diz, devo deixar Paris imediatamente - disse ele e preciso agradecer-lhe tambm por ter-me salvo a vida!

Vernita olhou para ele e, ento disse, com voz muito baixa: - Por favor... leve-me com voc!

- No posso fazer isso - respondeu o conde. - Preciso fugir, e seria muito perigoso, para voc, estar comigo, caso eu seja preso.

- Voc... no entende... Eu sou... inglesa.

- Inglesa?! - exclamou o conde.

- Meus pais e eu estvamos em Paris quando o armistcio terminou!

- Ento voc pode ser presa tambm! - exclamou o conde. - Por que no pensei nisso? Naturalmente, isso explica tudo!

- Ento... posso ir com voc? - perguntou Vernita. Ela achou que ele hesitava e, ento, completou: - Precisa levar-me! O imperador ordenou que me encontrasse com 
ele... hoje  noite... naquele quarto onde nos encontramos ontem!

- Maldio! - disse o conde. - Sim, naturalmente, voc tem que vir comigo!

A porta se abriu e um homem pequeno apareceu.

- O senhor me chamou, monsieur?

- Sim, Henri, temos que partir imediatamente! Os ces esto em meu encalo!

Pareceu a Vernita que a expresso do homem no se alterou. Ele disse simplesmente:

- Est tudo pronto, monsieur. Levarei a bagagem para os estbulos.

- Obrigado, Henri.

O empregado deixou o salo e Vernita olhou interrogativamente para o conde.

- Henri e eu sempre estivemos esperando que isso fosse acontecer
- disse ele. - Mas, minha querida, voc tem certeza de que confia em mim?

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- S sei que preferiria morrer... a viver sem voc.

Ele estendeu os braos e novamente Vernita aninhou-se neles. Os lbios do conde pousaram nos dela e ele a beijou lentamente, com amor possessivo.

Ento, de mos dadas, saram do salo em direo ao vestbulo. O conde dirigiu-se ao criado e este lhe trouxe a capa, a cartola e as luvas de montaria. Ento, mais 
uma vez conduzindo Vernita pela mo, como se ela fosse uma criana, seguiu por um longo corredor at os fundos da casa, onde estavam localizados os estbulos.

Dois cavalarios estavam ajeitando uma parelha de cavalos entre os varais de um coche. Outro levantava a cobertura. Um criado ajudava Henri a acomodar as valises 
na traseira do veculo.

O conde ajudou Vernita a montar e estendeu uma manta sobre seus joelhos. Ento, apanhou as rdeas. Henri sentou-se no banco traseiro, e, segundos depois, eles saam 
do ptio e tomavam uma pequena rua que os conduzia aos Champs lyses.

Tudo aconteceu to rapidamente que Vernita parecia nem ter recuperado o flego, antes que seguissem por uma larga avenida que os conduzia para fora da cidade.

- Estamos indo embora? - perguntou ela, um pouco nervosamente. Eram suas primeiras palavras, desde que tinham deixado o Palcio de Cleremont.

- Vamos para onde o diabo nos carregue! - praguejou ele. Vernita soltou uma exclamao de surpresa,

- Voc fala ingls!

- No fique surpresa - respondeu ele -, pois  minha lngua nativa! Ela voltou-se para ele, espantada.

- Voc  ingls?

- Meu nome real  Tregarron - respondeu ele -, lorde Tregarron. Mas, para mim, foi fcil disfarar, pois tenho uma av sueca e os Storvik so, na verdade, meus parentes.

- Mas o imperador disse que o embaixador sueco deu um voto de confiana a voc.

- Ele me confundiu com meu primo, que se chama realmente Axel, e que  o verdadeiro conde de Storvik. Acontece que ele  seis anos mais velho do que eu!

- Foi muito corajoso de sua parte! - disse Vernita, com os olhos
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brilhando. - Nunca imaginei que voc fosse ingls, de outra forma ter-lhe-ia dito quem eu era.

- E foi um engano de minha parte no desconfiar de sua verdadeira nacionalidade, mas voc falava um francs perfeito e, no jogo que eu pratico, aprendi a suspeitar 
daqueles que no se expressam perfeitamente no papel que representam.

- Fico contente que tenha achado meu francs bom - disse Vernita. - Aprendi-o com uma famlia imigrante,  qual mame e papai ofereceram hospitalidade durante a 
revoluo. Tinham dois filhos da minha idade; assim, o francs tornou-se to natural para mim como minha prpria lngua.

- Isso explica tudo - disse ele -, mas eu deveria ter suspeitado quando voc disse que seu cavalo se chamava Dragonfly.

Vernita riu levemente.

- Eu percebi que tinha cometido um erro, mas conversava com voc sem pensar. E estou sonhando ou  realmente verdade que estamos juntos e no h mais segredos entre 
ns?

-  verdade - respondeu lentamente. - Mas, minha querida, voc tem conscincia de como as consequncias sero terrveis? No creio que a matem, mas com certeza ser 
presa at que termine a guerra.

- No tenho medo, desde que esteja com voc. - Ele voltou-se e sorriu para ela. Ento, Vernita disse: - Talvez devesse ter perguntado antes, mas para onde estamos 
indo?

- Vamos para o Sul - respondeu ele. - Eu e Henri sempre achamos que seria uma loucura ir para o Norte, que  para onde a polcia e o exrcito achariam que iramos 
seguir. De qualquer forma, poderemos escapar por Marselha.

- Voc confia em Henri? - perguntou Vernita.

- Completamente, da mesma forma que ele confia em mim! respondeu ele. - Henri era cavalario do duque de Trevise, pertencente a uma das famlias mais antigas da 
Frana, mas matou um soldado que tentava raptar-lhe a irm. Escapou da priso, fugindo em um barco de contrabandistas para a Inglaterra.

- Foi inteligente da parte dele - disse Vernita, fascinada com a histria.

- Infelizmente, os contrabandistas tiraram-lhe todo o dinheiro que possua. E eu fiquei sabendo de sua existncia quando foi apanhado roubando nabos em minha propriedade, 
por no ter mais nada para comer h muitos dias.

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- E voc deu-lhe abrigo.

- Empreguei-o - respondeu ele. - Aconteceu durante o armistcio, quando eu tinha deixado o exrcito, onde estivera por cinco anos.

Mas achava, como muitas pessoas na Inglaterra, que estvamos vivendo um curto perodo de calma, antes que arrebentasse novamente a tormenta.

- Papai achava que, finalmente, teramos paz - disse Vernita.

- Era o que todo mundo esperava - respondeu ele -, mas eu sabia o quo insaciavelmente ambicioso era Napoleo, e que ele nunca descansaria enquanto no tivesse conquistado 
todo o mundo.

- Acha que ele conseguir? - disse Vernita, com voz muito baixa.

- No enquanto a Inglaterra existir! Disso tenho certeza absoluta!

- E quando a guerra recomeou, voc tornou-se um espio?

- Essa  uma palavra desagradvel - disse ele, com um retorcer de lbios -, mas basicamente foi o que aconteceu.

- E achou que seria mais fcil conseguir informaes na Frana, se viesse com o ttulo de conde 
- Foi um plano cuidadosamente armado - explicou ele. - Eu o discuti com o-primeiro-ministro, com o Foreign Office e com vrios comandantes militares, os quais estavam 
muito ansiosos por saber que tipo de equipamento a Frana possua.

- Ento o imperador estava certo - disse Vernita, com uma pequena exclamao, - Ele disse  princesa que o marechal Ney e o general Junot poderiam ter dado a voc 
informaes militares que seriam valiosas para os inimigos dele.

- Napoleo sempre foi muito astuto - concedeu ele. - Foi exatamente o que eles fizeram. Foi por isso que insisti em trazer comigo um projeto de canho que era muito 
superior e mais malevel que tudo o que os franceses possuem neste momento.

- Eles no o construiro? - perguntou Vernita.

- Talvez tentem, mas levar tempo para o projeto ser desenvolvido. Nesse meio tempo, nosso exrcito j ter vrias dessas armas, e teremos muitas mais no futuro.

Vernita bateu palmas.

- Foi inteligente a atitude! Muito inteligente de sua parte! E, embora tenha que partir daqui, j ajudou bastante nosso pas!

- Creio que as informaes que consegui passar sero muito valiosas, assim que chegarem ao seu destino!

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- Acredita que cheguem?

- Tenho certeza. Seguiram pela mala diplomtica, e a Sucia  ostensivamente neutra.

- O imperador duvida disso.

- E tem razo em faz-lo. vou lhe dizer algo que, duvido, possa ser mantido muito tempo em segredo.

- O que ?

- No dia 3 de dezembro, um dia depois que Napoleo foi coroado imperador, ns, os ingleses, assinamos um acordo secreto com os suecos, assegurando-nos a ilha bltica 
de Rgen e a fortaleza de Stalsund por oitenta mil libras!

- Por que queremos esses lugares?

- Para um desembarque anglo-russo em terras ucraneanas.

- E acha que isso ajudar a derrotar Napoleo?

- Creio que apressar a sua morte! - respondeu ele. Ao terminar de falar, suspirou. - Temos um longo caminho  nossa frente. No momento, Napoleo  o maior poder 
da Europa, e muitas naes tm medo de se opor a ele.

Vernita estava quieta, pensando em como o imperador parecia confiante, e como era idolatrado por seus concidados, a quem ele dera brilhantes vitrias e um senso 
de poder que no conheciam h muitas geraes.

No falou nada sobre isso. Ento Axel, olhando para ela, disse:

- Voc est parecendo uma pessoa muito rica!

- Acho que roubei... esta capa!

- Ela cai bem em voc.

Vernita corou ao ver a expresso dos olhos dele. Ento, quando ele novamente voltou a prestar ateno nos cavalos, ela disse:

- Voc notou que no tenho nada comigo, a no ser o que estou vestindo?

- Compraremos o que precisar.
- Deve ter cuidado e no gastar seu dinheiro assim to rapidamente
- advertiu Vernita, lembrando-se de como o dinheiro de seu pai fora desaparecendo gradualmente, deixando-o cada vez mais pobre.

Como se ele tivesse pensado a mesma coisa, disse:

- No se preocupe. Hoje  noite pretendo estar com um amigo que fornecer todo o dinheiro de que precisemos, at que possamos conseguir um barco que nos leve para 
casa.

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- Um amigo? - perguntou Vernita.

- O visconde de Cleremont, com quem estava em Paris. Ele est neste momento em uma de suas propriedades no campo, perto de Me lion, que  para onde estamos indo.

- Ele ter coragem de nos esconder, sabendo que a polcia est no nosso encalo?

- Voc gostar de meu amigo - disse Axel. - Ele pertence a uma das famlias mais aristocrticas da Frana e odeia Napoleo, a quen considera um novo-rico; e um corso, 
no um francs!

Vernita riu.

- Isso foi exatamente o que os criados disseram, quando falaram francamente a respeito da princesa.

- O visconde de Cleremont  um dos meus amigos mais ntimos. Estivemos na universidade juntos e ele frequentemente ficava comigo na Inglaterra.

- Assim, voc confiou nele ao vir para a Frana.

- Como com Henri, eu estava muito feliz em deixar minha vida em suas mos.

- Amedronta-me quando voc diz isso - falou Vernita.

- Tenho muita sorte em possuir muitas pessoas que cuidam de mim, especialmente voc, minha querida! - Axel sorriu.

- Fiquei muito preocupada e infeliz durante todo o dia - contoulhe Vernita. - Quando a princesa me disse, ontem  noite, que o imperador queria se encontrar comigo 
s nove horas, fiquei to amedrontada que a nica coisa que queria era estar com voc e perguntar-lhe o que deveria fazer.

- No pude ir ao Palcio de Charost hoje! - respondeu Axel.

- Depois eu soube. O imperador disse  princesa que mandara voc a Saint-Cloud para se encontrar com o general Berthier.

- Quando recebi a mensagem, no havia como avis-la de que deixaria Paris logo - explicou Axel -, mas como sabia que a princesa iria jantar fora, pretendia esperar 
at que ela tivesse sado e, ento, pediria para ver voc!

- Os criados ficariam muito surpresos!

- Eu acharia alguma desculpa - disse Axel. - Tudo o que importava era que voc no ficasse preocupada ou contrariada. - Fez uma pausa antes de continuar: - Sei o 
que voc deve ter sentido quando fui ao quarto oficial ontem, e a vi nos braos do imperador.
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- Voc ficou... furioso? - perguntou Vernita, em voz baixa.

- Sabia que no era culpa sua - respondeu Axel -, mas, se algum imperador devesse ser destronado, seria Napoleo, que perdeu sua dignidade!

- Voc no poderia fazer isso! S Deus sabe o que iria lhe acontecer!

- Tudo isso passou por minha cabea - disse Axel -, mas cheguei  concluso de que eu seria mais til para voc vivo do que morto, ou encarcerado na Bastilha!

- Eu fiquei to surpresa! Tinha descido a fim de procurar um brinco que a princesa esquecera sobre a mesa, junto  cama...

Ao falar, lembrou-se de sua suspeita sobre o motivo que levara a princesa a retirar os brincos.

Corou e deixou de pensar em qualquer outra coisa, a no ser no cime que tomava conta de seu peito.

Axel trocou as rdeas de mo e segurou a de Vernita, levando-a aos lbios.

Ela estava sem luvas e os lbios dele pareciam duros e possessivos contra a maciez de sua pele.

- Eu a amo! - disse ele profundamente. - Esquea o passado, esquea tudo, a no ser que estamos juntos, como quis o destino!

Vernita sentia-se vibrar com essas palavras, com o tom com que eram pronunciadas e com o toque dos lbios dele.

Chegou-se um pouco mais junto dele e, olhando-o, murmurou:

- Eu o amo... tanto... que nada mais importa neste mundo. Ele soltou a mo de Vernita; ento disse, com um tom diferente:

- Temos que pensar sria e cuidadosamente em como planejaremos o futuro. De agora em diante, qualquer descuido far com que percamos nossa felicidade.

- Eu sei disso - concordou Vernita. - Oh, Axel, Axel, ajude-me a ser to inteligente como voc, a representar de forma que ningum suspeite!

Axel sorriu e disse:

- Tenho a impresso, Vernita, de que teremos sucesso no que desejamos, por estarmos to prximos um do outro, e porque temos tudo a ganhar, ou a perder!

Vrnita segurou-lhe o brao.

- Voc est certo - disse ela, em voz baixa. - Venceremos, pois

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sei que papai e mame nos ajudaro, e porque estarei rezando a todo instante para que cheguemos juntos  Inglaterra, e em segurana!

- A Inglaterra, nosso lar! - disse Axel suavemente.

Os olhos dele encontraram os de Vernita e esta percebeu que era isso o que ambos queriam, estar em casa e juntos para o resto de suas vidas!

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CAPTULO VI
Seguiram por algum tempo e logo j estavam fora dos subrbios de Paris.
Vernita no conseguia deixar de olhar para trs, para verificar se estavam sendo seguidos pelos soldados ou pela polcia montada.
Embora Axel lhe tivesse assegurado que Fouch, e sem dvida o imperador tambm, concluiriam que eles tivessem seguido para o Norte, ela no conseguia deixar de sentir 
medo.
Os cavalos de Axel seguiam em timo passo e no havia motivo para preocupaes, a menos que Fouch fosse mais perceptivo que imaginavam.
Vernita nada falara por algum tempo, at que perguntou:
Acha que seu amigo no ter medo de ajud-lo, quando souber das suspeitas do imperador? Axel sorriu.
vou contar-lhe um segredo: Etienne de Cleremont ajudou muitos refugiados nesses ltimos dois anos, e , na verdade, um adversrio ferrenho do regime de Napoleo. 
Isso no  muito perigoso? Axel balanou os ombros, antes de dizer:
Neste momento, Napoleo est cortejando a verdadeira nobreza
francesa, para conseguir apoio. Ele sabe que nas cortes da Europa  considerado um usurpador. Na verdade, o imperador da ustria, que
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 o chefe das linhagens reais europeias mais antigas, rejeitou todas as oferendas de amizade que ele fez.

-  muita coragem de seu amigo visconde ajudar queles que tm que fugir da Frana - disse Vernita. - Se eu soubesse... mami estaria viva.

- Gostaria que isso tivesse acontecido - disse Axel -, mas, agora o importante  que voc esteja a salvo!

- E voc tambm - disse Vernita, com suavidade na voz.

Ele olhou para ela por um momento, com um sorriso nos lbios, sua expresso fez com que o corao de Vernita disparasse.

Mas Axel voltou sua ateno para os cavalos, pois o importante naquele momento era seguir rapidamente at a casa do visconde, onde estariam a salvo.

Mas mesmo assim, quando finalmente alcanaram as redondezas de Fontainebleau, tendo parado apenas para comer rapidamente alguma coisa em uma taberna isolada, Vernita 
sentia-se apreensiva.

Uma coisa era o visconde ajudar seu amigo e coloc-lo a salvo; mas Vernita sabia muito bem que, em uma situao como aquela, uma mulher era um incmodo, e ela sentia-se 
como um verdadeiro trambolho

J era bem de tarde quando, finalmente, alcanaram uma estrada emoldurada por limeiras, onde,  distncia, encontrava-se o castelo cinzento com suas venezianas de 
madeira.

- Esta  apenas uma das propriedades rurais de meu amigo disse Axel, enquanto conduzia os cavalos para a porta principal - e felizmente, uma das menos conhecidas. 
Se Fouch estiver me buscando  mais provvel que se dirija ao castelo do vale do Loire, que  a residncia ancestral dos Cleremont.

Parou os cavalos e os cavalarios vieram dos estbulos para segur-las Ento, antes que tivessem descido do coche, a porta se abriu e apareceram empregados para 
saud-los.

- Bonjour, Jacques! - disse Axel a um homem idoso. - Monsieu le comte est em casa?

- Oui, monsieur l comte - respondeu o criado. - O senhor e madame poderiam me seguir?

Ele os conduziu atravs de um vestbulo atraente e abriu a porta de um salo, cujas janelas davam para um grande jardim.

Uma dama e um cavalheiro estavam sentados juntos em um sof, e quando o criado anunciou "monsieur l comte Axel de Storvik", ambos se levantaram.

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- Axel! - exclamou o visconde. - O que o traz aqui? O que aconteceu?

- Voc sabe a resposta.

Axel atravessou o salo e, tomando a mo estendida da dama, levou-a aos lbios.

-  um prazer v-la, Marie-Claire - disse ele -, mesmo que nesta circunstncia desagradvel.

Dois olhos escuros olharam-no apreensivamente.

- Eles descobriram quem  voc? - perguntou ela.

- Ainda no - respondeu Axel. - Mas suspeitam de minhas credenciais.

Ao falar, virou-se para Vernta, que permanecera pouco atrs dele, e trouxe-a para junto de si.

- Posso lhes apresentar a srta. Vernita Waltham? - perguntou ele.

- Esteve escondida por dois anos em um sto em Paris, com medo de que ela e sua famlia fossem presas.

A viscondessa soltou uma pequena exclamao e estendeu ambas as mos para Vernita.

- Oh, pobre criana! - disse ela. - Deve ter sido terrvel! Mas Axel a descobriu!

- Ns nos encontramos - respondeu ele -, e agora voc v que tenho dois motivos essenciais para escapar das mos de Fouch

- Ele suspeita de que voc veio para c? - perguntou o visconde.

- Espero que no - respondeu Axel. - Deixei uma carta para eles encontrarem, dizendo a voc que tinha que partir para a Sucia, em razo de negcios urgentes. E 
Henri disse aos cavalarios que estvamos seguindo para o Norte.

- Bem, isso pe Fouch fora de sua pista, pelo menos por enquanto

- observou o visconde -, mas nunca se pode ter certeza.

- Tenho certeza de que a srta. Waltham gostaria de subir e se lavar

- disse a viscondessa. - Quando comeram pela ultima vez?

- Parece que foi h muito tempo - admitiu Axel. - E, como estvamos com pressa, no foi nada substancial.

- Ento precisam de um bom jantar. - A viscondessa sorriu.

- H algo que gostaria de lhe pedir - disse Axel, olhando para seu amigo, o visconde.

- O que ?

- Conseguiria arranjar para que eu e Vernita nos casssemos?

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Se Axel tinha surpreendido seu amigo, Vernita estava espantada.

Ento, quando seus olhares se entrecruzaram, Vernita deu-se conta de que era isso o que ambos queriam, pois eles se amavam e o casamento era algo inevitvel.

- Casarem-se? - perguntou o visconde. - Mas naturalmente que  possvel! O querido velho padre Grard, embora tenha se retirado, ainda continua vivendo no povoado. 
Sempre confiamos nele e nunca nos falhou. vou mandar busc-lo imediatamente!

Vernita achou que deveria ser tpico do visconde no fazer qualquer comentrio: ele simplesmente aceitava a situao e se prontificava a ajudar seu amigo.

- No queremos correr nenhum risco... com nosso procedimento!

- disse Vernita, hesitante. Ao mesmo tempo, no deixou de estender sua mo e segurar a de Axel.

Os dedos dele pousaram sobre os dela e Vernita sentiu-se protegida, sabendo que a nica coisa que importava  que desejava pertencer a ele. Se tinham que ser presos, 
que o fossem juntos!

- Tudo ser arranjado, Axel - prometeu o visconde -, mas a cerimnia ter que acontecer tarde da noite, aps os criados terem ido para a cama. Podemos confiar neles, 
como sabe, mas, quanto menos souberem, melhor!

- Naturalmente concordou Axel. 
A viscondessa tomou Vernita pelo brao e conduziu-a em direo  porta.

- Isso  muito excitante! - disse ela. - Temos que deix-la muito bonita para Axel, que  um de nossos melhores e mais queridos amigos!

- No tenho mais nada... a no ser as roupas que estou usando

- respondeu Vernita. - Quando ouvi o que o imperador dizia  princesa Pauline, corri diretamente para os Champs lyses, pois sabia que Axel estava l.

- Voc ouviu o imperador?! - exclamou a viscondessa. - Voc estava no Palcio de Charost? Conte-me tudo desde o comeo!

Ao subirem as escadas, Vernita comeou a histria e logo elas alcanaram um atraente dormitrio no primeiro andar, com uma cama drapeada com musselina branca.

Tudo era muito fresco e charmoso, como as flores que havia no jardim.

Vernita soltou uma exclamao de prazer:

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- Que quarto maravilhoso! E como sua casa  bonita!

- Creio que voc acharia qualquer quarto maravilhoso, depois de ter vivido em um sto por tanto tempo - disse, simpaticamente, a viscondessa. - Agora, pensemos 
em algo bem bonito para voc usar em seu casamento! Sua capa , certamente, resplandecente!

- No  minha! Pertence  princesa Pauline - respondeu Vernita.
- Eu me esqueci de que estava com ela no brao, e s me dei conta disso quando cheguei aos Champs lyses; e, como estava chovendo, vesti-a!

- E certamente lhe ficou muito bem - disse a viscondessa -, mas voc tem que se casar de branco. Felizmente, lembrei-me de que estou com um vu da famlia Cleremont 
aqui, pois minha irm o emprestou no ms passado e eu ainda no o mandei de volta para o castelo!

- Um vu! - exclamou Vernita, com os olhos brilhando.

Ela queria ficar linda para Axel. Ele somente a vira com o vestido preto de Louise e com aquele cor de malva, que, na verdade, fora de sua me.

No h nenhuma mulher no mundo que no deseje usar branco no dia de seu casamento, pensou ela.

Embora quisesse dizer  viscondessa que no queria dar trabalho algum, sabia que gostava muito de poder se parecer com o tipo de noiva que Axel sempre sonhara.

A viscondessa ordenou um banho para Vernita. Enquanto se banhava, sentia que a gua tpida no s limpava a sujeira da viagem como tambm arrefecia toda a tenso 
que passara desde que sara de Paris.

Depois de ter-se enxugado, vestia a camisa quando a viscondessa entrou no quarto, trazendo um vestido de noite branco. Ele parecia muito delicado e era enfeitado 
com babados de fil no decote e na bainha.

- Ele  muito simples, mas creio que ficar bem em voc! - disse a viscondessa.

-  lindo! - exclamou Vernita.

Tudo o que Vernita possua era de dois anos antes, e, embora somente uma mulher pudesse perceber a diferena, a moda tinha se alterado e os vestidos eram muito mais 
elaborados do que em 1803.

Ela o vestiu e a viscondessa exclamou, com satisfao:
 - Est apenas um pouco largo na cintura - disse ela -, mas  que voc  to magra! - Ao falar, olhou para Vernita e completou

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suavemente: - Sei o porqu e desculpe-me. Deve ter sido terrvel para voc, sabendo que no podia comprar as coisas de que sua me necessitava.

- Apenas gostaria que mame estivesse aqui hoje - respondeu Vernita. - Ela ficaria muito contente por eu ter encontrado algum como Axel.

- Creio que sua me ficaria feliz em saber que a filha est se casando com uma pessoa to maravilhosa - respondeu a viscondessa. Meu marido conhece Axel h muito 
mais tempo que eu, mas ambos o consideramos excepcional, com um carter muito correto.

- E muita coragem! - completou Vernita.

- Isso nem  preciso dizer - concordou a viscondessa -, mas, embora a coragem de um homem lhe d orgulho, tambm traz dor de cabea,

Ela falava com certa emoo na voz, o que fez com que Vernita suspeitasse que, s vezes, ela se sentia temerosa por seu marido.

- Estamos sendo muito egostas colocando-os em algo que, talvez, lhes traga muitas complicaes? - perguntou Vernita.

A viscondessa sorriu.

- Cr que Etienne considera isso uma complicao? Ele tem ajudado muita gente. Embora eu, s vezes, sinta medo de que ele v longe demais e acabe sendo preso ou 
guilhotinado!

- Tenho vergonha por estarmos solicitando muito de vocs - disse Vernita.

A viscondessa fez um pequeno gesto com as mos.

- Para que so os amigos? Queremos ajud-los.! Estamos envergonhados pelo fato de a Frana ter provocado tantos sofrimentos e tantas mortes desnecessrias por toda 
a Europa. - Deu um profundo suspiro, que pareceu vir de muito dentro de si, antes de completar: - Talvez um dia tenhamos paz; mas no, tenho certeza, enquanto Napoleo 
estiver vivo! - Ento, com uma rpida mudana de humor, ela disse:
- Mas no falemos de coisas tristes no dia de seu casamento!

- Um surpreendente dia de casamento! - Vernita sorriu. - No tnhamos falado nisso at agora.

- Mas voc sabe o que significam um para o outro - disse suavemente a viscondessa.

- Creio que soubemos to logo nos conhecemos - respondeu, com simplicidade, Vernita.

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A viscondessa chamou uma criada e disse-lhe que ajustasse o vestido branco, para que ficasse correto e revelasse a esbelta silhueta de Vernita.

No falaram do casamento na frente da empregada, e apenas quando Vernita estava pronta e elas desceram juntas foi que a viscondessa disse:

- Subiremos aps o jantar, para colocar o vu, e eu tenho uma tiara de brilhantes que servir para segur-lo.

-  muita gentileza! - respondeu Vernita.

A camareira arrumara-lhe os cabelos em um estilo da moda. Vernita achava que, assim, Axel no teria por que se envergonhar dela em frente dos amigos.

A viscondessa no era bonita, mas tinha um rosto muito doce, com expressivos olhos escuros, bem como os cabelos, que possuam reflexos azulados.

Ela estava maravilhosamente vestida e caminhava com uma graa que, de certa forma, fazia eco  distino e ao orgulho que emanavam de seu marido.

Os dois cavalheiros esperavam por elas no salo, e, quando Vernita entrou, achou que seria impossvel encontrar dois homens que parecessem to distintos e que tivessem 
tanta autoridade em suas posturas.

Enquanto caminhava em direo a Axel, Vernita olhava para a expresso da face dele, notando que se sentia contente com a aparncia dela. Nenhuma mulher se enganaria 
quanto a isso!

Ao chegar perto dele, Axel tomou-lhe a mo.

- Espero que aprove a aparncia de sua futura esposa - disse a viscondessa. - Mais tarde ela ficar parecendo ainda mais uma noiva. Isto , se Etienne tiver arrumado 
tudo.

- Padre Grard chegar s nove e meia - disse o visconde. Mandei que uma carruagem fosse busc-lo!

Vernita sentiu os dedos de Axel pressionando os seus, e percebeu que ele lhe dizia, sem palavras, que estava impaciente por faz-la sua esposa.

Ela sentia-se emocionada com esse pensamento. Neste momento, o visconde serviu champanhe e ele e sua esposa levantaram suas taas.

- Aos noivos!

Axel sorriu e Vernita corou. Ento, o visconde disse:

- Sempre lhe avisei que um dia se apaixonaria, Axel, mas voc era to incisivo em dizer que preferia o celibato!

- Achava que isso era essencial  vida que levava - respondeu Axel -, mas quando conheci Vernita soube que meus dias de nmada tinham se acabado!

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O visconde pareceu surpreso.

- O que quer dizer?

- Que, se chegarmos salvos  Inglaterra, por obra de Deus, pretendo fixar-me em minhas propriedades e desempenhar meu papel na Cmara dos Lordes.

- Fico contente, muito contente - disse Vernita. - Acho que no suportaria ser deixada para trs... pensando em voc, que talvez estivesse em perigo... imaginando 
quando voltaria para mim.

- Imaginei que se sentisse assim - disse Axel. Ento, com um brilho nos olhos, completou: - Creio que todo mundo faz um sacrifcio quando se casa; o meu talvez seja 
colocar meu pescoo em uma corda, ou melhor, sob uma guilhotina.

A viscondessa soltou um grito de horror.

- No diga essas coisas!

- Desculpe-me, Marie-Claire - disse Axel. - No devia ter-lhe "causado arrepio", como diria minha velha bab.

O visconde riu.

- A minha dizia exatamente a mesma coisa, mas com razo, pois estvamos todos envolvidos na revoluo.

- Isso me lembra algo - disse a viscondessa. - Voc ver que nossa capela ainda est em pssimo estado. Foi duramente castigada  poca da revoluo e, embora tenhamos 
reparado a casa, foi somente h trs anos, em 1802, que Napoleo permitiu que as igrejas fossem reabertas. Assim, ainda no tivemos tempo para fazer muitas coisas.

- Estava pensando nas "igrejas fechadas" e na escassez de padres, quando perguntei sobre a possibilidade de se arranjar nosso casamento
- disse Axel.

- Voc estava certo ao pensar que seria um problema - respondeu o visconde. - Quando Napoleo reabriu as igrejas, encontrou sessenta bispos!

- E muitos deles so terrveis! - completou a viscondessa.

- Bem, ao menos as pessoas podem ir s igrejas, se quiserem! disse Axel.

- Isso  verdade - concordou a viscondessa. - Sabe, um dia um velho homem do vilarejo disse, cheio de gratido: "Nosso imperador deve ser bondoso, pois nos devolveu 
os domingos!"

Seguiram para o jantar, e, como agora havia criados presentes, o visconde e Axel passaram a brincar um com o outro, recordando fatos antigos, enquanto Vernita e 
a viscondessa riam at as lgrimas.

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Quando o jantar terminou, caminharam de volta ao salo, mas a viscondessa conduziu Vernita para o seu dormitrio.

- Os criados faro sua refeio agora - disse ela, - Assim, no haver camareiras vendo-me arrumar-lhe o vu, e somente o velho Jacques estar de servio. Ele  
perfeitamente confivel, pois cuidou de meu marido desde menino e conhece todos os nossos segredos.

Ela fez com que Vernita se sentasse em um tamborete,  frente do toucador, e tirou de uma caixa um lindo vu de renda de Bruxelas, to delicado que deveria ter sido 
feito por mos de fada.

A viscondessa arranjou-o sobre a cabea de Vernita e, para segur-lo, colocou a tiara de brilhantes.

Esta era muito bonita, em forma de coroa de flores, e cada folha era flexvel, de modo que, quando Vernita se movimentava, era como se as flores estivessem vivas.

- Voc est muito bonita - disse a viscondessa. - E, agora, como o padre Grard deve chegar dentro de poucos minutos, vamos descer! Vernita sentia-se envergonhada, 
mas, como o vu cobria-lhe a face, ela parecia imersa em um mundo todo seu.

Subitamente, deu-se conta de como tudo aquilo era estranho. Estava se casando com um homem que conhecera h apenas poucos dias, um homem a respeito do qual sabia 
muito pouco, mas em quem confiava, e sua alma lhe dizia que aquilo era o seu destino.

Parecia incrvel que Vernita tivesse passado dois anos em um sto, conversando apenas com sua me, os Danjou e algumas outras pessoas. Ento, subitamente, como 
se o sol tivesse vencido a escurido, toda a sua vida se alterara.

Sabia que, mesmo que tivesse muito pouco tempo para viver como esposa de Axel, seria profundamente agradecida a Deus por Ele ter sido to bom com ela.

Quando desceram, Vernita viu que o visconde esperava por ela no

vestbulo.

Ele trazia s mos um pequeno buque de flores brancas, que ofereceu a Vernita, ao mesmo tempo que lhe dava o brao.

A viscondessa desapareceu e Vernita percebeu que ela se adiantara para ir  capela.

Ento o visconde guiou-a por um longo corredor que ligava  capela,

Ia qual era cinza e antiga, e, como tinham lhe dito, estava precisando de muitos reparos.

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Muitos dos vitrais estavam rachados e vrias esttuas de santos tinham suas cabeas arrancadas.

Mas havia seis candelabros no altar e arranjos de flores em cada lado dele.

A capela pareceu muito calma a Vernita, quando esta entrou conduzida pelo visconde. Atravessou a nave e foi juntar-se a Axel.

Ao se aproximar dele, Vernita teve a sensao de que nada ou ningum poderia impedir que se pertencessem, pois eram, na realidade, uma pessoa s que tinha sido dividida 
e cujas metades, agora, pela graa de Deus, voltavam a se juntar.

Ao chegar-se a Axel, viu em seu rosto uma expresso que lhe dizia tudo o que desejava saber.

O cinismo, e mesmo aquele olhar duro de autoridade, tinham desaparecido e ele era um homem que estava amando, um homem que encontrara tudo o que buscava, algo por 
que lutara durante muito tempo. O padre era muito velho, mas pronunciou as belas palavras da cerimnia com muita sinceridade, sem necesidade de um livro de oraes, 
pois elas brotavam do fundo de seu corao.

Vernita no era catlica, mas ela e sua me haviam frequentado a igreja catlica todos os domingos, em Paris, depois que os Danjou disseram que poderia parecer estranho 
se no o fizessem. Ela aprendera as oraes em latim e gostava delas. Deus ouve nossas preces, pensou, qualquer que seja nossa religio, pois qualquer igreja  a 
casa de Deus.

Achava que nada podia ser mais emocionante ou mais sagrado que os juramentos que, agora, ela e Axel faziam entre si.

Quando, finalmente, ajoelharam-se para receber as bnos, Vernita achou que estavam realmente abenoados e sentiu que, naquele momento, no estava a ss com seu 
marido na capela. Seus pais estavam ali tambm, e todos os que os tinham amado quando crianas, e talvez todos os ancestrais deles, que, embora tivessem passado 
para um outro mundo, faziam parte daquele amor que ambos sentiam um pelo outro. Quando se levantaram, Axel ergueu o vu do rosto de Vernita e a beijou.

Era um beijo sem paixo, de dedicao pura, e ele sabia que, ao repetir os juramentos, apenas confirmava que estavam unidos e pertenciam, para sempre, um ao outro.

Tomando o brao de Axel, ela caminhou a seu lado, saindo da capela e dirigindo-se ao vestbulo.
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Ela pensava que ele a conduziria ao salo, mas, ao invs disso, Axel comeou a subir as escadas.

Vernita olhou para ele, como que pedindo uma explicao, e Axel disse calmamente:

- Creio que nenhum de ns deseja conversar com algum mais, e espero que queira ficar a ss comigo, minha querida, da mesma forma que eu quero ficar junto a voc.

O tom da voz dele fez com que Vernita pensasse em msica. Ento, ele a conduziu no ao quarto onde estivera antes do jantar, mas a um outro, localizado no fim do 
corredor, e que era ainda maior e mais imponente.

Havia uma cama de casal adornada com cortinas azuis que caam de uma corola dourada, mas, quando Axel fechou a porta, Vernita s teve olhos para ele.

Ele aproximou-se dela e continuou a olh-la.

- Voc  tudo o que eu quis em minha vida - disse ele - e  difcil traduzir em palavras o quanto a amo!

-  mesmo verdade... que estamos casados? - perguntou Vernita.

- Estamos casados, mas se voc quiser, minha querida, quando chegarmos  Inglaterra nos casaremos novamente, porque sei que no  catlica.

- Seria impossvel ter tido um casamento mais bonito - respondeu Vernita -, mas ele  legal?

- De acordo com as leis francesas, ns deveramos comparecer ainda diante de um juiz - respondeu Axel -, mas em todos os outros pases do mundo a cerimnia  vlida; 
portanto, voc  minha esposa.

-  tudo o que quero ser!

- Tem certeza?

- Absoluta - respondeu ela, adiantando-se para ele. Ele no a beijou; tirou a tiara dos cabelos e o vu.

Ento enlaou-a e puxou-a para si, como se no mais pudesse controlar a necessidade que sentia dela.

- Eu a amo, Vernita - disse ele. - Eu a amo alm das palavras e do pensamento. Voc  minha, como soube que seria desde que a vi com aquela expresso de desamparo 
nos olhos.

Ao falar, pousou seus lbios nos dela e beijou-a como j fizera anteriormente, com aquela emoo e xtase que percorreram o corpo de Vernita como labaredas de luz.

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Agora, as sensaes que ele lhe despertava eram mais maravilhosas ainda, mais excitantes do que tinham sido antes. Ela se chegou mais a ele, enquanto era beijada 
apaixonadamente, no apenas nos lbios, mas nos olhos, nas faces e na suavidade de seu pescoo.

- Eu a quero, Deus sabe o quanto a quero! - disse Axel -, mas, minha querida, eu serei muito gentil, pois no quero que tenha medo de mim!

- Eu... no estou com medo - murmurou Vernita -, pois tudo  to perfeito... to maravilhoso... como sempre imaginei que seria o amor... e voc  o marido que... 
sempre sonhei!

-  verdade?

- Sim, s que voc  ainda mais maravilhoso... mais magnfico... do que qualquer outro homem que eu pudesse imaginar - respondeu Vernita.

Ele soltou uma risada de felicidade e novamente beijou-a apaixonadamente, at que ela colocou seus braos em volta do pescoo de Axel, querendo-o mais prximo ainda.
O conde levantou-lhe a cabea e olhou para ela, para suas faces coradas e seus lbios rosados, para seus olhos brilhantes de emoes que ela mesma no conseguia 
compreender.

Vernita apenas sabia que essas emoes percorriam todo o seu corpo, fazendo-a sentir-se viva, de maneira diferente de tudo o que conhecera antes.

- Voc  to bonita que parece uma flor - disse Axel apaixonadamente.

Vernita estendeu-lhe os lbios, esperando que ele a beijasse novamente.

- Minha esposa, minha preciosa esposa, meu amor, meu nico amor!

Vernita sentiu as mos de Axel adentrando por sob seu vestido branco, mas os beijos no deixavam que ela pensasse em qualquer outra coisa!

O sol mal tinha se levantado e eles j partiam do castelo, aps terem se despedido calorosamente do visconde e da viscondessa.

Axel acordara-a com um beijo, to cedo que ainda estava escuro. Vernita soltara um pequeno murmrio de felicidade e tentara se chegar mais prximo dele.

- Temos que partir, minha querida - dissera ele.

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Eu... o amo!



murmurara ela.
- E eu a amo! - respondera Axel. - Mais do que possa lhe dizer!

Ela estendera o brao para pux-lo junto a si, mas Axel dissera:

- Levante-se, minha querida!

- Quero que me beije - murmurara ela.

- No s quero beij-la, como passar todo o dia aqui, fazendo amor com voc - respondera ele. - Mas, meu corao,  essencial que cheguemos a Marselha o mais rapidamente 
possvel, a menos que queiramos correr o risco de ser capturados.

As palavras dele foram como gua fria e Vernita sentara-se na cama. Percebendo, ento, que estava nua, puxara a coberta por cima de seus seios descobertos.

Axel rira calmamente e beijara seus ombros. Ento, ele se levantara e se dirigira ao cmodo vizinho, onde sabia, que Henri j esperava... por ele. -

Ao ficar sozinha, Vernita levantara-se rapidamente e comeara a se lavar.

Estava comeando a se vestir quando a porta se abrira e a viscondessa entrara.

- Trouxe algumas roupas para voc - dissera ela - e tambm arrumei em duas valises tudo o que penso que lhe ser necessrio na viagem para a Inglaterra. Espero no 
ter me esquecido de nada.

- No gostaria que se desfizesse de nada - exclamara Vernita,

-  um prazer poder arranjar-lhe algumas coisas - respondera a viscondessa. - Axel acha que voc no deveria viajar com a capa, pois poderia levantar suspeitas. 
Assim, eu a compensei, sabendo que poderei ter um novo chapu de arminho e um regalo.

Vernita sorrira.

- Creio que nunca terei algo imponente por muito tempo!

- Espero que ache atraentes as coisas que empacotei para voc dissera a viscondessa - e, alm disso, tenho aqui comigo uma capa de veludo preto debruada com zibelina.

- Mas no devo levar algo to esplndido! - dissera Vernita. E este vestido  muito atraente!

- Eu, naturalmente, quero que tenha a melhor aparncia possvel
- respondera a viscondessa - e voc estar me representando!

- Representando? - repetira Vernita, atnita.

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A viscondessa sorrira.

- Pensei que Axel tivesse lhe contado o que ele e meu marido planejaram, mas creio que tiveram coisas muito mais importantes para conversar ontem  noite. Vernita 
corara e a viscondessa continuara:
- Temos disfarado as pessoas de mil maneiras; alguns homens j se vestiram de mulher para que pudessem chegar  fronteira sua. Mas Etienne acha que seria mais 
fcil se vocs se passassem pelo visconde e a viscondessa de Cleremont. 
- E... se... a polcia os achar aqui? - perguntara Vernita.
- Eles no o faro - respondera a viscondessa. - Se algum aparecer, ficar sabendo que ns partimos para Nice, que  um lugar muito adequado para se estar, nesta 
poca do ano. - Onde estaro realmente? - Temos um pequeno pavilho de caa onde algumas vezes escondemos refugiados. Fica na floresta, a cerca de quinze milhas 
daqui. No que me diz respeito, ningum sabe de sua existncia, exceto ns mesmos
e dois ou trs de nossos criados mais confiveis. Estaremos l at que tenhamos certeza de que vocs conseguiram alcanar Marselha ou, talvez, j estejam a caminho 
da Inglaterra.
-  tanta... tanta bondade de sua parte! - exclamara Vernita. A viscondessa lanara-lhe um sorriso malicioso.
- Confesso que ter Etienne s para mim significa quase que uma segunda lua-de-mel. Enquanto voc estiver desfrutando a sua, por mais incomum que seja, estarei gozando 
a minha!

Vernita inclinara-se e a beijara.

- Como posso agradecer-lhes?

- Apressando-se! - replicara a viscondessa. - De outra forma, Axel ficar aborrecido com voc e Etienne comigo!

As palavras dela colocaram Vernita em ao e rapidamente ela vestira o atraente vestido que a viscondessa lhe trouxera, juntamente com uma pequena jaqueta justa, 
do mesmo tecido..

Era um vestido verde-escuro, que lhe caa muito bem; havia tambm um chapu, decorado com flores de seda, que a deixava muito elegante

e bonita!

- Pode no precisar da capa neste momento - dissera a viscondessa -, mas, quando estiver no mar, far frio, e, na baa de Biscaia,
certamente ventar. Vernita suspirara.

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Parecera-lhe que ainda existia um longo caminho, antes que chegassem  Inglaterra.

Como que sabendo o que Vernita estava pensando, a viscondessa dissera:

- No se preocupe! Etienne diz que sou clarividente e estou totalmente convencida de que ambos alcanaro a Inglaterra em plena segurana.

- Espero que esta horrvel guerra acabe logo, e que vocs possam vir ter conosco por algum tempo - dissera Vernita. A seguir, soltara uma risada. -  incrvel, mas 
nunca perguntei nada a Axel sobre sua casa. No sei como ela , nem onde fica!

- Voc descobrir - profetizara a viscondessa. -  magnfica e extremamente confortvel.

Ela providenciara tambm para Vernita uma bolsa de mo que continha p, batom e ruge, o que ela nunca havia usado antes.

Mas no houvera tempo para mais nada, a no ser apanh-la, enquanto a viscondessa segurava sua capa. Tinham corrido escadas abaixo, onde o desjejum fora preparado.

Como o visconde e Axel j o tinham terminado, Vernita comera rapidamente e bebera uma xcara de caf. Dirigiram-se, ento, para o vestbulo.

Pela porta aberta, vira uma elegante carruagem adornada com as armas dos Cleremont.

Quatro cavalos a puxariam e dois batedores a acompanhariam durante a viagem.

- Eles traro de volta a carruagem, quando vocs tiverem chegado a Marselha - dissera o visconde, como se Vernita tivesse feito a pergunta. - Podemos confiar neles. 
So dois homens que esto comigo h muitos anos e consideram uma boa piada, e uma grande faanha, poderem iludir as tropas de Npoleo.

Ento, aps as despedidas, partiram to rapidamente que Vernita se sentira quase que transportada pelo ar.

Somente ao alcanarem a estrada principal, que os conduziria a Montarges, foi que ela disse:

- No acredito que duas pessoas possam ser to boas e fazerem tanto por seus amigos quanto os Cleremont.

- Sabia que voc gostaria de Etienne e Marie-Claire - disse Axel.
- Eles so pessoas excepcionais e amaram voc. Acharam que era o tipo de esposa adequada para mim.

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Vernita chegou-se um pouco mais prximo a ele e perguntou:

-  o que voc acha tambm?

- E voc duvida? - perguntou ele. - Quando estivermos novamente a ss, como ontem  noite, eu lhe direi mais uma vez que voc  exatamente o tipo de esposa que eu 
queria!

Sem ligar para o fato de Henri estar sentado atrs deles, e de a capota estar rebaixada, Vernita recostou sua cabea por um momento nos braos de Axel.

- Eu o amo! - disse ela, em um tom que somente ele poderia ouvir.

- Se continuar falando desse jeito - disse ele -, eu a beijarei e correremos perigo de sofrer um acidente!

- Ento, eu me portarei bem - disse ela. - Oh, Axel, a noite de ontem foi to maravilhosa, to perfeita, que desejaria me ajoelhar em cada igreja que encontrasse 
e agradecer a Deus por ser sua esposa!

- Eu sinto o mesmo - respondeu ele. - Eu a fiz feliz?

- Mais feliz do que possa lhe dizer - respondeu ela. - E depois desses dois anos, quando pensei nunca encontrar algum para amar, o que aconteceu foi um milagre.

Os olhos de Axel estavam fixos nos cavalos, e ela completou, aps um momento, suspirando:

- Louise sempre me dizia: "Voc vai pentear Santa Catarina", mas agora, incrvel e maravilhosamente, sou uma mulher casada!

- Tive que pedir emprestada a sua aliana - disse Axel.

- Fiquei imaginando onde teria conseguido, mas creio que foi com o visconde, no ?

- Ela pertenceu  me dele e eu lhe prometi que, assim que tivesse comprado uma outra para voc, guardaria esta at que ele pudesse recuper-la.

Vernita acariciou a mo esquerda, de forma a sentir a aliana.

- O crculo eterno - murmurou ela. - Ele simboliza que nosso casamento  inquebrantvel e que estaremos juntos at a eternidade!

- E voc cr que eu a deixaria ir? - perguntou Axel. Havia um tom em sua voz que emocionou Vernita.

Ento, como sentisse uma vontade louca de aninhar-se em seus braos, forou-se a pensar em outras coisas.

- Quanto falta ainda para chegarmos a Marselha? - perguntou.

- Conversei sobre isso com Etienne - respondeu o conde. - Ele

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me disse que uma diligncia, que tem a mesma potncia que nosso veculo, leva seis dias de viagem entre Paris e Lyon. Mas ela pra muito mais vezes do que pretendemos; 
assim, creio que, com esses cavalos, levaremos cerca de quatro dias e meio para chegar a Lyon.
- E a Marselha?
- Mais trs dias. - Vernita no respondeu, e, depois de um momento, Axel disse: - Tenho medo de que ache as hospedarias muito desconfortveis, minha querida, mas 
trouxemos nossas prprias roupas de cama, assim como nossas mantas.
Vernita olhou surpresa para ele, que prosseguiu:
-  assim que o visconde de Cleremont e sua esposa sempre viajam, mas voc ficar contente em saber que tenho bastante dinheiro para conseguir as melhores acomodaes 
possveis. Mas Etienne pediu para lhe avisar que nem as melhores so muito boas.
- Nada importa, desde que estejamos juntos - disse Vernita,
-  o que penso - concordou Axel. - Agora devemos evitar qualquer pessoa que conhea Etienne e Marie-Claire. - Fez uma pausa e continuou: - Sei que  improvvel 
que isso acontea, mas como velho jogador desse tipo de jogo, acho melhor nos acautelarmos.
- O que devemos fazer?
- Ser vistos em pblico o menos possvel, e, quando chegarmos a uma hospedaria, Henri arranjar tudo antes que desembarquemos.
- Como ele far isso?
- Montar o cavalo de um dos batedores, que ocupar, ento, o lugar dele na carruagem. Esperaremos fora da cidade ou do vilarejo; ento, chegaremos com um soar de 
trombetas, para que todos fiquem impressionados com nossa importncia. - Ele riu, antes de continuar:
- Assim que chegarmos, Henri a ajudar a descer e voc entrar rapidamente na hospedaria, com um leno no rosto, afirmando que est adoentada. Eu a seguirei o mais 
rpido possvel. Jantaremos sozinhos em um reservado, e, se no houver isso, em nosso prprio quarto.
- vou gostar disso - disse Vernita impulsivamente.
- Eu tambm - respondeu Axel. Ele olhou para ela e completou:
- Ser uma lua-de-mel estranha, minha querida, mas sem dvida ser uma lua-de-mel, e espero que tiremos compensaes disso tudo!
- Apenas quero lhe dizer que eu o amo e continuarei a afirmar isso para sempre!
- E eu a amo, minha querida!
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Vernita olhou para o conde com um sorriso e ele abaixou sua cabea em uma frao de segundo, e beijou os lbios dela.
Ento, enquanto ela se emocionava toda com aquele toque, ele retomou sua ateno sobre os cavalos, e eles seguiram pela estrada que Os conduzia para o Sul envoltos 
em uma luz celestial.

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CAPTULO VII
Para Vernita, parecia que viajavam h uma eternidade!
A paisagem que passava por ela no tinha fim, com as altas rvores projetando suas sombras sobre a estreita via, o sol que se alternava com rpidas pancadas de chuva.
Felizmente a carruagem tinha uma capota que os protegia e os Cleremont haviam providenciado para que tambm Henri possusse uma, em seu assento traseiro.
A maioria dos aristocratas, pensava Vernita, tanto na Frana quanto na Inglaterra, no se preocupa muito com seus empregados.
Os batedores seguiam a descoberto, mas estavam acostumados e pareciam no se importar com a chuva que batia em seus rostos, ou com o vento que ameaava fazer voar 
suas cabeleiras brancas e suas capas de veludo verde.
Se as hospedarias eram desconfortveis, Vernita no notou.
Os anos de privao haviam deixado sua marca e ela no s dormia ao lado de Axel na carruagem, como tambm assim que sua cabea tocava os travesseiros.
Quase nem notava se os quartos onde se alojavam eram sujos ou limpos e se a comida era boa ou ruim.
- Desculpe-me... - disse ela a Axel, quando percebeu que, na noite anterior, dormira ao ser beijada por ele.
- Acha que no entendo? - perguntou ele. - Tudo o que quero, minha querida,  lev-la para a Inglaterra. Ento, poder descansar e
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eu a deixarei como deve ser uma mulher em sua idade: com sade e felicidade!
- Estou brilhando de felicidade agora - respondeu ela. - Estou mais feliz do que poderia imaginar, porque eu o amo muito.
- E eu a amo alm de todas as palavras - disse ele, puxando-a para si.
Mais uma vez tiveram que se levantar, aprontar-se rapidamente e partir por uma estrada que parecia conduzi-los a um horizonte que nunca alcanariam.
Vernita interessava-se pelas pequenas cidades por onde passavam. Pouilly era conhecida por sua gua mineral; Nevers, por sua catedral e o palcio ducal; Moulins, 
segundo Axel, possua um memorial ao duque de Montmorency, e, finalmente, Lyon, onde havia dois grandes rios que se uniam, o Sane e o Rdano.
Era uma cidade da poca romana, Vernita sabia, que possua um teatro que ela gostaria de conhecer. Mas estava cansada demais e s queria dormir.
Havia tambm algo em que no estava nem um pouco interessada: as ruas estreitas, que eram mal pavimentadas e muito sujas. Axell contou-lhe que as mulheres dali poderiam 
ser muito bonitas se no comeassem a perder seus cabelos e dentes quando ainda eram muito jovens.
- Por que isso acontece? - perguntou ela.
- Disseram-me que os mdicos atribuem isso aos nevoeiros frequentes que cobrem a cidade, mas eu, pessoalmente, creio que tenha algo a ver com a gua ruim.
Em Lyon acharam um bom hotel, o Auberge du Pare, onde a comida era certamente muito melhor que tudo o que tinham provado na viagem.
Conseguiram uma confortvel sala de estar particular e Axel insistiu, como j o fizera nos outros lugares onde tinham parado, que Vernita no usasse um daqueles 
lindos vestidos que a viscondessa lhe arrumara.
Ao invs disso, ela usou um nglig to atraente quanto o que confeccionara para a princesa Pauline, e reclinou-se no sof enquanto jantava.
Uma taa de champanhe ajudou a dissipar um pouco a fadiga e, enquanto ela e Axel riam juntos, Vernita achava que ele, sem dvida, era o homem mais atraente do mundo.
Aps terem terminado o jantar, ele disse:
- Agora voc deve ir para a cama. Ela estendeu-lhe os braos e murmurou:
- S se voc... vier tambm.
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- Voc sabe que gostaria, mas preciso ir ver os cavalos antes, minha querida. Fiquei um pouco preocupado, pois achei um deles um pouco cansado hoje.
Vernita pareceu apreensiva.
- Isso quer dizer que nos atrasaremos? 
- Ou que precisaremos comprar outro cavalo - respondeu ele -, embora, nessa pressa, no tenha condies de adquirir um to bom quanto os que Etienne me emprestou.
Ele se abaixou e tomou-a nos braos.
- vou lev-la para a cama - disse Axel - e digo-lhe que est muito leve. S ficarei contente quando forem precisos dois homens para carreg-la.
Ela riu e, enlaando-o no pescoo, colocou sua face junto  dele.
- Tenho medo - disse ela - de que esteja achando nossa lua-de-mel muito aborrecida, j que no fao outra coisa seno dormir. Mas no posso deixar de lhe dizer o 
quanto o amo!
- Fico contente em ter, neste momento, uma Bela Adormecida em minha vida - respondeu Axel. - E, francamente, minha querida, eu guio melhor e mais rapidamente quando 
voc no me distrai, pois fico com muita vontade de beij-la!
Ele carregou-a para o quarto adjacente e a depositou sobre a cama.
- No conseguirei dormir at que volte - disse Vernita. - Assim, por favor, no se demore!
Mas ela nunca soube se Axel se demorara ou no, pois, quando ele voltou, Vernita j estava dormindo e o conde resolveu no acord-la.
Permaneceu ao lado da cama, olhando para ela  luz dos candelabros, e havia uma expresso muito terna no rosto dele.
Sabia o quanto Vernita devia estar cansada; era impossvel que se recuperasse rapidamente, depois de muito tempo de privaes.
Jurou para si mesmo, enquanto olhava aqueles clios negros contrastando com a pele alva, que faria tudo o que fosse possvel para que ela se esquecesse de seus sofrimentos.
Poucas mulheres teriam sido to doces e compreensivas como ela demonstrara ser nesses ltimos quatro dias.
As estradas tinham sido speras, houvera chuvas desagradveis e comida ruim nas hospedarias onde haviam se alojado!
Mas Vernita apenas rira desses infortnios!
Cada vez que partiam, e ela sentava-se perto dele, na carruagem, adormecendo quase que imediatamente, ele continuava a dirigir, sentindo 
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que a amava e sabendo como era feliz por ter uma mulher como aquela por esposa!
Houvera muitas mulheres na vida de Axel, o que no era uma surpresa, considerando-se o quanto era atraente. Quando fora soldado na ndia, e em outras aventuras, 
nunca viajara sozinho.
Aprendera a temer o tipo de mulher que sempre queria chamar a ateno para si, que se tornava petulante quando as coisas no iam bem e nunca cessava de reclamar.
Quando Axel foi para a cama, teve que resistir a um impulso de acordar Vernita e lhe dizer o quanto a amava.
A cada dia ele sentia que seu amor por ela crescia e se tornava mais apaixonado; mas ele a amava o bastante para no ser egosta e perceber que ela precisava de 
sono e de boa alimentao.
Ele disse a si mesmo que, pela manh, diria a ela o quanto a amava, mas, na verdade, no houve tempo para isso.
Foram acordados por Henri, que entrou no quarto antes que o sol nascesse.
Quando ele atravessou o quarto para abrir as cortinas, Axel teve certeza de que algo de anormal havia ocorrido e sentou-se na cama.
- O que foi, Henri? - perguntou.
O homem chegou-se ao lado da cama e disse em voz baixa:
- No quis perturb-lo ontem  noite, milorde, mas estiveram aqui dois homens, presumivelmente da polcia, fazendo perguntas ao hoteleiro, a respeito dos hspedes.
Os olhos de Axel ficaram alerta.
- Acha que suspeitaram de ns?
- No sei, milorde, mas eles inspecionaram a carruagem, que estava no ptio, e perguntaram a um dos batedores para onde estvamos indo.
- E ele lhes disse que vamos para Nice?
- Sim, foi o que disse, milorde. Mas, ento, eles fizeram a mesma pergunta ao proprietrio e isso me pareceu estranho.
- No devemos ficar desnecessariamente ansiosos - disse Axel calmamente -, mas voc sabe que Fouch tem espies por toda parte. Embora eu ache improvvel que algum 
deles tenha conseguido chegar aqui antes de ns, no podemos perder tempo.
-  o que penso, milorde.
- Muito bem - decidiu Axel -, vamos partir imediatamente.
- Irei providenciar para que os cavalos fiquem prontos, milorde.
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Henri saiu do quarto e Axel voltou-se para Vernita, que estava semiacordada.
- O que... ? - bocejou ela. - No  muito cedo para partirmos?
- Creio que vamos ter que faz-lo imediatamente, minha querida. Num instante ela estava totalmente desperta.
- O que h de errado? O que aconteceu?
- Nada alarmante - respondeu Axel. - Apenas uma precauo contra pessoas que parecem inquisitivas. Rpido, minha querida!
Ele a beijou e, quando saiu da cama, Vernita soltou uma pequena exclamao.
- Oh, Axel, eu estava dormindo quando voc voltou, ontem  noite, e queria tanto ter ficado acordada.
- Voc fica muito bonita dormindo!
- Mas senti falta de conversar com voc!
- Perdeu mais do que isso - disse ele, com um sorriso -, mas repararemos tudo ao chegarmos  Inglaterra.
- Quando chegarmos  Inglaterra!
Essas palavras pareciam ressoar na mente de Vernita, enquanto rapidamente se vestia, sentindo como se mos frias apertassem seu corao e lhe dissessem que estavam 
em perigo!
Apenas quando j tinham sado de Lyon e se encontravam novamente na estrada foi que ela se sentiu em condies de respirar um pouco mais aliviada.
Agora, na ltima parte da viagem, ps-se a rezar intensamente, para que conseguissem escapar.
Mesmo dormindo, sonhava que estava rezando e que viajavam, e viajavam.
Por estar muito cansada e ansiosa, os dias pareciam transcorrer interminavelmente. No dia seguinte, estariam perto de Marselha.
Passaram a noite em Valence e esta pareceu mais agourenta que qualquer outra cidade onde tinham estado, pois Axel lhe contara que Napoleo fora educado ali, quando 
tinha dezesseis anos, e frequentara a cole d'Artillerie.
Quando pensava no imperador sentia-se como que perseguida por ele, que a prenderia, como fizera no palcio de Pauline Bonaparte ao mant-la em seus braos.
Somente a chegada de Axel impedira que ele a beijasse.
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Ela o odiara ento e o odiava cada vez mais, agora que sabia que ameaava a sua felicidade, pois talvez no conseguissem escapar dele.
Logo deixaram Valence para trs e chegaram a Montelimar, onde a Frana plantara sua primeira amendoeira, no sculo XVI, e cujo doce de amndoas era o mais delicioso 
do mundo, conforme o que lhe contara Axel.
Ele comprara alguns para ela, e, no dia seguinte, eles os comeram na prpria carruagem, rindo como duas crianas com aquela massa deliciosa.
Na noite seguinte, chegaram a Orange, e quando passaram sob o Arco do Triunfo, erigido em 49 a.C. para comemorar a vitria de Jlio Csar, Vernita disse a si mesma 
que, quando chegassem  Inglaterra, erigiria um, em gratido pela fuga triunfal.
No precisaria ser um monte de pedras sem utilidade; mas se ela e Axel tivessem condies, poderiam construir um orfanato ou colaborar com um hospital; enfim, algo 
que exprimisse sua gratido a Deus por terem sido salvos.
Pela primeira vez percebeu que nunca havia falado a respeito de dinheiro com Axel.
Ela achava que ele era rico porque parecia rico, e a viscondessa lhe dissera que possua uma casa magnfica. Mas no sabia mais nada. Ento, quando seguiam, disse 
a ele:
- Nunca falamos disso, mas creio que, com a morte de papai, eu sou a herdeira de sua propriedade em Buckinghamshire.
- Ento, eu tenho uma esposa que, alm de linda,  rica?
- Isso  importante?
- Nem um pouco - respondeu ele. - Tenho o suficiente para ns dois.
- Percebeu que nunca conversamos sobre isso?
- H tantas outras coisas mais importantes para serem ditas... quando voc est acordada.
Ela corou e, ento, colocou o rosto no ombro dele.
- Haver muito sobre o que falar... quando tivermos tempo.
- Muitas coisas!
- Sabemos to pouco um sobre o outro.
- Eu sei tudo o que  importante - respondeu ele. - Sei que voc  bonita, doce, gentil e inteligente. O que mais posso esperar de uma pessoa?
Vernita emocionou-se com essas palavras e com a expresso dos olhos dele. Ento, disse:
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- Apenas espero que seja o bastante para mant-lo interessado... em mim!
- Pelo menos por vrias centenas de anos! - ele brincou.
- Mas eu no sei nada, ou quase nada, sobre voc.
- Voc sabe que eu a amo.
- Realmente, a nica coisa que me interessa saber  que voc me ama - murmurou Vernita. - Oh, Axel, estou to terrvel, louca e maravilhosamente feliz!
Ele riu ternamente por causa da intensidade com que ela falara. Ento, pouco depois, ela adormeceu ao lado dele, com um sorriso nos lbios.
Chegaram tarde a Marselha, e as ruas no estavam somente cheias de veculos, mas de pessoas que circulavam, aparentemente sem terem nada para fazer.
Axel achava dificuldade em guiar em meio delas, at que atravessaram a cidade em direo ao seu porto movimentado e prspero.
Era ali que Vernita sabia que deveriam ficar escondidos, at que Axel conseguisse um barco que os conduzisse  Inglaterra. O visconde dera-lhe o nome de um barqueiro 
em quem confiava.
A primeira coisa que fizeram, chegando a Marselha, foi livrar-se da carruagem, dos cavalos e dos batedores.
Seria estranho que o visconde e a viscondessa de Cleremont estivessem pensando em deixar a Frana.
Assim, pararam em uma prspera hospedaria para, ostensivamente, tomar um copo de vinho, enquanto Henri transferia a bagagem para uma carruagem de aluguel.
Ento, depois de terem se despedido dos batedores, um dos quais guiaria a carruagem de volta, Axel e Vernita dirigiram-se a outra penso, tambm recomendada pelo 
visconde.
Era simples e limpa. O proprietrio no lhes fez quaisquer perguntas e mostrou-lhes um quarto e uma sala de estar localizados no primeiro andar, de onde tinham uma 
boa vista do porto.
Henri, depois de haver separado o que iriam usar e ter trocado as roupas de cama, fez o pedido da refeio.
- Tenho medo de que no seja muito confortvel para voc, minha querida - disse Axel, desculpando-se.
- Asseguro-lhe que  um palcio, em comparao ao sto no qual eu e mame vivemos por dois anos - respondeu Vernita.
- Esqueo-me disso quando a vejo to bonita e elegante.
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Vernita chegou-se ao conde, de forma que ele pudesse enla-la
- Nada importa... desde que eu esteja com voc! disse - Isso  o que quero dizer - respondeu ele. - Ao mesmo tempo,
quero lhe proporcionar todo o conforto do mundo, cerc-la de todo o luxo e trat-la como uma rainha. Vernita riu.
- Tenho tudo o que quero... neste momento - murmurou chegando mais perto dele.
Ele a beijou, at que todo o quarto parecesse rodar  sua volta e ela se sentisse flutuando em nuvens l no alto do cu, onde estavam a ss e nada mais importava 
a no ser eles mesmos.
Ento, ouviu-se uma batida  porta e Henri apareceu, seguido por uma criada que trazia o jantar.
Era uma refeio muito simples mas bem-feita e Axel admitiu que o vinho era suportvel.
Henri desapareceu e Vernita j estava na cama, quando ele voltou  sala de estar para conversar com Axel.
- O que descobriu? - perguntou Axel.
- O barco pertencente a Antoine Bouet est no mar, milorde, e ningum parece saber quando retorna - respondeu Henri.
- Ento, no h nada que possamos fazer a no ser esperar, torcendo para que ningum nos descubra.
- Foi o que pensei, milorde - concordou Henri. - Irei ao porto amanh novamente e espero que no demore muito at que Bouet aparea.
- Descobriu algo mais?
- Muito pouco, milorde, exceto que os ingleses tm o controle total do Mediterrneo e que as naves francesas ancoradas em Marselha esto com medo de partir.
- Onde est a principal armada francesa? - perguntou Axel.
- Tentarei fazer algumas perguntas discretas amanh, milorde disse Henri.
Pela primeira vez desde que tinham deixado Paris, Vernita poude dormir at tarde, e Axel no fez qualquer esforo para acord-la.
O sol entrou pelas janelas, inundando o quarto de luz dourada, e. com os braos de Axel  sua volta, os lbios e mos dele provocando-lhe sensaes que nunca imaginara 
ser capaz de sentir, Vernita jamais esteve to feliz!.
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medida que o dia foi passando, ela se deu conta de que Axel estava preocupado. E quando ele permaneceu  janela, olhando para os navios do porto, Vernita percebeu, 
sem que ele lhe dissesse qualquer coisa que estava apreensivo e que, se tivessem que esperar muito tempo por um barco, Fouch os alcanaria
Por am-lo muito e achar que deveria fazer tudo o que pudesse para aliviar sua ansiedade, tentou manter-se alegre e faz-lo rir.
Quando a noite veio, a preocupao dele aumentou e Vernita percebeu que Axel estava querendo descer pessoalmente ao porto e ver se conseguia alguma coisa.
Finalmente, quando escureceu, como se no pudesse mais suportar, ele disse que deveria sair por um curto perodo e Vernita ficou aterrorizada.
Mas, ao mesmo tempo, sabia que fora por amor que Axel consentira em ficar com ela todo o dia, permitindo que Henri sasse sozinho.
com dificuldade, ela engoliu os protestos que j lhe subiam aos lbios, e disse simplesmente:
- No demore muito... Sabe que eu dormirei... e assim ficar muito bravo por eu no estar esperando meu marido... acordada!
Axel enlaou-a e virou o rosto dela para si.
Olhou-a fixamente. Percebeu o que ela sentia e o esforo que fazia para se comportar daquela maneira.
- Voc  perfeita em todos os sentidos - disse ele. - No se preocupe, minha querida, ns no nos perderemos.
Beijou-a apaixonadamente e partiu. Vernita apertou as mos para impedir o choro.
Uma agonia parecia dominar-lhe a alma enquanto permanecia sentada, hora aps hora, com a sensao de que cada minuto demorava um sculo.
- E se Axel nunca mais voltasse? E se ele fosse apanhado e preso e ela nunca ficasse sabendo o que lhe acontecera?
Ento, disse a si mesma que Deus e sua me, que at agora haviam cuidado dela, no a desprotegeriam.
Pensou em dormir, mas isso era impossvel.
Ao contrrio, caminhou pelo quarto, olhando pelas janelas as estrelas e as luzes dos navios refletidas na gua do porto.
O que Axel estaria fazendo? com quem estaria falando? Por que se Demorava tanto?
mal ouviu passos nas escadas e, quando a porta se abriu e


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ele apareceu, Vernita soltou um grito que pareceu ecoar por todas as paredes.

Axel tomou-a nos braos.

- Pensei que tivesse dormido, minha querida - exclamou ele. Ento, ao notar suas faces plidas e o medo que ainda estava estampado em seus olhos, ele disse: - Deveria 
ter confiado em mim, minha querida, mas eu no queria perturb-la, meu amor.

Beijou-a e, ento, percebendo que ela estava fria, carregou-a em seus braos at o sof e aconchegou-a junto a seu corao, como a uma criana que precisasse de 
conforto.

Vernita escondeu o rosto no pescoo dele e Axel beijou sua testa e seus cabelos e uma das pequenas orelhas, antes de dizer:

- Eu tenho boas novas, querida.

- Boas novas? -

"- Sim, o barco de Bouet chegou esta noite. Foi por isso que demorei. Precisei esperar para falar com ele. Partiremos amanh!

- Para Gibraltar?
- Tive uma ideia melhor!

- O que ?

- Bouet soube que lorde Nelson, que como voc sabe  o comandante-em-chefe ingls no Mediterrneo, deixou a Siclia e vem vindo por esta rota. Tentaremos intercept-lo.

- Interceptar lorde Nelson? Mas para onde ele est levando a armada inglesa?

- H um rumor, segundo o que me disse Bouet, de que os navios franceses, aos quais se juntaram os espanhis, esto navegando em direo s ndias Ocidentais. Assim, 
Nelson ir segui-los.

- E o que acontecer conosco?, Axel sorriu.
- Uma vez a bordo de uma nave de guerra inglesa, minha querida no precisaremos nos preocupar em saber para onde iremos. Tudo o que sei  que estaremos a salvo. 
E a armada francesa, onde quer que se encontre, ser aniquilada, como o foi na batalha do Nilo! 
A Vernita parecia muito perigoso estar em meio a uma batalha
Mas, naquele momento, no conseguia pensar em outra coisa
a no ser que estava nos braos de Axel e que, ao menos nas prximas horas no precisaria ficar amedrontada. 
Novamente passaram uma noite muito curta. 
Quando as ruas estavam s escuras e praticamente
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dirigiram ao porto. Henri carregava a bagagem, assistido pelo cansado e taciturno proprietrio da hospedaria.

Ele, no entanto, recuperou-se quando Axel o presenteou com um incrvel nmero de peas de ouro. Desejou-lhes, ento, boa viagem, com um indisfarvel tom de sinceridade 
na voz.

O barco de Antoine Bouet, que j transportara muitos refugiados enviados a ele pelo visconde de Cleremont, era mais largo do que esperavam, para alvio de Vernita.

Era, ostensivamente, um barco de pesca, mas seu proprietrio, apesar dos riscos, conseguia fazer muito mais dinheiro transportando carga humana.

Ele era um marinheiro forte e cordial que dizia a Axel que no se interessava por poltica, e tudo que desejava era ser deixado em paz pelos oficiais governamentais, 
para que pudesse tocar seus prprios negcios.

- Eles esto sempre interferindo, sempre metendo o nariz nos negcios de um homem honesto! - grunhia ele. - No so nada mais que parasitas, e ns, que trabalhamos, 
 que temos que mant-los!

Ele falava por um grande nmero de franceses, os quais, normalmente, no entanto, sentiam-se to amedrontados que s se exprimiam dessa maneira na intimidade de seus 
lares.

Antoine Bouet manejou seu barco para fora do porto pela manh. Mas somente quando alcanaram o mar alto, e parecia que ningum tinha tomado conhecimento da fuga, 
foi que Vernita soltou um suspiro de alvio.

Estava no tombadilho quando Axel a enlaou e Vernita percebeu, pela expresso do rosto dele, que um grande peso fora retirado de suas costas.

- Escapamos! - disse ela, em voz baixa.

- Ainda no! - replicou ele. - Temos que ficar vigilantes, caso encontremos algum pirata ou uma fragata francesa, que nos perguntar o que estamos fazendo to longe 
dos pontos de pesca.

Ele falava preventivamente, mas o brilho de seus olhos desmentia sua prpria precauo.

Ento, ele disse, com os braos  volta dela:

- Agora temos que prestar ateno na armada inglesa.

- Voc tem certeza de que esto... no Mediterrneo?

- No foi somente o que ouvi, mas o que sinto em meus prprios ossos - respondeu Axel. - Se  verdade que os navios franceses e

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espanhis esto se dirigindo s ndias Ocidentais, ento Nelson os estar seguindo.

Infelizmente, o tempo, que parecia bom quando eles deixaram o porto, piorou.

Houve ventos fortes e borrascas, mas Vernita sentia que, embora estivesse extremamente desconfortvel, no enjoava.

No entanto, Axel insistiu com ela para que se deitasse na cabine, para evitar que casse e se ferisse.

Ela ficou contente em obedecer e, enquanto ele continuava curvado no tombadilho, pois queria avistar a armada inglesa, ela dormia ou acordava para rezar uma orao 
de gratido, pois a cada hora que passavam no mar, mais se distanciavam da Frana.

Dois dias de sacudidelas e inclinaes, com as ondas arrebentando sobre o pequeno barco, era muito cansativo.

Somente depois de terem passado duas noites e uma parte do terceiro dia no mar foi que Vernita ouviu um grito provindo do tombadilho, com Axel correndo para dentro 
da cabine.

Ele nem precisava dizer que avistara a armada britnica: a expresso de seu rosto dizia-lhe tudo o que acontecera.
Ele a beijou e subiu novamente para o tombadilho.

Ela o seguiu poucos minutos aps, depois de ter vestido a capa de veludo que a viscondessa lhe dera.

Olhando do convs em direo ao horizonte, ela teve uma maravilhosa viso: dois ou trs deckers e vinte e trs cruzadores a toda a vela.

Era to impressionante, to maravilhoso; que ela sentiu seu corao se encher de orgulho, sabendo que com Axel acontecia o mesmo.

Bouet estivera navegando sem bandeira naqueles dois ltimos dias, mas agora, sob instrues de Axel, ele hasteou a Union Jack e a bandeira de perigo.

Por causa do vento, levou algum tempo at que alcanassem os navios. Ento, mais rpido do que pudesse imaginar, Vernita foi iada por uma escada de corda at a 
nau capitnia, que sabia pertencer ao almirante.

Ao alcanar o convs, parou para acenar para os marinheiros que os tinham trazido at ali em segurana. Ento, ela e Axel foram levados para a cabine do almirante 
e, pela primeira vez em sua vida, Vernita viu lorde Nelson.

Ficou espantada ao notar que ele era mais baixo do que imaginava e

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que possua apenas um brao; alm disso, uma venda sobre um de seus olhos dava-lhe um aspecto estranho.

Ao mesmo tempo, era perspicaz o suficiente para dar-se conta de que, naquele pequeno corpo, havia um grande homem!

Poder e autoridade emanavam dele, assim como tinham parecido emanar de Axel, e quando ele sorriu  sua reverncia, Vernta entendeu por que lady Hamilton achava-o 
irresistvel.

- Meu nome  Tregarron, meu lorde almirante - Vernita ouviu Axel dizer -, e minha esposa e eu estamos fugindo da polcia de Napoleo.

- Ouvi falar do senhor, milorde - respondeu lorde Nelson. - Na verdade, o primeiro-ministro falava a seu respeito, da ltima vez que estive na Inglaterra.

Eles se sentaram e contaram a lorde Nelson suas aventuras. Somente depois de saber como tinham fugido e de tomar conhecimento das informaes que Axel trazia de 
Paris foi que ele relatou seus prprios problemas.

- O almirante Villeneuve esquivou-se de minha vigilncia no cabo de San Sebastian - disse ele -, e segue para oeste, e no para leste, como era de se esperar. Estou 
tentando desfazer a confuso que o governo fez, no me avisando sobre o que estava acontecendo, mas o vento parou de soprar.

- Esteve muito forte, nos dois ltimos dias,

- Em nove dias consegui cobrir apenas duzentas milhas - afirmou lorde Nelson. - Minha sorte parece ter desaparecido.

- O senhor acha que perdeu os franceses? - perguntou Axel.

- Espero que Deus seja misericordioso. Um informante disse-me que os franceses saram da costa espanhola, em direo ao oeste.

- E cr poder alcan-los?

- Tenho que tentar - respondeu lorde Nelson. - Tive que deixar cinco das minhas fragatas guardando as duas Siclias, e somente hoje fiz algum progresso contra o 
pior inimigo dos marinheiros: o tempo!

Conversaram um pouco mais; ento, lorde Nelson informou-lhes que, quando chegassem a Gibraltar, e se o tempo estivesse bom, ele pretendia ficar apenas algumas horas.

- O senhor seguir para oeste? - perguntou Axel.

- Irei a Madeira e, ento, para oeste - respondeu lorde Nelson.
- Se no encontrar os franceses, se eles no tiverem ido para as ndias

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Ocidentais, serei amaldioado! Ser enterrado em efgie ou na abadia de Westminster so as minhas alternativas!

Axel ficou em silncio e Vernita percebeu que ele estava tenso.

Lorde Nelson deve ter percebido o que ele sentia, pois sorriu.

- com relao ao senhor, no se preocupe, milorde. Preciso mandar um navio de volta  Inglaterra para relatar para onde estou indo e onde espero encontrar os franceses. 
O senhor e sua esposa podem seguir nele.

- Obrigado, meu lorde almirante - respondeu Axel. Havia alvio e sinceridade em sua voz.

Foi-lhes arrumada uma cabine, que poderiam ocupar at chegarem a Gibraltar.

No era to grande como a de lorde Nelson, mas era bastante confortvel e, por um momento, parecia que o pesadelo acabara: estavam juntos e no havia mais medo.

Assim que a porta se fechou, Axel estendeu os braos e Vernita jogou-se neles!

Ele desfez os laos do chapu dela e retirou-o de sua cabea. Ento, tomou-a nos braos e a colocou sobre a cama.

Ela ficou recostada nos travesseiros, olhando para ele com um sorriso; Axel retirou o palet e sentou-se.

- Est tudo acabado, minha querida! - disse ele. - Ns escapamos!

- Ns... escapamos! - repetiu Vernita, com um pequeno soluo, pois tudo era muito emocionante.

- Escapamos da Frana e de Napoleo, mas h algo de que no podemos escapar!
- De que ? - perguntou Vernita apreensivamente.

- Do amor - respondeu ele. - O amor que tenho por voc, minha querida, ir mant-la prisioneira agora e para sempre! Voc nunca me escapar!

Vernita riu.

- E acha que eu quero?

Ento, olhando fixamente para Axel, colocou seus braos  volta do pescoo dele e puxou-o at que seus lbios ficassem muito prximos.

- Eu quero ser sua... prisioneira. Eu quero que me prenda e me guarde, no apenas em seus braos, mas em seu corao... pelo resto de nossas vidas!

- Voc est em meu corao! - respondeu Axel. - E  uma parte de mm, de forma que no posso viver sem voc.

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Os braos de Vernita o traziam um pouco mais para perto, mas, por um momento, ele resistiu.
- Voc foi to corajosa, to maravilhosa, minha esposa adorvel! disse ele. - Agora, eu lhe darei tudo o que desejar!
- Isso...  fcil! - murmurou Vernita. - D-me apenas... voc!
- Eu sou seu... assim como voc  minha! - disse Axel. Ento, os lbios dele se colaram aos de Vernita.
Ela se extasiou com o fogo que havia em ambos e que unia seus coraes.
Eu o amo... ame-me... oh, Axel, ame-me!, queria ela dizer.
Mas era impossvel dizer algo.
Podia apenas sentir a glria e a maravilha de seu amor envolvendo-a e despertando algo apaixonado e abrasador dentro de ambos.
Isso fez com que se esquecessem de tudo, a no ser de si mesmos, enquanto as velas acima os levavam de volta para a Inglaterra e para o lar!
FIM
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